Capítulo 2
Ponto de vista de Eleanor
2h47. Os números no meu celular brilhavam no escuro, acusadores.
Ouvi o celular dele vibrar. Uma vez. Duas. Três vezes, em rápida sucessão.
Então movimento. O farfalhar dos lençóis. Passos se aproximando do closet.
Fechei os olhos, regulei a respiração no ritmo do sono quando a porta do quarto se entreabriu. Uma nesga de luz caiu sobre o meu rosto e, em seguida, desapareceu.
— Preciso sair — ele me disse. — Reunião de emergência.
A porta do quarto se fechou. A porta da cobertura fez clique ao se fechar. Contei a descida dele pelas mudanças de pressão nos meus ouvidos — quarenta andares até o nível da rua, quarenta andares de distância que bem podiam ser um divisor continental.
Quando o silêncio se instalou por completo, enfim abri os olhos.
3h15.
Reunião de emergência. Às três da manhã.
O lado dele na cama já estava esfriando, a marca do corpo se desfazendo como se ele nunca tivesse estado ali. Meu celular mostrava uma notificação que eu, de algum jeito, tinha perdido:
Arthur Sterling: Surgiu uma coisa no trabalho. Não fica me esperando acordada.
Enviado às 3h12. Três minutos antes de ele sair.
Fitei a mensagem, algo frio e duro se cristalizando no meu peito. Ele nem se deu ao trabalho de me acordar. Só um texto, clínico e breve, como se estivesse cancelando uma reunião.
A postagem no Instagram me assombrava. Família é tudo. O menino nos ombros de Arthur. Celine radiante de branco. E a marcação de localização: Sterling Summer Estate, East Hampton.
Abri de novo, estudando cada detalhe. O convés do iate. O pôr do sol. A camisa de linho casual de Arthur — a que eu tinha dado a ele no verão passado, a que ele disse ser “informal demais” para o nosso jantar de aniversário.
Aparentemente, era formal o bastante para ela.
Meu celular vibrou. Sebastian: Não consigo dormir. As decisões de Columbia saem hoje. Tô surtando.
Meu irmãozinho. Dezessete anos, brilhante, contando com a educação em Andover — paga pelo homem que acabara de sair da nossa cama às três da manhã.
Eu: Você vai passar. Eu sei que vai.
Coloquei o celular de lado com cuidado. A teia se apertou ao redor do meu peito — as contas do Mount Sinai do papai, a mensalidade do Sebastian, a esperança frágil da mamãe, a propriedade na Provença a um pagamento perdido de ir a leilão.
Tudo isso sustentado pelo meu casamento com Arthur Sterling.
Olhei para o vestido da Dior ainda amontoado no chão e entendi: eu tinha estado tão ocupada tentando merecer o amor de Arthur que nunca parei para perguntar se eu ainda o queria.
A resposta era não.
Às 6h, desisti de dormir. Tomei banho até a água ficar gelada, depois fiquei diante do espelho e montei minha armadura — corretivo para esconder as olheiras, base para uniformizar a palidez, blush para fingir vida.
Quando terminei, a máscara estava perfeita. Eleanor Sterling, filha dedicada, esposa obediente, mulher que definitivamente não tinha passado a noite no chão do banheiro.
Vesti um conjunto de cashmere da Loro Piana e prendi o cabelo num coque baixo, então chamei um Uber para o Mount Sinai.
O hospital cheirava a antisséptico e café de refeitório. Fui até o décimo terceiro andar no piloto automático, carregando bagels da Zabar’s — os preferidos do papai, com salmão defumado e alcaparras extras.
Empurrei a porta do quarto e parei.
Papai estava sentado perto da janela jogando xadrez com a mamãe, realmente concentrado no tabuleiro. A mão dele estava firme quando moveu um bispo.
— Eleanor! — O rosto da mamãe se transformou de alegria. — Olha… ele está lúcido a manhã inteira. O doutor Morrison disse que o novo medicamento está funcionando.
Papai ergueu o olhar, os olhos claros. Claros de verdade. — Aí está a minha menina. Trouxe o café da manhã?
Minha garganta se fechou. — Salmão defumado. Alcaparras extras, do jeito que você gosta.
— Essa é a minha Eleanor. — Ele sorriu — o sorriso de verdade do meu pai. — Sempre se lembra.
Eu deveria ter sentido apenas alívio. Em vez disso, um peso frio se acomodou no meu peito. Porque isso significava um motivo a menos para ficar. Uma desculpa a menos.
— Senta, senta. — Mamãe deu tapinhas na cadeira ao lado dela. — Conta pra gente do jantar de aniversário. O Arthur disse que fez uma reserva especial.
A mentira me atingiu como um golpe físico. — Foi maravilhoso — ouvi a mim mesma dizer. — Muito atencioso.
