CapĂtulo 2 🧸 Cap. 2: O Ăšnico doador CompatĂvel
O bipe rĂtmico e insistente do monitor cardĂaco era o Ăşnico som que preenchia o quarto de hospital, ecoando como uma contagem regressiva cruel na mente de Helena.
O cheiro de antisséptico e a luz fria e fluorescente pareciam sufocá-la.
Sentada em uma poltrona desconfortável ao lado da cama, ela segurava a mão pequena e desprovida de forças de Léo.
O menino, sempre tão cheio de energia e de riso fácil, parecia menor sob os lençóis brancos e impessoais.
As bochechas, antes coradas, agora ostentavam uma palidez de porcelana trincada.
Sob as pálpebras fechadas de Léo, Helena sabia que se escondiam os olhos cinzentos que tanto a atormentavam, a herança genética viva do homem que ela jurou esquecer.
A porta do quarto deslizou suavemente.
Mariana entrou.
A mĂ©dica, que tambĂ©m era a melhor amiga de Helena desde os tempos mais sombrios do exĂlio, nĂŁo usava seu habitual sorriso encorajador.
Ela segurava uma pasta de prontuário contra o peito, como se o papel fosse um escudo contra a dor que estava prestes a desferir.
Helena ergueu os olhos verdes, tempestuosos de angĂşstia.
Ela nĂŁo precisou de palavras para perguntar.
O silêncio entre as duas era tenso, carregado de uma eletricidade estática que fazia os pelos dos braços de Helena se arrepiarem.
— Diga-me que há um engano, Mari — sussurrou Helena, a voz falhando, áspera pela noite em claro. — Diga que foi apenas uma virose forte, uma reação ao cansaço... Qualquer coisa.
Mariana suspirou, aproximando-se lentamente.
Ela colocou a mĂŁo livre sobre o ombro de Helena, um gesto de conforto que, em vez de acalmar, fez o estĂ´mago de Helena despencar no vazio.
— Eu gostaria de ter outra resposta, Lena. Mais do que tudo no mundo — Mariana começou, a voz baixa e profissional, embora seus olhos estivessem úmidos. — Os exames de sangue e a biópsia de medula que corremos para fazer ontem à noite, confirmaram. Léo tem Leucemia Mieloide Aguda. É uma forma agressiva, de evolução rápida.
O mundo ao redor de Helena pareceu desacelerar.
O som do monitor cardĂaco distorceu-se em seus ouvidos.
Uma onda de frio cortante subiu por sua espinha, paralisando seus pulmões.
— Leucemia... — Helena repetiu a palavra, que soou estrangeira e maldita em sua boca. — Mas ele é só um bebê. Ele tem seis anos, Mari! Ele corre, ele desenha... Ele não pode estar tão doente.
— NĂłs já iniciamos o protocolo de suporte e vamos começar a quimioterapia de indução imediatamente para conter o avanço das cĂ©lulas doentes — explicou Mariana, apertando o ombro da amiga. — Mas, no caso especĂfico do LĂ©o, devido a uma mutação genĂ©tica que identificamos nos exames, a quimioterapia sozinha nĂŁo vai garantir a cura. Ela serve apenas para ganhar tempo.
Helena levantou-se inesperadamente, soltando a mão de Léo com cuidado para não acordá-lo.
Ela deu dois passos para trás, sentindo-se encurralada pelas paredes brancas do quarto.
— Tempo? Quanto tempo?
— Pouco. Sem um tratamento definitivo, estamos falando de meses — Mariana soltou a verdade de uma vez, sabendo que meias-palavras seriam um desserviço. — Léo precisa de um transplante de medula óssea. Com urgência.
Helena passou as mĂŁos pelos cabelos castanhos ondulados, puxando-os levemente para se ancorar na realidade.
O pânico ameaçava devorá-la por inteiro, mas a determinação de mãe começou a erguer suas barreiras defensivas.
— EntĂŁo faça o teste em mim. Tire o que precisar. Minha medula, meu sangue, minha vida se for necessário. Eu sou a mĂŁe dele. Sou compatĂvel.
Mariana fechou a pasta e deu um passo à frente, segurando Helena pelos braços, forçando-a a olhar diretamente em seus olhos.
