Capítulo 4 4

Olhando para trás….

Quando abriu os olhos novamente, havia teto branco, cheiro de antisséptico e um monitor marcando a insistência do próprio coração em continuar batendo.

Foi no hospital que Vicente Ferraz Villar reapareceu em sua vida.

Serena conhecia aquele nome muito antes de conhecê-lo pessoalmente.

Leu artigos, assistiu a palestras, acompanhou pesquisas e utilizou trabalhos dele como referência durante a graduação.

Vicente observará alguns de seus trabalhos acadêmicos e, meses antes, mencionou a possibilidade de integrá-la a um centro independente de pesquisas ambientais que dirigia longe dali.

Serena agradeceu e pediu tempo.

Tinha planos. Tinha Gabriel. Tinha uma vida naquela cidade.

No hospital, já não conseguia reconhecer nenhuma dessas certezas.

Vicente não perguntou por que ela chorava quando acreditava estar sozinha.

Não quis saber quem a fizera atravessar uma rua sem perceber o carro que se aproximava. Não tentou transformar vulnerabilidade em gratidão.

Sentou-se perto da cama, falou do trabalho, explicou que a oportunidade continuava aberta e disse apenas que, se Serena ainda desejasse aceitá-la, haveria lugar para ela.

Ela aceitou.

Naquele momento, chamou aquilo de oportunidade.

Agora sabia que também havia sido fuga.

Horas depois, o ônibus parou num restaurante de estrada.

Serena desceu porque precisava esticar as pernas e comprou um café que quase não bebeu.

Perto de uma mesa, uma menina pequena corria ao redor do pai enquanto ele fingia não conseguir alcançá-la. Mais distante, uma mulher descansava a cabeça no ombro do companheiro.

Serena desviou o olhar.

O café aqueceu suas mãos.

A dor continuava.

Mas, pela primeira vez desde o hospital, outra sensação surgiu ao lado dela.

Raiva.

Não de Gabriel.

De si mesma.

Por permitir que aquela noite ocupasse tudo.

Ela tinha vinte e quatro anos.

Tinha sobrevivido à morte dos pais.

Concluíu uma formação difícil.

Era biomédica.

Tinha capacidade, inteligência e uma oportunidade que muitos pesquisadores levariam anos para conseguir.

Antes de Gabriel, Serena tivera sonhos.

O fim deles não precisava significar o fim dos seus.

Quando retornou ao ônibus, caminhou mais ereta.

A paisagem mudou durante as horas seguintes. As cidades ficaram menores, depois escassas. Vieram campos, serras, rios, plantações, propriedades rurais e extensões de verde que pareciam não terminar. Aos poucos, Serena conseguiu olhar pela janela sem encontrar Gabriel em tudo.

Pensou em Vicente.

No Centro.

Nos laboratórios.

Nas pesquisas.

Pensou na possibilidade de chegar a um lugar onde ninguém soubesse quem ela tinha sido ao lado de Gabriel Montenegro.

E então tomou uma decisão.

Não voltaria.

Não procuraria Gabriel.

Não pediria explicações.

Não permitiria que o homem que acreditava tê-la traído decidisse também quem ela seria depois da traição.

Serena pousou a mão sobre o próprio abdômen sem perceber o gesto. Não havia qualquer razão consciente para fazê-lo.

Era apenas uma posição confortável enquanto observava o vale que se abria além da janela.

Ela ainda não sabia.

Não sabia que carregava dentro do corpo a única parte daquela história da qual jamais conseguiria fugir.

Não sabia que Gabriel acordara sem compreender as horas que faltavam em sua memória.

Não sabia que ele a procuraria.

Não sabia que Vicente deixaria de ser apenas mentor para se tornar família.

Não sabia que aquela oportunidade científica a colocaria, anos depois, diante de homens capazes de destruir florestas, contaminar rios e matar para preservar fortunas.

Naquela manhã, Serena sabia apenas que sobreviveu.

E sobreviver, naquele momento, precisava ser suficiente.

O ônibus atravessou uma curva e o sol surgiu entre as montanhas.

A luz dourada atravessou o vidro e alcançou seu rosto.

Serena fechou os olhos por um instante, sentindo o calor sobre a pele.

O coração continuava doendo.

Talvez doesse durante muito tempo.

Mas ainda batia.

Quando abriu os olhos, não olhou para a estrada que ficava para trás.

Olhou para a que seguia diante dela.

Serena Vasconcellos de Alencar havia deixado uma cidade acreditando que perdera o homem com quem construiria o futuro.

Ainda não sabia que estava levando o futuro consigo.

E, enquanto o ônibus avançava entre montanhas, rios e campos iluminados pela primeira luz da manhã, fez uma promessa silenciosa à mulher que precisava aprender a ser dali em diante.

Não voltaria para implorar respostas.

Não viveria esperando desculpas.

Não entregaria novamente a outra pessoa o poder de determinar se sua vida continuaria ou terminaria.

Começaria de novo.

Mesmo ferida.

Mesmo amando.

Mesmo sem compreender.

Dessa vez, começaria por si mesma.

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