Capítulo 3 Piter

Estou no escritório esperando uma ligação importante, quando meu celular toca, atendo rápido sem olhar no visor.

Quando escuto a voz, vejo que não é quem eu esperava, mas eu fico muito contente em perceber que é a Mel, minha afilhada.

Ela ligou para pedir para ficar na minha casa no final de semana, pois tem prova de vestibular na cidade.

Eu adorei a ideia, porque desde que cheguei da Itália, há quase um mês, não consegui ir visitá-la ainda, então vai ser muito bom ela vir, estou com saudades da pequena Melzinha.

Desde que ela nasceu tenho uma ligação forte com ela, talvez por eu não ter filhos, e meus sobrinhos morarem longe. Ela sempre foi meu único laço com crianças, porém agora ela já está com 18 anos e eu preciso parar de tratá-la como se ainda fosse pequena, porque ela fica muito brava.

Nesse tempo todo que estive fora sempre falava com ela, por telefone ou Instagram, mas ela não é muito ativa nas redes sociais, quase não coloca foto dela, então estou morrendo de vontade de vê-la pessoalmente...Ela deve estar linda.

Durante a conversa, vejo que tem alguém na outra linha, aí tenho que desligar a Mel e atender o cliente. Era a ligação que eu estava esperando.

Nisso alguém bate na porta e já abre. É o John.

O John é um grande amigo que conheci no escritório da Itália. Quando resolvi voltar para o Brasil, ele tinha acabado de se separar e quis vir comigo para começar uma nova vida.

Faço sinal com a mão para ele entrar, ele entra e senta na cadeira do outro lado da minha mesa, e espera até eu encerrar a ligação.

— Era o cliente novo?

— Era.

— E aí, fechou?

— Fechou, graças a Deus.

— Ah, que bom. Vamos ter muito trabalho pela frente, hein? Isso é ótimo!

— Nossa, nem me fale. Cuidar da área trabalhista de uma empresa desse nível é bom demais... Hoje o dia já começou bem, além de fechar esse contrato, a minha afilhada me ligou ainda há pouco, vai ficar na minha casa no final de semana, pois vai prestar vestibular aqui.

— Que bom, você ainda não conseguiu ir pra lá, ela vem pra cá. Muito bom.

— Confesso que depois de quatro anos aquele contato próximo que eu tinha com ela mudou...Não sei como lidar com uma garota dessa idade na minha casa, mas estou com muita saudade e vai ser só um final de semana, né?

— Por experiência própria, cara, um fim de semana tá bom demais pra conviver com adolescentes. A minha enteada tem 16 anos, quase 17... Nossa, tinha dia que dava vontade de jogar da janela! Falou rindo.

— Acho que não tenho psicológico para aguentar.(Risos.)

— Boa sorte, cara. Já se prepara para ter um furacão fazendo bagunça no seu apê, jovens são muito espaçosos e desorganizados.

— São só três dias, vai valer a pena pela companhia dela, eu acho.

— Bom, vou trabalhar um pouco. Só vim ver se tinha fechado o negócio.

— Tá bom, vai lá.

Ele saiu e eu fiquei pensando na nossa conversa.

Um solteiro convicto como eu tem que aprender a se virar sozinho. Meu apartamento é impecavelmente arrumado. Eu odeio bagunça, louça suja e coisas espalhadas pela sala. Lá na Itália tive uma namorada de 28 anos que tinha uma filha de 9 anos. Meu Deus, um dos motivos de não ter dado certo foi a bagunça das duas. Mãe e filha eram desordeiras. A menina deixava bonecas jogadas pela casa toda. Isso porque só ficavam comigo aos finais de semana, mas era bagunça demais para uma pessoa como eu suportar.

Espero que a Melissa seja bem boazinha, afinal, não é porque é visita que pode fazer bagunça. Porém, pelo tamanho da saudade que estou, acho que nem que ela vire minha casa de ponta-cabeça eu vou achar ruim.

Sorri sozinho ao imaginar a pequena Mel entrando pela porta com a mochila nas costas e aquele jeito falante de sempre.

Na minha cabeça ela ainda é a menina que corria pela casa dos pais, implicava comigo por qualquer coisa e me chamava de Pitty com aquele sotaque infantil.

Mas no fundo sei que preciso me preparar para encontrar uma mulher no lugar daquela menininha...Ela só está dessa forma nas minhas lembranças.

Olhei rapidamente minha agenda e pensei que seria bom cancelar qualquer compromisso para o sábado. Se ela vem me visitar depois de tanto tempo, o mínimo que eu posso fazer é aproveitar cada minuto da companhia dela antes da prova de domingo.

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