— NĂłs já fizemos a sua triagem de compatibilidade, Lena. Assim que os primeiros resultados saĂram. VocĂŞ Ă© apenas uma meia-compatibilidade. Cinquenta por cento. Para a mutação do LĂ©o, um transplante haploidentitário como o seu tem um risco de rejeição altĂssimo, quase fatal. NĂłs precisamos de um doador cem por cento compatĂvel.
— O banco mundial de doadores — Helena sugeriu, a voz trĂŞmula, mas buscando uma saĂda lĂłgica. — O REDOME, os registros internacionais... Deve haver alguĂ©m. O mundo Ă© gigante!
— Helena, escute-me com atenção — Mariana falou, a voz grave e sem espaço para ilusões. — As chances de encontrar um doador compatĂvel nĂŁo aparentado no registro nacional ou internacional para o perfil genĂ©tico raro do LĂ©o sĂŁo de uma em cem mil. E o processo de busca, testes, burocracia e importação de material leva de quatro a seis meses. LĂ©o nĂŁo tem seis meses. Se esperarmos todo esse tempo, podemos perdĂŞ-lo antes mesmo de o doador ser encontrado.
O silĂŞncio que se seguiu foi devastador.
Helena sentiu o chão sumir sob seus pés.
Ela olhou para o filho adormecido.
Léo respirava de forma suave, alheio à sentença de morte que pairava sobre sua cabeça de traços tão familiares.
Aqueles traços.
A curva do maxilar que começava a se definir.
O formato das mĂŁos.
Os cabelos que, embora castanhos como os dela, tinham a mesma textura rebelde de...
NĂŁo.
Helena fechou os olhos, recusando-se a seguir aquele pensamento.
Era um abismo que ela havia jurado nunca mais reabrir.
— NĂŁo há outra opção? — Helena sussurrou, a voz quase inaudĂvel, implorando por um milagre mĂ©dico, por uma mentira piedosa.
Mariana soltou um suspiro pesado, seus olhos cheios de uma compaixĂŁo dolorosa.
Ela conhecia a histĂłria de Helena.
Sabia o que havia acontecido sete anos atrás na capital.
Sabia da humilhação, da dor, da acusação injusta de traição e roubo que havia esmagado a alma de Helena e a forçado a fugir grávida, sem olhar para trás.
— Você sabe que há uma opção, Helena. A única opção real, segura e imediata — disse Mariana, suavemente, tocando no ponto mais inflamado da alma da amiga. — O pai biológico.
A menção implĂcita ao nome dele agiu como um chicote na pele de Helena.
Ela recuou, os olhos verdes faiscando de uma mistura de terror e Ăłdio reprimido.
— Não — Helena sussurrou, a voz trêmula de indignação. — Ele não. Ele nunca.
— Helena, por favor, seja racional — implorou Mariana. — A compatibilidade entre pais e filhos biológicos é a nossa maior chance. No caso dele, a probabilidade de ser o doador perfeito que o Léo precisa para sobreviver é imensa. É uma questão de genética pura. De sangue. O sangue do pai pode salvar a vida do seu filho.
— Aquele homem nĂŁo tem o direito de ser chamado de pai! — A voz de Helena subiu um tom, mas ela imediatamente olhou para a cama, controlando-se para nĂŁo acordar o pequeno. Ela se aproximou de Mariana, o rosto a centĂmetros do dela, falando em um sussurro carregado de veneno e dor antiga. — Ele me expulsou da vida dele como se eu fosse um lixo, Mariana. Ele acreditou nas mentiras do irmĂŁo, me acusou de vender segredos da empresa dele, me humilhou diante de todos e me jogou na rua sem um centavo no bolso! Ele nĂŁo quis ouvir minhas explicações. Se eu nĂŁo tivesse fugido, aquela famĂlia teria destruĂdo a mim e ao bebĂŞ que eu carregava.
— Eu sei de tudo o que ele fez, ou do que você acha que ele fez — Mariana analisou, tentando manter a mente médica fria. — Mas sete anos se passaram. Léo está morrendo, Helena. O seu orgulho ferido é mais importante do que a vida do seu filho?
A pergunta bateu no peito de Helena como um punhal de gelo.
Orgulho?
NĂŁo era apenas orgulho.
Era o pavor de voltar para o covil dos lobos.
Era o medo de que Arthur Valente, com todo o seu poder, sua frieza implacável e sua fúria devastadora, descobrisse a existência de Léo e o arrancasse de seus braços.
Arthur era um homem poderoso, herdeiro de um império, acostumado a obter tudo o que queria.
