Capítulo 1 Pânico
Havia acabado de sair de um plantão extremamente difícil.
Realizamos duas cirurgias valvares, três revascularizações do miocárdio e uma toracotomia exploradora, sendo esta última a mais desafiadora de todas.
Infelizmente, não conseguimos chegar a um diagnóstico preciso antes que o coração do paciente parasse definitivamente. Perdi a batalha pela vida.
Estava exausta, frustrada e carregava o peso de ter que comunicar a família sobre a perda. Sabia que, ao lidar com vidas, precisava estar preparada para tudo — para a cura e para a perda. Ambas faziam parte da minha profissão.
O que, às vezes, parecia simples podia, de repente, transformar-se em algo tão complexo que acabávamos perdendo a batalha.
Não era a primeira vez que enfrentava uma perda, mas cada uma delas continuava sendo uma experiência profundamente dolorosa para mim.
Foi então que me lembrei de que, exatamente uma hora antes, a enfermeira havia me avisado que minha mãe estava ligando. No entanto, por causa da cirurgia complicada, só naquele momento consegui respirar fundo e pegar o celular para retornar para ela.
O telefone só tocou uma única vez antes de minha mãe atender.
— Filha, você ainda está no hospital?
A pergunta foi como uma injeção de adrenalina em meu organismo.
— O que aconteceu, mamãe? — perguntei, imediatamente alerta.
— Felipe passou mal, Amanda. A Lara chamou uma ambulância e pediu que ele fosse transferido para o hospital onde você trabalha.
Naquele momento, a frustração pela perda que acabara de enfrentar foi imediatamente substituída pelo medo.
— Vou verificar isso agora, mamãe.
Assim que desliguei, notei que também havia uma mensagem da Lara.
(Lara): Felipe desmaiou no banheiro de casa. Ainda não sei o que aconteceu. Quando a ambulância chegou, ele ainda estava inconsciente. Estão levando-o para o Hospital Mount Sinai.
Assim que as portas do elevador se abriram no térreo, caminhei apressadamente pelo corredor, agarrada à esperança de que nada grave tivesse acontecido.
Se alguém me perguntasse qual era o meu maior medo, eu responderia sem a menor dúvida: perder Felipe.
Meu irmão era tudo para mim, e saber que ele não estava bem era como sentir o próprio coração sendo arrancado do peito. Éramos gêmeos.
Felipe era a pessoa que eu amava profunda. Foi meu primeiro amigo, aquele com quem dividi todas as brincadeiras e aventuras, mas também minhas primeiras brigas e discussões.
Sempre foi ele quem comprava minhas brigas, me defendia e se tornava meu maior apoiador. Foi também por incentivo dele que me tornei cardiologista.
No entanto, antes que eu chegasse à enfermaria da emergência, fui abordada por Caio.
— Calma, Amanda. Onde foi o incêndio? — perguntou ele, em tom de brincadeira, segurando-me pelos braços para evitar que eu me desequilibrasse.
— Caio, meu irmão precisou de socorro e descobri que ele foi trazido para cá.
Na mesma hora, o olhar dele ficou alerta. Caio sabia o quanto meu irmão era importante para mim.
— Eu te acompanho até lá. Tenha calma. Pode não ter sido nada grave — disse ele, tentando me tranquilizar.
Assim que chegamos à emergência, fomos diretamente até a bancada de enfermagem para verificar as informações com a enfermeira-chefe.
O fato de sermos médicos nos concedia algumas facilidades dentro do hospital — especialmente naquele, onde todos já sabiam quem éramos.
Fui informada de que meu irmão havia dado entrada ainda inconsciente, com temperatura muito alta, inchaço dos gânglios linfáticos e sangramento nasal.
Como médica, eu sabia que aquele quadro não era nada bom.
Febre acompanhada de sangramento nunca era um bom sinal.
A enfermeira informou que o médico responsável pelo atendimento era o Dr. Samuel. Pelo que eu havia ouvido, ele era um profissional com muitos anos de experiência.
Fui em busca dele.
— Perdão, Dr. Samuel. Sou a Dra. Amanda Santiago. Meu irmão deu entrada na emergência e está sob seus cuidados... — informei.
— Seu irmão é o Sr. Felipe Santiago?
— Isso, doutor — respondeu Caio.
— Bem, a situação do seu irmão é um pouco delicada. Mesmo depois de medicado, a febre não cedeu. Solicitei alguns exames. Vou verificar se os resultados já estão disponíveis para que eu possa fornecer um diagnóstico mais preciso.
Ele se dirigiu até a bancada de enfermagem, onde os exames haviam sido deixados.
Depois de analisá-los, voltou os olhos para mim e lançou aquele olhar que nós, médicos, aprendemos a reconhecer quando as notícias estão longe de ser boas.
— Doutora, o caso do seu irmão é muito mais sério do que eu poderia imaginar.
Tudo pareceu se transformar em um pesadelo.
De repente, meu coração começou a acelerar, batendo tão forte que parecia querer explodir dentro do peito. Uma pressão sufocante tomou conta da minha garganta, dificultando minha respiração. Minhas mãos começaram a tremer. Estavam frias e suadas ao mesmo tempo.
Naquele momento, eu estava tendo uma crise de ansiedade.
Percebendo meu estado, Caio me conduziu rapidamente até uma sala de atendimento. Fez-me sentar, segurou minhas mãos e me orientou a respirar devagar, tentando me acalmar.
Eu sabia que precisava reagir e retomar o controle de mim mesma.
Meu irmão precisava de mim.
Aos poucos, seguindo as orientações de Caio, comecei a me recompor, e os sintomas foram diminuindo.
Nunca havia tido uma crise daquela. Nem mesmo durante as cirurgias mais complicadas da minha vida, quando precisei literalmente manter o coração de um paciente entre as minhas mãos.
Mas, naquele momento, diante da possibilidade de algo grave acontecer ao meu irmão, todo o meu controle desapareceu.
Entrei em pânico.
— Você está se sentindo melhor, Amanda? — perguntou Caio, visivelmente preocupado.
Eu apenas assenti com a cabeça.
— Tem certeza? Seu irmão não precisa vê-la tendo essa crise na frente dele.
— Estou melhor, Caio. O que meu irmão tem, Dr. Samuel? — perguntei, encarando o médico que nos acompanhou até aquela sala.
— Preciso confirmar com o mielograma, doutora, mas o exame que tenho até o momento indica uma provável leucemia. Pelas taxas que apareceram nos exames, o caso é bastante grave.
