Capítulo 3 Promessa
Felipe segurou minha mão e a apertou com carinho antes de levá-la aos lábios e beijá-la.
— Você não vai me perder, irmã.
Ele sorriu, tentando me confortar.
— Mas já te falei que precisa estar preparada para tudo. A vida é feita de muitos “sins” e muitos “nãos”. Precisamos aprender a lidar até com aquilo que não sai como planejamos. Não podemos controlar tudo pelo caminho.
— Você está certo. Mas, neste momento, tudo o que eu quero é que você fique bem.
Eu sabia que estava me comportando como uma garota assustada, mas não conseguia evitar. O medo de perdê-lo era grande demais para que eu conseguisse racionalizá-lo.
Felipe percebeu meu estado e, como sempre fazia quando queria me distrair, decidiu mudar de assunto.
— Vamos parar de falar de mim e falar de você. Como você está? Parece cansada.
Soltei uma risada fraca.
— O trabalho tem me consumido um pouco. Estou com essa aparência porque acabei de sair do plantão — justifiquei.
— Agora você tem um irmão para te dar ainda mais trabalho.
— Você sabe que eu jamais pensaria isso de você, seu idiota.
Ele sorriu, e, por alguns segundos, conseguimos recuperar um pouco da nossa antiga leveza.
Então respirei fundo.
— Tenho uma coisa para te contar. Já deveria ter falado antes, mas não queria contar por telefone.
Fiquei um pouco nervosa diante do que precisava revelar.
— Só quero que me prometa que não vai contar nada para mamãe nem para papai, pelo menos por enquanto — pedi.
Felipe me encarou e assentiu.
— Prometo.
Sorri.
— Fui pedida em casamento!
Ele arregalou os olhos.
— Como assim? Quem é ele? Eu nem sabia que você estava namorando. Já tinha até imaginado que você ia ficar para titia.
Dei um tapa em seu ombro, fazendo-o cair na gargalhada.
— Agora fiquei curioso. Quem é o corajoso que resolveu assumir a bomba-relógio chamada Amanda Santiago?
— Bomba-relógio? — repeti, rindo.
— O cara vai descobrir o significado disso sozinho... não vou dizer mais nada. Mas estou curioso para conhecê-lo. Quem é ele?
— O médico que me acompanhou até aqui. Não o Dr. Samuel, o outro. Somos colegas de apartamento — expliquei.
Os olhos de Felipe se arregalaram ainda mais.
— Estávamos ficando há bastante tempo. Nada sério. Então ele disse que isso já contava como namoro e me pediu em casamento. Ele é neurologista.
Felipe soltou outra gargalhada. Franzi a testa, sem entender.
— Talvez ele consiga colocar juízo nessa sua cabeça — disse, ainda rindo. — Vai juntar o útil ao agradável. Você será a mulher e o objeto de estudo dele ao mesmo tempo.
— Vai à merda, Felipe — falei, fazendo bico, embora soubesse que ele estava apenas brincando.
Isso o fez rir ainda mais.
— Falando sério, irmã... espero que ele apareça por aqui em algum momento. Estou muito feliz por você. Você abriu mão de muita coisa e deixou a vida social de lado para estudar. Agora é hora de aproveitar um pouco.
— É o que pretendemos fazer, Lipe — afirmei.
— Espero estar bem logo para podermos comemorar juntos. Ah, e diga a ele que o próximo passo só acontece se eu aprovar. Quero conhecer esse idiota pessoalmente e deixar claro os riscos que ele corre se te magoar.
Aquelas palavras encheram meus olhos de lágrimas.
— Não chora, sua manteiga derretida — disse ele, puxando-me para um abraço.
Ficamos ali por alguns instantes, em silêncio, aproveitando aquele momento.
— Agora é minha vez, Sr. Felipe... Você e a Lara estavam tentando ter um bebê?
O sorriso dele desapareceu aos poucos.
— A Lara não pode ter filhos, Amanda.
Aquilo me pegou de surpresa. Encarei-o, esperando que continuasse.
— Vamos ter nosso bebê por meio de uma barriga de aluguel. Mas, com tudo isso acontecendo, vamos adiar um pouco esse plano. Tudo parece muito improvável...
— Vocês já iniciaram o tratamento?
— Estávamos procurando alguém que pudesse carregar nosso bebê. São muitas coisas a considerar. Os custos são elevados, e a mulher que aceitar também precisará de acompanhamento médico constante — explicou.
Permaneci em silêncio por alguns segundos, absorvendo aquilo.
Então, uma ideia surgiu em minha mente.
— Por que você não falou comigo? Quer dizer... para ser sua barriga solidária?
Ele me olhou, surpreso com a proposta.
— Eu nunca pediria que você abrisse mão da sua vida para realizar um sonho meu, Amanda. Você estava cursando medicina, se dedicou tanto... Não seria justo.
— Irmão, é o seu sonho. O que são nove meses diante de uma realização tão importante? Eu sou a candidata perfeita para isso. Além do mais, já tenho cobertura médica. E, pelo que entendi, você já pagou a clínica.
— Mas, Amanda... você ainda nem teve seu próprio filho. Sem mencionar a situação com o seu noivo. Eu não quero te trazer complicações. E ainda nem sabemos como minha situação vai evoluir.
— Justamente por isso quero te ajudar, Felipe. É o seu sonho. Então, me deixa fazer parte dele. Eu ficaria mais do que feliz em ser o meio para torná-lo realidade.
Eu não queria dizer aquilo em voz alta, mas sabia que havia a possibilidade de meu irmão não viver por muito tempo.
E isso doía.
Além disso, Caio entendia o quanto meu irmão era importante para mim — e eu acreditava que também me apoiaria naquela decisão.
— Não quero que se sinta obrigada a aceitar por causa da minha situação. Pense com calma e não tome decisão apenas pela emoção do momento.
— Nada me deixaria mais feliz do que ajudar você a realizar seu sonho.
Eu tinha certeza de que meu irmão jamais me pediria algo assim. Ainda assim, naquele instante, seus olhos se encheram de lágrimas, e Felipe me puxou para mais um abraço apertado.
— Obrigado, irmã! Só espero que essa doença não me leve antes que eu possa segurar meu filho ou minha filha nos braços.
— Você vai superar isso, irmão. Vai segurar seu filho nos braços, eu tenho certeza. Agora, descanse um pouco.
Na verdade, eu precisava acreditar naquelas palavras — mesmo sabendo que as chances ainda eram baixas.
Levantei-me da cama e fui até o pequeno sofá no canto do quarto. Deitei ali, peguei o celular e enviei uma mensagem para Caio.
(Amanda): Amor, como está seu plantão? Meu irmão está um pouco melhor. Vou passar a noite aqui, e a Lara vem me render amanhã. Caio, eu preciso conversar com você sobre algo muito importante.
(Caio): Oi, meu amor. Está um pouco corrido aqui, mas, se você quiser, eu te ligo mais tarde ou passo aí para a gente conversar. É só me dizer o que prefere.
(Amanda): Não precisa, amor! A gente conversa amanhã com calma. Sei que você está de plantão, então se concentra aí. Te amo!
(Caio): Diz para o seu irmão que, em breve, teremos tempo para nos conhecer melhor. Eu também te amo!
Aquele era um assunto delicado demais para ser tratado por telefone. E, como estávamos no ambiente de trabalho, preferi não misturar nossa vida pessoal com a profissional.
