Capítulo 2

—Jack! Seu desgraçado, aparece aqui fora!

O urro brutal de Bill atravessou o vidro à prova de balas e ecoou pelo escritório. Pelas frestas das persianas, espiei lá fora, em direção à delegacia. Mais de trinta motoqueiros tatuados estavam reunidos em volta das Harleys, cada um brandindo facões ou pés de cabra.

Bill estava à frente, o rosto — marcado e cheio de cicatrizes por cigarro e álcool — estampado de selvageria. Lily se encolhia atrás dele, cobrindo a bochecha com queimadura de frio com a mão, os olhos tomados pelo terror.

—Entregue aqueles dois caminhões e pague as despesas médicas da Lily! Ou eu vou botar essa delegacia de merda abaixo hoje mesmo!

Bill agitou um machado de incêndio de forma ameaçadora no ar, fazendo gestos como se fosse esmagar tudo em pedaços. Os outros motoqueiros vaiaram junto, uivando como feras.

Mas eu reparei: nenhum deles ousava de fato se aproximar da entrada da delegacia.

Esses idiotas sabiam muito bem o que significava atacar um órgão do governo enquanto a ordem social ainda se mantinha. Eram só valentões de cidade pequena; por mais arrogantes que fossem, não teriam coragem de declarar guerra às forças da lei.

Peguei o rádio com uma risada fria:

—Todas as unidades, atenção: temos uns palhaços fazendo macaquice lá fora. Todo mundo ignora. Deixem que brinquem sozinhos.

—Cópia, xerife — a voz do policial Davis veio carregada de deboche. — Quer que a gente disperse eles?

—Não precisa. Eles não vão ficar pulando por muito tempo.

E, de fato, com as portas da delegacia lacradas e todos os policiais ignorando a existência deles, as ameaças de Bill pareceram pateticamente impotentes. Sob o sol escaldante, com a temperatura já batendo 35 °C, os motoqueiros de jaqueta de couro começaram a ficar inquietos.

—Chefe, assim não vai dar — um subordinado enxugou o suor e se aproximou de Bill, de lado. — A gente não vai atacar a delegacia de verdade… vai?

A expressão de Bill se deformou, feia. Ele sabia muito bem que aquilo era só encenação. Pela lei vigente, agredir uma delegacia era suicídio.

—Jack, é melhor você tomar cuidado! Isso não acabou! — Bill berrou mais algumas ameaças antes de recuar, levando o bando com ele.

O ronco dos motores das Harleys foi diminuindo aos poucos, e o silêncio voltou à entrada da delegacia.

Afastei-me da janela, descartando completamente aquela farsa. Comparados àqueles bobos saltitantes, eu tinha assuntos mais importantes para tratar.

Caminhei rápido até o cofre no canto do meu escritório, digitei o código e peguei o cartão da conta financeira da delegacia. Quinhentos mil dólares estavam parados ali — toda a grana suja acumulada ao longo dos anos, apreendida e somada a receitas de multas.

Na minha vida passada, aquele idiota santo nunca tinha encostado em um centavo, entregando tudo, obediente, ao governo estadual.

Desta vez, esse dinheiro viraria meu fundo inicial para o apocalipse.

Disquei para o Velho Mike, o maior fornecedor de armas do nosso estado.

—Mike, preciso fazer um pedido.

—Xerife Jack? Suprimentos militares tão cedo? O que está acontecendo? — a voz rouca do Velho Mike soou do outro lado.

—Treinamento estadual antiterror. Preciso repor o estoque de munição — inventei uma desculpa na hora. — Quero quinhentas munições calibre 12, mil munições de pistola calibre .45, cinquenta quilos de TNT e dois conjuntos de colete à prova de balas.

—Sem problema, mas os explosivos precisam de autorização especial—

—Compra emergencial, canal verde. Dinheiro não é problema.

Depois de desligar, liguei para o maior fornecedor de alimentos da cidade.

—Quero fazer um pedido de carne premium e álcool. Vinte e cinco quilos de tomahawk, cinquenta quilos de churrasco texano, vinte caixas de cerveja Corona. Preciso disso hoje à noite.

—Tudo isso? O xerife Jack vai dar uma festa?

—Reunião particular. E lembre-se: só da melhor qualidade.

Com as duas ligações feitas, um sorriso frio brincou nos meus lábios. Aqueles animais queriam comer a minha carne na vida passada? Desta vez eu faria eles me verem devorando tomahawks e cerveja estupidamente gelada no meu freezer de temperatura constante a -17 °C, enquanto eles roíam casca de árvore num inferno de 71 °C.

Abri a porta do porão e comecei a descer.

