Capítulo 5 5
Mas Seraphine viu as pupilas dele se dilatarem.
Kael inspirou.
Profundamente.
E o rosto do Alfa mudou.
Não muito.
Uma pequena tensão no maxilar. O movimento quase imperceptível das narinas. O olhar descendo por um instante até o pescoço dela antes de retornar aos olhos.
Darian olhou para o amigo.
Seraphine sentiu o cheiro dele somente então.
Pinheiro.
Chuva.
Madeira queimada.
E alguma coisa selvagem que fez Eira estremecer.
A loba soltou um som baixo dentro dela.
Não era rosnado.
Seraphine nunca a ouvira produzir aquele som.
— Seraphine. Kael repetiu.
A voz grave provocou outra reação absurda.
Ela inclinou a cabeça.
— Alfa Draven.
Kael deveria ter passado para a próxima pessoa.
Não passou.
— Você trabalha com ervas?
Seraphine ficou confusa.
— Trabalho.
— Como sabe? Alaric perguntou.
Kael ainda a observava.
— Consigo sentir.
Seraphine olhou para as próprias mãos.
Mesmo depois do banho, o cheiro das plantas permanecia em sua pele.
— Sou curandeira.
— Aprendiz. Valeska corrigiu imediatamente.
Seraphine ficou rígida.
Kael desviou finalmente os olhos dela.
— Entendo.
Duas palavras.
Nada nelas deveria ter incomodado Valeska.
Mas incomodou.
Seraphine percebeu quando a filha do Alfa passou o braço pelo de Kael.
— Você deve estar cansado da viagem. Seus aposentos estão preparados.
Kael olhou para o braço dela antes de voltar-se para Alaric.
— Meus homens também receberam acomodações?
— Naturalmente. Alaric respondeu.
— Então agradeço.
A recepção começou a se dispersar.
Seraphine soltou o ar que não percebeu estar prendendo.
— O que foi isso?
Toran havia se aproximado.
— O quê?
Ele arqueou uma sobrancelha.
— Você sabe.
— Não aconteceu nada.
— Claro.
— Toran.
— Estou apenas dizendo que...
— Seraphine.
Valeska.
Toran ficou imediatamente sério.
A filha do Alfa aproximou-se depois que Kael entrou na residência com Alaric e Boren.
Seu sorriso permanecia no rosto.
Os olhos, não.
— Venha comigo.
Seraphine seguiu.
Valeska só parou quando chegaram a um corredor lateral vazio.
Então se virou.
— O que você fez?
Seraphine piscou.
— Não sei do que está falando.
— Ele sentiu seu cheiro.
— Sou curandeira. Estou cercada de ervas todos os dias.
— Não estou falando das ervas.
Seraphine sentiu Eira erguer novamente a cabeça.
— Então não sei o que quer dizer.
Valeska aproximou-se.
— Kael nunca olha para ninguém daquele jeito.
A frase revelou mais do que provavelmente pretendia.
Seraphine a encarou.
— Eu nunca o tinha visto.
— E vai continuar sem vê-lo.
— Ótimo.
A resposta saiu rápida demais.
Valeska estreitou os olhos.
— Ótimo?
— Ele veio por você. Não tenho interesse algum no seu compromisso.
— Não precisa ter interesse para ser inconveniente.
Seraphine sentiu o cansaço transformar-se em irritação.
— Então diga exatamente o que quer.
— Fique longe dele.
— Pretendia fazer isso antes mesmo de ele chegar.
Valeska aproximou o rosto.
— Não quero você no jantar.
— Não fui convidada.
— Nem nos jardins. Nem na ala de hóspedes. Nem perto do campo de treinamento enquanto eles estiverem aqui.
Seraphine respirou lentamente.
— Tenho pacientes na ala leste.
— Outro curandeiro pode atendê-los.
— Não se estiverem sob meus cuidados.
O olhar de Valeska endureceu.
— Você continua esquecendo seu lugar.
— Não. Seraphine sustentou o olhar por um segundo.
— Você faz questão de lembrá-lo todos os dias.
O silêncio foi perigoso.
Eira mostrou os dentes.
Valeska deu um passo adiante.
Antes que pudesse fazer qualquer coisa, vozes masculinas surgiram no corredor principal.
Seraphine reconheceu uma delas.
Kael.
Valeska afastou-se imediatamente.
A transformação foi impressionante. Ombros relaxados. Sorriso delicado. Mãos compostas diante do corpo.
Kael apareceu acompanhado por Darian.
Seraphine baixou os olhos.
— Valeska. Kael cumprimentou.
— Estava mostrando algumas coisas à filha do Beta.
— Parecia uma conversa intensa.
— Seraphine é quase como uma irmã mais nova. Às vezes precisa de orientação.
Seraphine sentiu o estômago embrulhar.
Kael olhou para ela.
— Está tudo bem?
Valeska ficou imóvel.
Seraphine poderia dizer não.
Por um segundo terrível, quis dizer.
Então pensou em seu pai.
Na enfermaria.
Na casa onde dormiria naquela noite.
Kael iria embora.
Ela ficaria.
— Perfeitamente, Alfa Draven.
Kael não pareceu acreditar.
Mas assentiu.
Seraphine fez uma reverência discreta e passou por eles.
Só conseguiu respirar normalmente quando chegou ao pátio.
Entretanto, Kael permaneceu parado no corredor.
Darian esperou até Seraphine desaparecer.
— Rhydian? Perguntou baixo.
Kael lançou-lhe um olhar.
— O quê?
— Eu conheço você há trinta anos.
Kael permaneceu em silêncio.
Darian aproximou-se um pouco.
— Seu lobo quase veio à superfície quando aquela mulher olhou para você.
Kael cerrou a mandíbula.
Porque era verdade.
Desde que descera do cavalo, Rhydian estava inquieto.
Quando Seraphine apareceu diante dele, o enorme lobo negro simplesmente avançou dentro de sua mente com uma força que Kael não sentia havia anos.
E havia o cheiro.
Ervas.
Terra úmida.
Alguma flor que não conseguia identificar.
E outra coisa.
Algo que Rhydian queria seguir.
— Não significa nada. Kael disse.
Darian soltou uma risada baixa.
— Se precisar repetir, provavelmente significa alguma coisa.
Kael ignorou-o e começou a andar.
Mas, no fim do corredor, virou discretamente o rosto para a janela.
Seraphine atravessava o pátio em direção à enfermaria.
Naquele exato momento, como se tivesse sentido o olhar, ela parou.
Voltou-se.
Os olhos se encontraram novamente através da distância.
Eira avançou.
Rhydian respondeu.
Dessa vez, nenhum dos dois conseguiu fingir que não havia acontecido.
E, atrás de Kael, Valeska também viu.
