Capítulo 1 1
O grito do guerreiro atravessou a enfermaria no instante em que Seraphine empurrou o osso de volta para o lugar.
O som foi forte o bastante para fazer dois aprendizes recuarem, mas ela não afastou as mãos.
Sentiu os músculos do antebraço de Jarek se contraírem sob seus dedos, percebeu o suor frio brotando na testa dele e esperou até que a respiração descompassada começasse a encontrar algum ritmo antes de diminuir a pressão.
O cheiro metálico de sangue misturava-se ao das folhas de consolda esmagadas, ao álcool de ervas e à fumaça fina que subia de um pequeno braseiro no canto da enfermaria.
Do lado de fora, o som dos guerreiros treinando no pátio chegava abafado pelas paredes de madeira, acompanhado pelo choque ocasional de lâminas e pelas ordens gritadas pelo Gama Darius Reev.
Era uma manhã comum na Lua de Ferro.
Para Seraphine, manhãs comuns quase sempre começavam cuidando das feridas dos outros.
— Acabou? Jarek perguntou entre os dentes cerrados.
— A pior parte.
Ele abriu um dos olhos.
— Você sempre diz isso.
— Porque você sempre volta machucado.
Uma risada sofrida escapou do guerreiro.
Seraphine soltou cuidadosamente o braço dele e alcançou a tigela sobre a mesa.
Mergulhou dois dedos na pasta verde-escura que preparou pouco antes e espalhou uma camada fina ao redor da região lesionada. Jarek respirou fundo.
— Isso está gelado.
— Deve estar. Vai diminuir o inchaço.
— E essa coisa fede.
— Posso deixar você com o braço inchado.
— De repente o cheiro melhorou.
O canto da boca de Seraphine quase se levantou.
Quase.
Momentos como aquele eram raros o suficiente para que ela tivesse aprendido a não se entregar completamente a eles.
— Não movimente o braço hoje. Amanhã eu verifico novamente.
— Amanhã?
Ela ergueu os olhos verde-musgo.
— Você deslocou o ombro, Jarek. Não perdeu um botão da camisa.
Um dos aprendizes riu.
Jarek apontou para ele com a mão saudável.
— Está rindo porque não foi você que ela torturou.
— Eu salvei seu braço.
— Com métodos questionáveis.
— Então da próxima vez procure Valeska.
O silêncio caiu tão rapidamente que Seraphine percebeu o erro antes mesmo de terminar de falar.
Os aprendizes baixaram os olhos.
Jarek parou de sorrir.
Eira ergueu a cabeça dentro dela.
A loba não precisava de palavras para demonstrar desaprovação. Uma pressão quente percorreu o peito de Seraphine, acompanhada pela vontade quase física de mostrar os dentes.
Não.
Ela respirou fundo.
Não havia ninguém da família Alfa ali.
Ainda assim, alguns nomes eram perigosos mesmo quando seus donos estavam longe.
Seraphine terminou a bandagem e deu um pequeno nó no tecido.
— Volte amanhã.
Jarek levantou-se, mas não saiu imediatamente.
— Obrigado.
Ela assentiu.
O guerreiro aproximou-se da porta, hesitou e olhou para trás.
— Você deveria ser a curandeira-chefe.
Seraphine congelou.
— Jarek...
— Todo mundo sabe.
— Vá.
— Seraphine...
— Eu disse para ir.
Ele percebeu o medo que ela tentava esconder.
E saiu.
A porta mal havia fechado quando uma voz feminina surgiu do corredor.
— Que interessante.
O estômago de Seraphine se contraiu.
Os dois aprendizes ficaram rígidos.
Eira rosnou dentro dela.
Seraphine não precisou olhar para saber quem estava entrando.
Valeska Aster apareceu na porta como se até a luz da manhã devesse pedir autorização antes de tocá-la.
Os cabelos loiro-platinados estavam perfeitamente penteados, caindo lisos pelas costas, e o vestido azul-claro que usava não possuía uma única dobra fora do lugar.
Dois passos atrás dela vinha outra jovem da casa Alfa, carregando uma caixa de tecidos.
Valeska passou os olhos pela enfermaria.
Depois os fixou em Seraphine.
— Parece que estou interrompendo alguma coisa.
— Eu estava terminando o atendimento de um guerreiro.
— Eu ouvi.
Seraphine começou a recolher os instrumentos.
— Precisa de atendimento?
Valeska sorriu.
Não havia calor naquele sorriso.
— Você acabou de me perguntar se eu preciso de atendimento?
As mãos de Seraphine pararam sobre a mesa.
— Perguntei porque estamos na enfermaria.
— E você está esquecendo com quem está falando.
Os aprendizes desapareceram discretamente para a sala dos fundos.
Seraphine invejou os dois.
Valeska entrou.
O som de seus sapatos contra o piso pareceu alto demais.
— Disseram que você estava aqui. Ela passou um dedo pela borda de uma prateleira.
— Naturalmente.
— Este é meu trabalho.
— Seu trabalho é aquilo que a família Alfa determinar que seja.
Seraphine baixou lentamente os olhos.
Era sempre assim.
Não importava que fosse filha do Beta.
Não importava que tivesse passado anos aprendendo a reconhecer plantas capazes de fechar feridas, baixar febres ou impedir que um guerreiro morresse depois de um envenenamento.
Não importava quantos lobos entrassem naquela enfermaria sangrando e saíssem andando.
Para Valeska, ela continuava sendo alguém que podia ser chamada com um movimento dos dedos.
— O que você precisa?
— Minhas roupas chegaram.
Seraphine esperou.
Valeska também.
O silêncio prolongou-se até que ela compreendeu.
— Quer que eu organize suas roupas?
— Finalmente.
Eira se empurrou contra ela.
Seraphine apertou os dedos ao redor de um pano ensanguentado.
— Tenho três pacientes esperando.
— Eles podem esperar.
— Um deles levou uma mordida profunda durante a patrulha. Preciso verificar se...
— Eu disse que podem esperar.
Seraphine levantou os olhos.
Foi apenas por um segundo.
Mas um segundo era suficiente.
Valeska aproximou-se.
— Algum problema?
— Não.
— Então por que está me olhando assim?
— Assim como?
O tapa veio rápido.
A cabeça de Seraphine virou para o lado.
O gosto de sangue apareceu quase imediatamente em sua boca.
Eira avançou dentro dela com tamanha violência que seus olhos arderam.
As unhas de Seraphine pressionaram as palmas das mãos enquanto lutava contra a mudança parcial.
Bastaria permitir que a loba chegasse um pouco mais perto para seus olhos denunciarem tudo.
Não podia!
Atacar a filha do Alfa seria atacar a autoridade de Alaric Aster.
E seu pai já lhe explicou as consequências vezes suficientes.
Valeska segurou seu queixo.
— Nunca me responda com outra pergunta.
Seraphine respirou pelo nariz.
— Sim.
Os dedos apertaram mais.
— Sim, o quê?
Houve uma pausa.
— Sim, senhorita.
Valeska a soltou.
— Melhor.
Seraphine permaneceu imóvel.
A bochecha queimava.
Valeska virou-se para sair, mas parou diante da porta.
— Ah, Seraphine?
Ela não respondeu imediatamente.
— Sim?
— Limpe-se antes de entrar no meu quarto. Você cheira a sangue.
A porta fechou.
Seraphine ficou olhando para ela.
Somente quando os passos desapareceram pelo corredor permitiu que o ar deixasse seus pulmões.
Uma tigela caiu na sala dos fundos.
Um dos aprendizes provavelmente ouviu tudo.
Aquilo era quase pior.
