Capítulo 2 Incerteza
Quando chegamos ao quarto para onde meu irmão havia sido levado, ele já tinha recuperado a consciência.
— Precisei passar mal para conseguirmos arrumar um tempo para nos ver — brincou ele.
Tentei sorrir, mas não consegui. Meu silêncio pareceu chamar sua atenção, porque ele me encarou por alguns segundos antes de perguntar:
— É tão grave assim?
— Sr. Felipe, sou o Dr. Samuel, responsável pelo seu caso. Solicitei alguns exames quando o senhor chegou e os resultados indicam um quadro grave de leucemia.
— Indicam não quer dizer que esteja confirmado.
Felipe era advogado. Costumava se apegar às mínimas informações antes de chegar a uma conclusão.
— Precisamos realizar um exame específico da sua medula óssea para confirmar o diagnóstico e identificar o tipo de leucemia. Assim que tivermos o resultado, poderemos definir o tratamento mais adequado — explicou o médico.
Felipe apenas assentiu, ainda tentando processar tudo o que acabara de ouvir.
O Dr. Samuel se despediu e saiu do quarto.
Aproveitei para acompanhá-lo até o corredor, e Caio veio conosco.
Eu precisava conversar com o médico longe da presença de meu irmão.
— Doutor, quais são as chances?
Ele me encarou por alguns segundos antes de responder.
— Para ser sincero, a situação do seu irmão é bastante crítica. O sistema imunológico dele está muito debilitado. Precisaremos estabilizar as taxas antes de iniciar qualquer tratamento.
Percebi que ele me olhava lamentando ter que dizer aquelas palavras.
— Quanto mais demorarmos, mais delicada pode se tornar a recuperação. Neste momento, é fundamental evitar que ele contraia qualquer infecção.
Meu coração apertou.
— Mas existe uma chance de ele se recuperar?
— Existe, sim. Só não posso lhe dar uma previsão precisa. A medicina não é uma ciência exata, Amanda. Cada organismo reage de uma maneira diferente.
Respirei fundo, tentando controlar o medo que ameaçava me dominar.
— Eu sei, doutor. Muito obrigada.
Ele assentiu e seguiu pelo corredor para solicitar os exames e procedimentos necessários.
Voltei o olhar para Caio. Ele percebeu imediatamente o desespero estampado em meu rosto e, sem hesitar, envolveu-me em um abraço reconfortante.
Fiquei alguns segundos em seus braços, tentando encontrar algum equilíbrio, até que seu pager começou a tocar.
— Preciso voltar para o meu setor — disse ele, depois de conferir a mensagem. — Te encontro mais tarde ou amanhã em casa. Tente descansar e, se precisar de qualquer coisa, me ligue.
Assenti, ainda tentando me recompor.
— Está bem.
Ele beijou minha testa antes de se afastar.
Pouco depois, Lara apareceu no corredor acompanhada dos meus pais e, assim que entramos no quarto onde Felipe estava, aproximou-se dele.
— Como você está, meu amor? Fiquei tão assustada.
— Estou melhor, Lara. Um pouco cansado, mas vou ficar bem.
Ela segurou a mão dele, tentando esconder as lágrimas.
Minha mãe, porém, não conseguiu conter a ansiedade.
— E então, filha? O que os médicos descobriram sobre o Felipe?
Meu irmão me olhou. Como médica, eu sabia que esperava que eu explicasse a situação de maneira clara para todos.
— Os exames indicam uma possível leucemia, e o quadro já está bastante avançado. Não é uma doença simples de tratar. Ele ainda precisa passar por um exame específico para confirmarmos o diagnóstico, identificarmos o tipo exato e definirmos o tratamento.
As lágrimas de Lara voltaram a cair.
— Por enquanto, ele precisa permanecer no hospital para ser acompanhado e para que a equipe possa estabilizar seu quadro. O organismo dele está muito debilitado e ainda não está preparado para iniciar o tratamento.
