Capítulo 2 2
Seraphine virou-se para a bancada e encontrou seu próprio reflexo no pequeno espelho pendurado entre duas prateleiras.
Uma marca vermelha começava a aparecer em sua face esquerda.
Filha do Beta.
Era quase engraçado.
Boren Varyn ocupava a segunda posição mais importante da Lua de Ferro.
Sentava-se à direita do Alfa durante reuniões, comandava guerreiros na ausência de Alaric, conhecia todas as fronteiras e todos os tratados daquela alcateia.
E sua filha acabava de levar um tapa porque demorou alguns segundos para aceitar organizar vestidos.
Seraphine pegou um pano e molhou-o.
— Você vai continuar fingindo que isso é normal?
Ela fechou os olhos.
Maelin.
A amiga estava encostada no batente da porta lateral, os cabelos cacheados presos de qualquer maneira e uma cesta de frascos apoiada contra o quadril.
— Não estou fingindo.
— Então faça alguma coisa.
Seraphine pressionou o pano contra a boca.
— Como o quê?
— Conte ao seu pai.
Ela riu.
Foi um som pequeno e amargo.
— Ele sabe.
Maelin ficou em silêncio.
Essa era a parte que ninguém sabia como responder.
Boren sabia.
Sabia dos insultos. Sabia das tarefas. Sabia das punições.
Talvez não soubesse de cada tapa, de cada empurrão ou de cada prato que Valeska mandava retirar da frente dela como punição, mas sabia o suficiente.
E sempre dizia a mesma coisa.
"Tenha paciência, filha."
"Alaric é meu Alfa."
"Valeska será Luna um dia."
"Não podemos criar uma ruptura por causa disso."
Por causa disso.
Como se Seraphine fosse uma inconveniência política.
— Um dia ela vai longe demais. Maelin murmurou.
Seraphine lavou as mãos.
— Ela sempre vai longe demais.
— Então por que você continua?
A resposta veio tão naturalmente que doeu.
— Porque não tenho para onde ir.
Maelin abriu a boca.
Um sino tocou no centro da alcateia.
Uma vez.
Duas.
Três.
Seraphine franziu a testa.
Não era chamado de emergência.
Era anúncio.
Vozes começaram a surgir do lado de fora.
Passos atravessaram o pátio.
Maelin aproximou-se da janela.
— O que aconteceu?
Seraphine continuou limpando o sangue das mãos.
— Provavelmente outra reunião.
Mas um jovem mensageiro passou correndo pela porta da enfermaria.
— Preparem a Casa Alfa! Gritou para alguém do outro lado do pátio.
— A comitiva chega em dois dias!
Maelin abriu mais a janela.
— Que comitiva?
O rapaz diminuiu os passos apenas o suficiente para responder:
— Presas de Ônix.
Seraphine parou.
Ela conhecia o nome.
Todos os lobos conheciam.
A alcateia que controlava algumas das rotas mais importantes do norte. Guerreiros treinados. Território vasto. Uma linhagem Alfa antiga.
E um compromisso que vinha sendo negociado havia meses.
Maelin voltou-se lentamente.
— Então é verdade.
Seraphine retirou o pano da boca.
— O quê?
— Ele vem pessoalmente.
— Quem?
Antes que Maelin respondesse, outra voz ecoou pelo pátio:
— O Alfa Kael Draven chegará à Lua de Ferro em dois dias!
Eira levantou-se dentro de Seraphine.
Não rosnou.
Não mostrou os dentes.
A loba simplesmente ficou imóvel.
Atenta.
Seraphine levou a mão ao peito quando uma sensação inexplicável atravessou seu corpo.
Durou apenas um instante.
Então desapareceu.
— Seraphine?
Ela olhou para Maelin.
— O que foi?
— Você ficou pálida.
— Não foi nada.
Seraphine pegou a cesta de roupas que Valeska deixara para ela e caminhou em direção à porta.
Não conhecia Kael Draven.
Nunca o tinha visto.
E, se dependesse dela, permaneceria assim.
Porque homens como Kael pertenciam ao mundo de Valeska.
Alfas.
Lunas.
Tratados.
Poder.
Seraphine conhecia outro mundo.
Sangue nas mãos.
Ervas secando nas paredes.
Ordens que não podia recusar.
E a certeza de que, naquela alcateia, ser filha do Beta jamais significou estar protegida.
Do lado de fora, o sino continuava tocando.
E, pela primeira vez naquela manhã, Seraphine não percebeu que Eira ainda estava de pé dentro dela, encarando silenciosamente a direção norte.
Como se uma parte da loba já soubesse que alguma coisa estava vindo.
E que, depois da chegada de Kael Draven, nada permaneceria exatamente como antes.