—“Fico tão feliz.” Mamãe apertou minha mão. “Ele é um marido tão bom, Eleanor. Você tem muita sorte.”
Sorte. A palavra ecoou dentro do meu crânio.
Antes que eu pudesse responder, a porta se abriu.
Arthur entrou carregando café e doces do Sant Ambroeus, impecavelmente alinhado apesar de ter saído às três da manhã. Ele parou ao me ver, a surpresa tremeluzindo no rosto.
—Eleanor. Eu não sabia que você estaria aqui tão cedo.
—Eu poderia dizer o mesmo. —Mantive a voz leve. —Achei que você tinha reuniões o dia inteiro.
—Tenho. Só quis ver o Charles primeiro. —Ele pousou os doces, beijou a bochecha de Mamãe. —Madeline. Você está com boa aparência.
Eu o observei interpretar o genro dedicado, rindo das piadas de Papai, discutindo opções de tratamento com Mamãe. Era isso: a encenação — Arthur sendo charmoso e atencioso com todo mundo, menos comigo.
—Eleanor. —A voz de Papai me trouxe de volta. —Você está muito quieta. Tem certeza de que está se sentindo bem?
Os três estavam olhando para mim agora.
—Só preciso de um ar —eu disse, levantando de supetão. —O cheiro de hospital...
—Por que você e Arthur não vão tomar um café? —sugeriu Mamãe. —Seu pai precisa tomar o remédio daqui a pouco, de qualquer jeito.
Arthur já estava indo em direção à porta.
—Boa ideia. Vamos, Eleanor.
Eu não tinha como recusar com elegância.
A descida no elevador foi silenciosa. No segundo andar, Arthur pediu por nós dois —café preto para ele, cappuccino para mim— e me conduziu até uma mesa perto das janelas.
—Quero compensar você —ele disse. —Fiz reserva no Le Bernardin para hoje à noite. Sete horas.
Olhei para ele do outro lado da mesinha, esse estranho usando o rosto do meu marido, e não senti nada além de um vazio imenso.
—Não precisa.
—Eu insisto. —Ele estendeu a mão para pegar a minha. Eu a puxei. Os olhos dele se estreitaram um pouco. —Eleanor, o que foi?
TUDO, eu quis gritar.
—Não foi nada —eu disse, em vez disso. —Eu só estou cansada.
—Então deixa eu te levar para casa. Você pode descansar antes do jantar.
—Não. Tenho coisas para resolver.
—Que coisas? —Aquela ponta afiada por baixo da pergunta casual.
—Coisas pessoais. —Levantei, deixando o cappuccino intocado. —Eu devia voltar para os meus pais.
—Eleanor. —Ele segurou meu pulso. Não com força, mas firme. —Fala comigo.
Olhei para a mão dele, depois para o rosto. Preocupado. Confuso. Interpretando o marido inquieto com uma convicção perfeita.
—Eu estou bem —eu disse, me soltando. —Te vejo hoje à noite.
De volta ao quarto de Papai, Mamãe bastou olhar para o meu rosto e se levantou.
—Eleanor, você devia ir para casa descansar. O Arthur pode te levar.
—Na verdade —eu disse depressa—, eu preciso pegar uma coisa em Midtown. Vou de Uber.
—Que nada. —Arthur apareceu com as chaves do carro. —Eu te deixo lá.
—Sério, está tudo bem...
—Eleanor. —A voz de Mamãe tinha uma preocupação que eu não conseguia ignorar. —Deixe o Arthur te levar para casa.
Eu estava encurralada.
—Tudo bem. Obrigada.
Nos despedimos. No saguão, o Tesla de Arthur esperava na área VIP do estacionamento. Ele abriu a porta do passageiro com uma cortesia ensaiada.
Eu fiquei ali, encarando aquela porta aberta, e senti alguma coisa dentro de mim estalar.
—Na verdade —eu disse—, acabei de lembrar. Preciso pegar uma coisa em Midtown. Vai você.
O maxilar de Arthur se contraiu.
—Eu posso te levar até Midtown.
—Não, sério. Eu não sei quanto tempo vai demorar. —Eu já estava recuando, tirando o celular da bolsa. —Te vejo hoje à noite no restaurante.
—Eleanor...
—Sete horas —eu disse por cima do ombro. —Eu te encontro lá.
Chamei um táxi antes que ele pudesse responder.
—Para onde? —perguntou o motorista.
Abri o endereço que eu tinha decorado da pesquisa no navegador, feita de manhã.
—Midtown —eu disse, com a voz mais firme do que eu esperava. —Morrison & Associates, na Lexington Avenue.
Quando nos afastamos do Mount Sinai, eu finalmente olhei para trás. Arthur estava ao lado do Tesla, celular no ouvido, vendo meu táxi sumir no trânsito.
Que ele se pergunte. Que ele se preocupe.
Pela primeira vez, eu era a variável que ele não conseguia controlar.
