Capítulo 3 3

AQUELA QUE DEVE OBEDECER

Seraphine descobrira ainda muito jovem que existiam muitas maneiras de ferir alguém sem deixar uma única marca na pele.

Valeska dominava quase todas.

Na manhã seguinte ao anúncio da chegada de Kael Draven, a Lua de Ferro despertou antes do nascer do sol.

O território inteiro parecia ter sido tomado por uma inquietação que se espalhava das casas mais próximas da residência Alfa até os alojamentos dos guerreiros.

Criados carregavam caixas, mulheres estendiam tecidos sobre grandes mesas, caçadores retornavam com animais que seriam preparados para o jantar e patrulheiros percorriam as fronteiras com frequência redobrada.

O cheiro de pão recém-assado misturava-se à fumaça das lareiras e à umidade da madrugada, enquanto vozes atravessavam a praça central discutindo flores, quartos, cavalos e provisões.

Kael ainda estava a um dia de distância, mas a alcateia já se comportava como se o Alfa de Presas de Ônix pudesse surgir a qualquer momento.

Seraphine observava tudo pela janela da enfermaria enquanto triturava casca de salgueiro em um pilão.

Havia dormido pouco.

A bochecha já não apresentava a vermelhidão do tapa, embora permanecesse sensível. Ela tinha acabado de misturar o pó com outras ervas quando a porta se abriu.

— Seraphine.

A voz de Boren foi suficiente para fazer sua mão parar.

Seu pai ocupou quase toda a entrada.

Mesmo depois dos cinquenta, continuava sendo um homem imponente, com ombros largos, braços fortes e os primeiros fios grisalhos surgindo nas têmporas.

Os olhos verdes, tão semelhantes aos dela, passaram rapidamente por seu rosto.

Seraphine percebeu o momento exato em que ele encontrou a pequena fissura em seu lábio.

— O que aconteceu?

Ela voltou ao pilão.

— Nada.

— Seu lábio está machucado.

— Mordi.

Boren permaneceu parado.

— Seraphine.

Ela pressionou o pilão com força demais.

— O que quer que eu diga?

O silêncio mudou.

Seu pai entrou e fechou a porta.

— Foi Valeska?

Seraphine soltou uma risada curta.

— Faz diferença?

— Claro que faz.

Ela finalmente o encarou.

— Faz?

Boren respirou fundo.

— Filha...

— Não.

Seraphine afastou o pilão.

— Não diga para eu ter paciência. Não hoje.

A mandíbula dele endureceu.

— Valeska está sob pressão. A chegada de Kael Draven...

— E isso dá a ela o direito de bater em mim?

— Eu não disse isso.

— Nunca diz.  Seraphine sentiu Eira movimentar-se inquieta.

— Você nunca diz que ela pode. Apenas explica por que eu devo aceitar.

Boren aproximou-se.

— Sou Beta desta alcateia. Não posso transformar cada conflito entre você e Valeska em uma disputa entre a família Beta e a família Alfa.

— Cada conflito?

Ele percebeu.

Ela viu em seus olhos.

— Seraphine...

— Preciso trabalhar.

— Olhe para mim.

Ela não obedeceu.

Por alguns segundos, nenhum dos dois falou.

Então a voz dele veio mais baixa.

— Só preciso que suporte mais um pouco.

Seraphine fechou os olhos.

As mesmas palavras.

Sempre.

— Quanto?

— O quê?

— Quanto é "mais um pouco", pai?

Boren não respondeu.

Seraphine pegou a tigela.

— Foi o que imaginei.

A porta abriu antes que ele pudesse dizer alguma coisa. Uma criada apareceu, ofegante.

— Senhorita Seraphine, Valeska está esperando.

Boren olhou para a jovem.

— Minha filha está trabalhando.

— A ordem veio da Casa Alfa, senhor.

Aquilo bastou.

Seraphine esperou que o pai dissesse não.

Apenas uma vez.

Boren baixou lentamente o olhar.

— Vá. Eu termino aqui.

Algo dentro dela ficou terrivelmente quieto.

— Claro.

Ela retirou o avental.

— Seraphine...

Passou pelo pai sem responder.

A caminhada até a Casa Alfa durava menos de dez minutos, mas naquela manhã pareceu longa demais.

Seraphine entrou pela porta lateral e encontrou criadas correndo pelos corredores.

Quando chegou aos aposentos de Valeska, havia pelo menos quinze vestidos espalhados sobre a cama, poltronas e biombo.

Valeska estava diante do espelho.

— Demorou.

— Estava trabalhando.

— Agora está trabalhando para mim.

Seraphine não respondeu.

Evelyn Aster estava sentada perto da janela. A Luna examinou Seraphine dos pés à cabeça.

— Comece pelo vestido prateado.

Seraphine pegou a peça.

— O azul  Valeska corrigiu.

— O prateado realça seus olhos  Evelyn argumentou.

— Kael já viu mulheres vestidas de prata a vida inteira.

Seraphine permaneceu segurando o vestido.

Valeska a observou pelo espelho.

— O que acha?

A pergunta era uma armadilha.

— Ambos são bonitos.

— Não perguntei isso.

— O azul.

Valeska virou-se.

— Por quê?

— Porque o prateado parece escolhido para combinar com Presas de Ônix. O azul é seu.

Evelyn ergueu ligeiramente as sobrancelhas.

Valeska ficou em silêncio.

— Então será o azul.

