Capítulo 4 Exclusão

CAIO

Conheci Amanda por meio de uma amiga em comum.

Na época, eu estava procurando um quarto para alugar, e ela me contou que havia um disponível no apartamento que dividia com outra amiga. Aceitei a proposta na hora.

Teria um quarto só para mim, o que significava mais privacidade — algo que eu valorizava bastante. Além disso, nossas rotinas eram tão diferentes que, na maior parte do tempo, quase não nos encontrávamos em casa.

Até que, certo dia, enquanto eu estudava na sala, uma garota entrou no apartamento.

Ela parecia tão distraída que sequer percebeu minha presença. Eu, porém, reparei nela imediatamente. E foi impossível não notar o quanto era bonita.

Amanda seguiu direto para o quarto e, algum tempo depois, voltou enrolada apenas em uma toalha. Caminhou até a cozinha sem perceber que eu continuava ali, quieto na sala.

Só quando retornou, com um sanduíche em uma das mãos e um copo de suco na outra, seus olhos finalmente encontraram os meus.

O susto foi tão grande que ela deixou tudo cair.

O copo se espatifou no chão, espalhando suco e cacos de vidro pela cozinha.

— Acho melhor você ir se vestir enquanto eu cuido disso aqui. Não tive intenção de te assustar. Desculpa! — falei, um pouco constrangido por ter causado aquela confusão.

— Ai, meu Deus! — ela exclamou, ainda assustada. — A culpa não foi sua. Eu é que devo pedir desculpas. Estava tão distraída que nem percebi que você estava aí, estudando. Vou me vestir e já volto para te ajudar a limpar, tá?

Depois daquele dia, começamos a nos encontrar com mais frequência no apartamento. Aos poucos, a convivência se tornou natural e, algum tempo depois, aconteceu nosso primeiro beijo.

Desde o início, Amanda deixou bastante claro que não queria um relacionamento sério. Seu foco estava nos estudos, e ela não queria nada que pudesse se transformar em distração.

Assim, mantivemos uma espécie de amizade com benefícios que durava cinco anos. Toda a faculdade e a especialização — ela em cardiologia, eu em neurologia.

Quando finalmente estávamos empregados e com nossas vidas profissionais encaminhadas, decidi pedir sua mão em casamento.

Para minha felicidade, ela aceitou.

Fiquei imensamente feliz.

Agora, só restava uma etapa: contar às nossas famílias.

Talvez fosse um choque para a família dela. Amanda nunca havia assumido oficialmente nosso relacionamento para eles e, de repente, estava prestes a se casar.

Quando a encontrei mais cedo, porém, descobri o que estava acontecendo com seu irmão.

Naquele momento, imaginei que as coisas poderiam se complicar.

Eu tinha quase certeza de que Amanda pediria para adiarmos nossos planos até que o tratamento dele terminasse. E, sinceramente, estava preparado para isso.

Eu entendia que, naquele momento, a prioridade dela era a família. E respeitava isso profundamente.

Quando ela disse que precisávamos conversar, imaginei que fosse justamente sobre o casamento.

Não estava preparado, entretanto, para o que veio depois.

Quando Amanda me contou que o irmão e a cunhada haviam dado entrada na clínica de fertilização e que ela pretendia gerar o filho deles, senti o chão desaparecer por alguns segundos.

Eu definitivamente não esperava por aquilo.

Já havia imaginado Amanda grávida algumas vezes. Mas, em todas essas vezes, ela carregava um filho nosso — mesmo que ainda não tivéssemos tido qualquer relação sexual.

A possibilidade de vê-la grávida nunca me assustou.

O que me atingiu foi saber que aquela criança seria de outro homem.

Por mais que eu entendesse o motivo e soubesse que não existiria qualquer relação carnal entre ela e seu irmão, aquilo ainda era difícil demais para assimilar de uma vez.

— Como você tomou uma decisão dessas sem falar comigo antes? Amanda, nós estamos em um relacionamento. Essa escolha também vai afetar a minha vida.

Tentei fazê-la enxergar a situação por outro ângulo, mas ela parecia ter tomado a decisão muito antes daquela conversa.

— Mas, Caio, meu irmão pode não ter muito tempo de vida. O maior desejo dele é ser pai. O médico explicou que a situação é complicada, que a doença está bastante avançada — ela argumentou.

— É justamente por isso que você não deveria ter tomado essa decisão tão rápido, Amanda. Você nem sabe se seu irmão vai conseguir chegar ao fim da gravidez.

— Ele vai conseguir — respondeu, com lágrimas nos olhos. — Eu imaginei que você fosse me apoiar nessa decisão, mas acho que me enganei.

— É uma decisão séria demais para você tomar no impulso. Você nem considerou os prós e contras. Nem sequer pensou em como eu me sentiria. Sinceramente, eu nem sei o que pensar sobre isso.

Levantei-me e fui para o meu quarto antes que aquela conversa se transformasse em algo ainda pior.

Eu estava chateado demais para continuar.

Precisava de um tempo para digerir tudo aquilo.

Não conseguia acreditar que Amanda havia tomado uma decisão tão importante sem sequer me incluir na equação.

Eu entendia o estado emocional dela. Ela estava vendo o próprio irmão fragilizado, diante de uma doença grave, enquanto ele alimentava o sonho de ser pai. Talvez, diante da possibilidade de perder essa chance, ela tivesse simplesmente agido antes que fosse tarde demais.

Mas isso não tornava a situação mais fácil para mim.

O que doía era perceber que ela havia tomado aquela decisão sem pensar em mim. Sem pensar em nós.

Como se a minha opinião fosse apenas um detalhe secundário.

Ela não parou para imaginar o que significaria, para mim, ver a mulher que amo carregando o filho de outro homem — ainda que esse homem fosse seu irmão e que existisse um propósito tão importante por trás daquela gravidez.

Eu sabia que não se tratava de uma criança concebida de forma natural, que seria gerada por meio de fertilização. Sabia que havia um propósito maior naquela decisão.

Mas saber disso não tornava tudo mais simples.

Amanda também não parecia ter considerado os olhares, os julgamentos e os comentários maldosos que inevitavelmente surgiriam.

A pressão social não afetaria apenas ela.

Nós dois teríamos que lidar com isso.

E, inevitavelmente, aquilo também poderia respingar no nosso relacionamento.

Havia ainda o impacto emocional. As mudanças no corpo dela. Os riscos. O desgaste físico e psicológico de uma gestação.

Não era apenas um gesto bonito de amor pelo irmão.

Era uma entrega imensa. E eu não sabia se Amanda realmente compreendia tudo o que estava prestes a enfrentar.

Mas, acima de qualquer outra coisa, o que mais me machucava era ter sido excluído daquela decisão.

Se ela tivesse me procurado antes, se tivesse sentado comigo e explicado o que estava pensando, talvez eu tivesse reagido de outra maneira.

Talvez até pudesse apoiá-la.

Mas eu precisava sentir que minha voz também importava. Do jeito que aconteceu, porém, só conseguia sentir que havia sido deixado de lado.

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