Se ele soubesse que tinha um herdeiro...
um filho homem com os seus prĂłprios olhos cinzentos...
Helena abraçou o prĂłprio corpo, sentindo um calafrio terrĂvel.
Ela conseguia ver perfeitamente, em sua mente, a imagem de Arthur.
O porte imponente, o maxilar esculpido em linhas duras, o olhar de tempestade que antes a aquecia e que, no Ăşltimo dia em que se viram, a congelou com desprezo absoluto.
Ele estava noivo agora.
LavĂnia Albuquerque, a mulher loira e gĂ©lida que sempre rondou a vida dele como uma serpente, finalmente havia conseguido o que queria.
Arthur ia se casar.
Ele tinha uma nova vida.
Por que ele se importaria com o filho de uma mulher que ele acreditou ser uma golpista?
— Ele vai odiar saber que eu menti — Helena murmurou, as lágrimas finalmente transbordando e rolando quentes por suas bochechas pálidas. — Ele vai achar que é um golpe. Vai achar que estou usando o Léo para conseguir o dinheiro dele. Ele me odeia, Mari. Você não entende a escuridão que há naqueles olhos cinzentos quando ele está com raiva.
— EntĂŁo deixe que ele odeie vocĂŞ! — Mariana segurou os ombros de Helena, sacudindo-a de leve para despertá-la do transe do passado. — Deixe que ele pense o que quiser! Deixe que ele a insulte, que grite, que jogue o dinheiro dele na sua cara. Nada disso importa, Helena. O que importa Ă© que ele assine o termo de doação. O que importa Ă© que ele deite em uma maca e deixe que retirem a medula que vai fazer o coração do LĂ©o continuar batendo. VocĂŞ suportou sete anos de exĂlio e solidĂŁo por esse menino. VocĂŞ nĂŁo pode suportar alguns dias de humilhação para salvá-lo?
As palavras de Mariana ecoaram no quarto de hospital, desintegrando a última barreira de negação de Helena.
Ela olhou novamente para o filho.
Léo se mexeu ligeiramente na cama.
Um pequeno gemido de desconforto escapou de seus lábios secos, e sua mãozinha buscou o travesseiro de forma inconsciente.
Helena sabia o que estava escondido ali embaixo: o desenho amassado que LĂ©o fez de um "gigante cinzento", a figura mĂtica que ele criou em sua mente infantil para representar o pai que nunca conheceu.
O amor de mĂŁe, intenso, violento e indomável, engoliu qualquer resquĂcio de medo, orgulho ou ressentimento.
Se ela precisasse rastejar diante de Arthur Valente, se precisasse implorar de joelhos no chĂŁo frio do escritĂłrio dele, ela o faria.
Ela entregaria sua dignidade em uma bandeja de prata, se isso garantisse que Léo teria um amanhã.
Helena limpou as lágrimas do rosto com as costas da mão, um gesto rápido e definitivo.
O choro cessou.
Em seu lugar, uma rigidez fria e calculista tomou conta de suas feições.
Seus olhos verdes, antes marejados, brilharam com a luz perigosa de uma leoa pronta para lutar pela cria.
Ela caminhou até a cabeceira da cama, curvou-se e depositou um beijo suave na testa febril de Léo.
— Eu vou salvar você, meu amor — sussurrou, a promessa selada em sua alma. — Custe o que custar.
Ela se virou para Mariana.
Suas mĂŁos, que antes tremiam, agora estavam firmes.
O ar de vulnerabilidade havia desaparecido, substituĂdo pela postura de rainha exilada que se preparava para retomar o que era seu por direito: a vida de seu filho.
Helena apertou o punho com tanta força que suas unhas curtas se enterraram na carne da palma da mĂŁo, quase extraindo sangue, buscando na dor fĂsica o foco necessário para nĂŁo vacilar.
— Prepare os papéis de transferência do Léo para um hospital de referência na capital — ordenou Helena, a voz fria como o aço. — Nós não temos tempo a perder.
— Helena... você tem certeza? — Mariana perguntou, embora já soubesse a resposta ao ver a chama nos olhos da amiga.
Helena caminhou até a janela do quarto, olhando para a noite escura lá fora, onde as luzes da cidade pareciam fumaça.
O passado estava chamando, e ela nĂŁo podia mais fugir.
— Eu vou voltar para aquela maldita cidade hoje à noite!