Durante quase duas horas, Seraphine fechou botões, separou joias, buscou água, guardou vestidos e refez penteados que Valeska decidiu não gostar.

Quando finalmente foi liberada, o sol já estava alto e seu estômago doía de fome.

Dirigiu-se à cozinha.

Alzira, uma das cozinheiras, colocou discretamente pão, queijo e ensopado em um prato.

— Coma enquanto está quente.

Seraphine mal conseguiu sentar quando uma criada da Casa Alfa entrou.

— Ordens de Valeska. Seraphine deve conferir os quartos dos visitantes.

A colher parou a centímetros de sua boca.

Alzira franziu a testa.

— Ela ainda não comeu.

— Eu apenas trouxe a ordem.

Seraphine pousou a colher.

— Deixe o prato.

— Vai esfriar. Alzira protestou.

— Eu volto.

Não voltou.

Quando terminou os quartos, foi enviada para conferir a enfermaria destinada aos visitantes, depois para separar medicamentos de viagem e, em seguida, para buscar flores na extremidade leste.

O sol já começava a descer quando ela conseguiu parar.

— Pegue.

Uma maçã apareceu diante de seu rosto.

Seraphine ergueu os olhos.

Toran Reev estava apoiado contra uma árvore, usando as roupas escuras dos guerreiros.

Alto, cabelos castanhos desalinhados e uma pequena cicatriz no queixo, ele a observava com uma expressão que ela conhecia desde a infância.

— Não estou com fome.

— Péssima mentira.

— Toran...

Ele colocou a maçã em sua mão.

— Maelin disse que você não almoçou.

— Maelin fala demais.

— E você fala de menos.

Seraphine mordeu a fruta.

Toran cruzou os braços.

— Melhor?

— Um pouco.

— Ótimo. Agora posso perguntar por que seu lábio está cortado.

Ela mastigou devagar.

— Não.

— Seraphine.

— Você e Maelin combinaram isso?

— Não precisamos combinar para perceber.

Ela desviou os olhos.

Toran perdeu o sorriso.

— Foi Valeska?

— Não importa.

— Para mim importa.

— E o que vai fazer?  Ela se virou para ele.

— Enfrentar a filha do seu Alfa? Seu pai é Gama. O meu é Beta. Você sabe como isso termina.

— Talvez termine quando alguém parar de abaixar a cabeça.

A frase atingiu um lugar sensível.

— É fácil dizer quando não é você que dorme esperando a próxima punição.

Toran ficou imóvel.

O arrependimento apareceu imediatamente em seu rosto.

— Você tem razão.

Seraphine suspirou.

— Desculpe.

— Não. Eu é que...

— Seraphine!

Maelin vinha pela trilha quase correndo.

— Finalmente encontrei vocês.

— O que aconteceu?  Toran perguntou.

Ela parou diante deles.

— A comitiva avançou mais rápido.

Seraphine sentiu Eira levantar a cabeça.

— Quanto?

— Eles atravessaram o desfiladeiro antes do previsto. Devem chegar amanhã antes do meio-dia.

Toran assobiou baixo.

— Isso vai deixar a Casa Alfa enlouquecida.

— Já deixou.  Maelin respondeu.

— Valeska mandou trocar toda a decoração do salão.

Seraphine fechou os olhos.

— Claro que mandou.

Maelin segurou seu braço.

— Tem mais.

— Sempre tem.

— O Alfa Alaric determinou que as principais famílias estejam presentes na recepção.

Seraphine franziu a testa.

— Então meu pai estará.

— Não apenas seu pai.

Ela entendeu.

— Não.

— Você é filha do Beta.

— Quando interessa a eles.

Toran olhou para as duas.

— Seraphine...

— Não quero ficar perto dele.

Maelin piscou.

— Você nem conhece Kael.

— Exatamente. E quero continuar assim.

Eira não concordou.

A loba começou a andar inquieta dentro dela.

Seraphine pressionou os dedos contra a maçã.

Desde que ouvira o nome de Kael Draven, algo estranho acontecia toda vez que alguém mencionava sua chegada.

Não era curiosidade. Também não era medo.

Era Eira.

Atenta.

Esperando.

Naquela noite, quando Seraphine finalmente voltou para casa, encontrou Boren sentado sozinho à mesa.

Havia um prato coberto esperando por ela.

Ela parou.

— Pedi que guardassem seu jantar. Ele disse.

Seraphine não sabia se aquilo era culpa ou carinho.

Talvez fosse ambos.

Sentou-se sem falar.

Boren permaneceu diante dela.

— Amanhã você ficará ao meu lado durante a recepção.

Seraphine ergueu os olhos.

— Valeska sabe?

— Foi determinação de Alaric. Alfa, Beta e Gama receberão a comitiva com suas famílias.

— Ela não vai gostar.

— Você é minha filha.

Seraphine quase perguntou desde quando aquilo era suficiente.

Não perguntou.

Comeu em silêncio.

Horas depois, deitada em seu quarto, ouviu os sons da alcateia diminuírem até restarem apenas o vento e as patrulhas noturnas.

Eira continuava acordada.

O que há com você?

A loba não respondeu.

Mas, pela primeira vez em muitos anos, Seraphine sonhou.

Não com Valeska.

Não com sangue.

Não com a voz do pai pedindo paciência.

Sonhou com uma floresta coberta de névoa, dois olhos prateados observando-a entre árvores e um enorme lobo negro caminhando em sua direção.

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