Capítulo 4 4
O ALFA PROMETIDO
Seraphine acordou antes do amanhecer com o coração disparado.
Então ouviu o primeiro uivo vindo da fronteira.
Um segundo respondeu.
Depois um terceiro.
Não era alarme.
Era anúncio.
A comitiva havia sido avistada.
Eira avançou dentro dela tão repentinamente que Seraphine precisou agarrar os lençóis.
Uma única certeza atravessou o vínculo entre mulher e loba.
Ele chegou.
Quando o segundo uivo atravessou a Lua de Ferro, Seraphine já estava diante do espelho tentando prender os cabelos com mãos que pareciam incapazes de permanecer quietas.
Não entendia o motivo da inquietação.
Havia acordado cedo muitas vezes para receber representantes de outras alcateias, acompanhar o pai em cerimônias ou atender guerreiros que chegavam feridos depois de patrulhas.
Nenhuma dessas ocasiões fez Eira andar dentro dela como um animal preso.
Desde o sonho, a loba permanecia alerta, aproximando-se da superfície a cada som vindo da fronteira, e Seraphine precisava mandar que se acalmasse tantas vezes que começava a irritar-se consigo mesma.
Kael Draven era apenas um Alfa.
Poderoso, certamente. Importante o suficiente para que metade da Lua de Ferro tivesse passado dois dias preparando sua chegada.
Mas continuava sendo um desconhecido que vinha discutir uma união com Valeska e, depois, iria embora.
Seraphine terminou a trança, vestiu o simples vestido verde-escuro que Boren deixou separado e desceu.
Seu pai a esperava.
Por um instante, ele apenas olhou para ela.
— Você está parecida com sua mãe.
Seraphine sentiu a respiração falhar.
Boren pareceu perceber o que dissera e desviou os olhos.
— Precisamos ir.
Era sempre assim quando Lysandra surgia entre os dois.
Uma lembrança pronunciada depressa demais, seguida por silêncio.
Seraphine acompanhou o pai.
A praça central estava tomada.
Guerreiros formavam duas fileiras diante da entrada principal, famílias ocupavam as laterais e as bandeiras da Lua de Ferro balançavam sob o vento frio.
Alaric Aster permanecia no centro, com Evelyn e Valeska ao lado. Darius Reev e sua família estavam à direita.
Boren conduziu Seraphine até seu lugar.
Valeska a viu.
O sorriso que exibia para os demais desapareceu por uma fração de segundo.
Seus olhos percorreram o vestido de Seraphine.
— Verde?
Seraphine conteve um suspiro.
— Foi meu pai quem escolheu.
Boren ouviu.
— Algum problema?
Valeska recompôs o sorriso.
— Nenhum, Beta.
Seraphine quase sorriu.
Quase.
Então os portões foram abertos.
A primeira coisa que ela percebeu não foi Kael.
Foram os homens que vinham com ele.
Presas de Ônix não chegou à Lua de Ferro com uma comitiva exagerada.
Havia poucos guerreiros, mas a maneira como avançavam tornava números desnecessários.
Não conversavam, não olhavam curiosamente ao redor e não demonstravam tensão por estarem entrando em território estrangeiro.
Moviam-se como homens acostumados a confiar uns nos outros.
À frente vinha um lobo montado em um cavalo negro.
Seraphine soube quem era antes que alguém pronunciasse seu nome.
Eira ficou absolutamente imóvel.
Kael Draven desmontou.
Alto.
Muito mais alto do que Seraphine imaginara.
Usava roupas escuras de viagem, botas marcadas pela estrada e um casaco negro preso nos ombros.
Os cabelos da mesma cor estavam ligeiramente desarrumados pelo vento, e a barba curta tornava as linhas do rosto ainda mais severas.
Não havia coroa, joias ostensivas ou qualquer necessidade de anunciar sua posição.
A presença dele fazia isso.
Alaric avançou.
— Alfa Draven. Bem-vindo à Lua de Ferro.
Kael estendeu o braço.
— Alfa Aster.
Os antebraços se encontraram no cumprimento tradicional.
Seraphine deveria ter desviado os olhos.
Não conseguiu.
Darian desmontou atrás do amigo, seguido por Ronan, Elias e Gareth.
A diferença entre eles e os guerreiros da Lua de Ferro chamou sua atenção imediatamente.
Darian disse alguma coisa baixa e Gareth sorriu.
Ronan observava as torres. Elias examinava a floresta.
Homens de confiança.
Não servos.
Seraphine não sabia por que aquilo lhe chamou tanta atenção.
— Kael.
A voz de Valeska adquiriu uma suavidade que Seraphine raramente ouviu.
Ela avançou.
Kael voltou-se para a jovem.
Valeska estava belíssima.
O vestido azul escolhido no dia anterior moldava seu corpo, os cabelos platinados estavam presos parcialmente com pequenas pedras prateadas e nenhum detalhe parecia acidental.
— Valeska.
Ele beijou formalmente sua mão.
Nada mais.
Seraphine percebeu a pequena contração nos dedos da outra mulher.
Evelyn percebeu também.
Alaric começou as apresentações.
Seraphine desejou desaparecer.
Primeiro Darius e Mara.
Depois Toran e Erin.
Então Boren.
— Meu Beta, Boren Varyn.
Kael apertou o antebraço de seu pai.
— Sua reputação como guerreiro atravessa fronteiras.
Boren pareceu satisfeito.
— É uma honra recebê-lo.
Alaric fez um gesto distraído.
— E sua filha, Seraphine Varyn.
Kael virou o rosto.
O mundo não parou.
Seraphine saberia mais tarde que nada realmente extraordinário aconteceu ao redor deles.
O vento continuava movimentando as bandeiras. Alguém tossiu entre os guerreiros.
Um cavalo bateu o casco contra a terra. Uma criança reclamou com a mãe.
Mas ela não ouviu nada.
Os olhos de Kael encontraram os seus.
Cinza.
Não.
Prateados.
Eira avançou.
Seraphine perdeu o ar.
Uma onda de calor percorreu sua coluna tão violentamente que os dedos se fecharam sobre a saia.
A loba pressionou contra sua pele, não tentando assumir o controle, mas querendo aproximar-se.
Eira.
Nenhuma resposta.
Kael também havia parado.
Por apenas dois segundos.
Talvez três.