Felipe e Lara estavam juntos havia cerca de oito anos. Sempre foram muito apaixonados, e eu sabia que aquela notícia estava sendo devastadora para ela.
Mas, naquele momento, ele precisava que ela tivesse mais força do que nunca.
— Existe risco de morte? — perguntou meu pai, com a voz baixa.
A pergunta me atingiu em cheio.
— Existe, papai. Mas ainda não temos informações suficientes para saber o tamanho desse risco. Precisamos confirmar o diagnóstico e entender como o organismo dele vai responder ao tratamento.
Todos pareciam apreensivos naquela sala.
— Se esse cabeça-dura tivesse me ouvido e feito um check-up, talvez não tivéssemos chegado a esse ponto.
— Mas o melhor não seria começar o tratamento imediatamente? — perguntou minha mãe.
— Tudo depende do estado clínico do paciente, mamãe. No caso do Felipe, ele ainda está muito fragilizado. Se começarmos o tratamento sem estabilizá-lo primeiro, existe o risco de ele não suportar e entrar em colapso.
Lara apertou ainda mais a mão dele.
— Você não será a médica dele? — perguntou entre lágrimas.
Balancei a cabeça.
— Não, Lara. Por questões éticas, não posso assumir o tratamento de um familiar. Além disso, minha especialidade é cardiologia. Mas o Dr. Samuel, que está acompanhando o caso dele, é um excelente profissional.
Lara respirou fundo, tentando se recompor.
— Vou entrar em contato com a clínica de fertilidade para suspender todo o procedimento — comentou, olhando para Felipe.
— Acho que é o melhor, meu amor — ele respondeu.
Todos nós voltamos a atenção para ela.
Minha mãe franziu a testa.
— Clínica de fertilidade?
Até eu fiquei surpresa.
Lara olhou para nós e, por um instante, pareceu não saber como explicar.
— Nós tínhamos planos de ter um bebê.
A revelação deixou todos em silêncio.
Conversamos por mais alguns minutos, mas percebi que Lara continuava chorando em silêncio. Meu irmão me lançou um olhar, e não precisou de palavras para eu entender o que estava pedindo.
Então informei que passaria a noite ali e pedi que todos deixassem o quarto para permitir que Felipe descansasse um pouco. Lara parecia ainda mais abalada do que ele.
Assim que a porta se fechou, Felipe soltou o ar e me olhou, visivelmente aliviado.
— Obrigado, Amanda. Eu amo todos eles, mas estava começando a me sentir sufocado.
Ele fez um gesto para que eu me sentasse na cama, ao seu lado.
— Você acha que o tratamento vai durar muito tempo?
— É difícil dizer. Vai depender do tipo de leucemia e, principalmente, de como seu organismo responderá ao tratamento.
Fiquei alguns segundos em silêncio antes de não conseguir mais guardar a pergunta que me atormentava.
— Por que você não me ligou para fazer um check-up? Poderíamos ter começado pelo menos com um exame de sangue.
Ele abaixou os olhos.
— Eu não queria te incomodar com bobagem, irmã. Sei o quanto seu dia é corrido no hospital. Não queria atrapalhar sua rotina.
— Você nunca me incomoda, Felipe. Nunca. — Minha voz falhou. — Talvez tivéssemos conseguido descobrir tudo isso mais cedo. Estou me sentindo uma inútil. Como não percebi o seu estado nas nossas chamadas de vídeo? Se eu tivesse arranjado mais tempo para visitá-lo, talvez você não tivesse chegado a esse ponto.
Ele segurou minha mão.
— Você é médica, não vidente. O único culpado por não ter procurado um médico fui eu. Mas agora não adianta chorar pelo leite derramado. Temos que erguer a cabeça e usar as armas que temos para sair dessa.
As lágrimas que eu vinha segurando finalmente escorreram.
— Eu não posso te perder, Felipe.
