Capítulo 5 5
Serena começou a desfazer as malas numa tarde de chuva, depois de perceber que passara quase uma hora relendo as anotações feitas durante a manhã.
O trabalho no Centro despertava uma curiosidade que julgara perdida, mas as duas malas fechadas lembravam que parte dela ainda se recusava a ocupar o novo espaço.
Retirou apenas o indispensável, como se manter o restante guardado impedisse a antiga vida de atravessar aquela porta.
Mas precisava ocupar a casa.
No quarto, abriu a primeira mala e encontrou apenas roupas, livros, documentos e objetos comuns.
Organizou tudo lentamente, protegendo o quadril ainda dolorido pelo atropelamento. O movimento repetitivo de colocar camisas no armário, calças nas prateleiras e objetos nas gavetas trouxe uma tranquilidade inesperada.
Durante alguns minutos, acreditou ter exagerado o peso daquela tarefa. Então abriu a segunda mala e encontrou uma blusa azul que Gabriel lhe deu durante uma viagem.
Ele disse que a cor parecia feita para seus olhos. A recordação era simples, feliz e justamente por isso dolorosa.
Serena afastou a mão do tecido como se pudesse se proteger da lembrança, mas continuou esvaziando a mala.
No fundo encontrou uma pequena caixa de madeira onde guardava seus objetos mais importantes:
Fotografias dos pais, a aliança da mãe, o relógio quebrado do pai, cartas e pequenas lembranças familiares.
Ao abri-la, encontrou primeiro uma fotografia dos pais numa praia, muito antes da pandemia. A mãe sorria usando um chapéu enorme, enquanto o pai fingia seriedade diante da câmera.
A saudade dos pais era diferente da dor provocada por Gabriel. Eles não haviam escolhido partir, e Serena aprendera que o luto não desaparecia, apenas mudava de lugar dentro dela.
Outras fotografias vieram depois:
Sua aprovação na universidade, aniversários e momentos familiares. Até que Serena encontrou uma imagem sua com Gabriel.
Estavam sentados na grama do campus, quando já não existia vínculo acadêmico direto entre eles.
Gabriel a abraçava pela cintura, e ambos riam sem olhar para a câmera. Era felicidade espontânea. Aquilo tornou a lembrança ainda mais cruel.
Serena se perguntou como alguém tão feliz ao lado dela conseguira destruir tudo. Talvez nunca tivesse conhecido Gabriel quanto acreditava.
Impulsivamente, levou a fotografia até a lixeira.
Bastaria abrir os dedos, mas não conseguiu. Irritada com a própria hesitação, disse a si mesma que Gabriel não merecia continuar provocando aquela dor.
Mesmo assim, não foi capaz de destruir a imagem. Colocou-a virada para baixo sobre a escrivaninha, dividida entre a vontade de apagar o passado e a incapacidade de negar que ele havia sido verdadeiro para ela.
Então a campainha tocou.
Lígia apareceu na varanda protegida por um guarda-chuva e carregando uma panela de sopa.
Antes que Serena protestasse, avisou que sabia perfeitamente que não precisava ter preparado nada.
Lígia entrou, levou a panela até a cozinha e explicou que, com aquela chuva, ninguém merecia jantar sanduíches. Serena lembrou que já tinha comida na geladeira, e Lígia respondeu, divertida, que fora justamente ela quem a colocara ali.
Enquanto Serena preparava café, conversaram sobre a propriedade, Samuel e Theo.
Serena descobriu que Lígia trabalhava com paisagismo, cuidava de muitos jardins da área residencial e colaborava na cozinha comunitária porque gostava.
Quando comentou que sua própria casa não tinha flores, Lígia explicou que aquilo fora proposital.
Vicente não gostava de decidir como alguém deveria morar.
A residência permaneceu vazia durante alguns meses e fora preparada para Serena, mas o jardim seria feito apenas quando ela soubesse o que desejava plantar.
Serena respondeu que nem sequer sabia quanto tempo permaneceria ali.
Lígia não demonstrou preocupação. Disse que ninguém lhe pedira uma decisão:
Serena poderia ficar uma semana, um ano ou vinte, mas, enquanto estivesse ali, não precisava viver como visita. A frase a atingiu profundamente.
Serena comentou que todos ali falavam sobre recomeçar como se fosse simples. Lígia corrigiu:
Não era simples, apenas possível.
Quando Serena perguntou por onde alguém deveria começar se não soubesse reconstruir a própria vida, a mulher respondeu que bastava começar pelo que fosse possível naquele dia, porque uma pessoa machucada não precisava reconstruir toda a existência de uma vez.
Serena admitiu que deixara muitas coisas para trás e trouxera outras sem querer.
Lígia não perguntou quais eram.
Apenas sugeriu que talvez ainda não tivesse chegado o momento de decidir o destino dessas lembranças.
Serena percebeu a delicadeza daquela mulher, interessada sem ser invasiva.
Quando perguntou se Lígia sempre sabia quando não fazer perguntas, ela brincou que Samuel precisava controlar sua curiosidade. Serena riu de verdade.
Depois que Lígia partiu, deixando a sopa e prometendo não voltar para verificar se Serena havia jantado, a casa mergulhou novamente no silêncio.
Serena retornou ao quarto e encontrou a blusa azul sobre a cama e a fotografia virada para baixo na escrivaninha.
Observou ambas antes de abrir uma gaveta. Dobrou a blusa cuidadosamente e a guardou.
Depois recolocou a fotografia dentro da caixa de madeira sem tornar a olhar para ela.
Não estava perdoando Gabriel, nem esquecendo o que acreditava ter visto. Apenas reconhecia que ainda não estava pronta para destruir tudo.
Então continuou desfazendo a mala.
Encontrou livros, documentos, duas canecas, um pequeno vaso de cerâmica da mãe, uma manta que pertencera ao pai e outros objetos que carregavam pedaços de sua história.
Dessa vez não parou. Distribuiu os livros pela estante, colocou o vaso sobre a mesa, deixou a manta no sofá e organizou as fotografias dos pais numa prateleira.
Aos poucos, a casa neutra começou a apresentar sinais de sua presença. Não apenas da mulher que amara Gabriel, da filha enlutada ou da pesquisadora contratada por Vicente, mas de Serena.
Quando terminou, já era noite e a chuva havia parado. Serena abriu a janela e respirou o cheiro de terra molhada enquanto observava o jardim vazio.
Na manhã seguinte, conheceria outra parte daquele lugar. Naquela noite, porém, lembrou-se das palavras de Lígia sobre escolher o que gostaria de plantar.
Pela primeira vez, imaginou flores crescendo diante da casa.
Ainda não sabia quais escolheria, quanto tempo ficaria ou o que faria com as lembranças de Gabriel.
Contudo, começava a compreender que recomeçar talvez não significasse apagar tudo o que existira antes. Seus pais continuariam fazendo parte dela.
O amor que sentia também não desapareceria simplesmente porque terminara em dor.
Recomeçar poderia ser algo mais paciente:
Reconhecer as cicatrizes, preservar aquilo que ainda tinha valor e abrir espaço para experiências novas crescerem ao lado do passado.
Diante do jardim molhado, Serena percebeu que, pela primeira vez desde que partira, não pensava apenas no que havia deixado para trás. Começava, devagar, a imaginar o que ainda poderia construir.