O porão da delegacia tinha sido, originalmente, um abrigo nuclear construído na Guerra Fria, com paredes de concreto armado com aço, três metros de espessura, capazes de resistir às ondas de choque de uma explosão nuclear. Mais tarde, foi convertido em arsenal, abrigando várias armas pesadas e munições.

Mas agora, ele viraria meu freezer do apocalipse.

Fiquei no centro do porão, respirei fundo e então liberei meu “Campo de Zero Absoluto” com potência máxima.

Uma névoa azul-gelo jorrou das duas mãos, preenchendo instantaneamente todo o espaço subterrâneo. Os números no termômetro despencaram de forma descontrolada: 68°F, 59°F, 50°F, 41°F... até enfim estabilizarem na temperatura perfeita de freezer — 0°F.

Uma camada espessa de gelo cobriu as paredes; a umidade do ar se condensou em minúsculos cristais que cintilavam na luz fria. Soltei o ar e vi um sopro de bruma branca, assentindo com satisfação.

Aquilo seria a minha Arca de Noé. No inferno humano de 160°F, eu possuiria um frio absoluto de nível ártico.

O telefone tocou, interrompendo meus pensamentos. Voltei ao nível do chão e atendi.

— Xerife, a mercadoria tá pronta. Quando a gente entrega? — era a voz do Velho Mike.

— Depois das dez da noite. Entra pela porta dos fundos. E lembra: sem alarde.

— Entendido.

Nas horas seguintes, fiquei tranquilamente no meu quarto com ar-condicionado, tomando uma Coca bem gelada enquanto planejava estratégias de armazenamento. As lembranças da minha vida anterior me diziam que, quando a temperatura passasse de 122°F, todo equipamento comum de refrigeração falharia — só a minha habilidade conseguiria manter o frio.

Até lá, meu freezer subterrâneo viraria o único oásis de sobrevivência num raio de cem milhas.

Às dez da noite, o caminhão do Velho Mike entrou silenciosamente pela entrada traseira da delegacia. Caixas de munição e explosivos foram levadas para o porão e, logo em seguida, o fornecedor de alimentos entregou carne bovina premium e cerveja, colocando tudo nas posições designadas.

De pé no centro do meu freezer, olhando para o depósito abarrotado de suprimentos, senti uma segurança sem precedentes. Na minha vida anterior, eu dei tudo pelo povo da cidade. Desta vez, eu viveria por mim.

Eu ainda estava fazendo o inventário quando o telefone tocou de repente.

Identificador de chamada: Bill.

Atendi. A voz de Bill veio forçando um tom casual:

— Ei, Jack, meu camarada, as coisas esquentaram um pouco hoje. Você sabe como é — a Lily se machucou e os caras ficaram putos...

— E daí? — respondi, frio.

— E daí que eu acho que a gente devia conversar e resolver isso. Sobre aquela remessa... talvez exista outro jeito de lidar com isso?

Era uma sondagem. O desgraçado queria medir a minha postura.

— Que jeito?

— Olha, aqueles medicamentos são importantes pra gente. Se o preço for o certo...

— Bill, aquilo é prova. Ninguém vai levar.

Silêncio do outro lado por alguns segundos, então o tom de Bill virou suplicante:

— Jack, eu peço desculpas pelo que aconteceu hoje. A Lily também — ela não devia ter te tratado daquele jeito. A gente cresceu na mesma cidade. Não precisa deixar isso tão feio, né?

Esse cara conseguia mesmo pedir desculpas? Parecia que aquela remessa era muito importante pra ele. Mas quanto mais importante fosse pra ele, menos eu abriria mão — não por um grande motivo, e sim por pura vingança pelo mal que ele me causou.

— Desculpas não mudam nada, Bill.

— Então... o que você quer? Dinheiro? Eu te pago. Ou outra coisa...

— Eu não quero nada. A mercadoria está no depósito de evidências. Se você quer, siga os canais legais.

Mais um silêncio, mais longo desta vez. Quando Bill falou de novo, a voz já vinha tremendo:

— Jack... meu camarada... aquela remessa é muito importante. É... ela pertence ao Cartel Mexicano Carlos. Eu sou só um intermediário, um mensageiro. Se eu não entregar, aqueles mexicanos vão matar a minha família inteira!

Minhas pupilas se contraíram. O desgraçado finalmente estava colocando as cartas na mesa.

O Cartel Mexicano Carlos — pelas lembranças da minha vida anterior, a organização de drogas mais brutal da fronteira. Aqueles dois caminhões de fármacos de grau militar eram deles.

— Jack, por favor! Eu vou morrer de verdade! Eles não negociam — só querem resultado! Por favor, abre uma exceção, eu aceito qualquer coisa! Eu posso até devolver a Lily pra você!

A súplica virou choradeira. Esse cachorro louco tinha sido encurralado.

— Heh. Minha resposta é: de jeito nenhum.

Uma respiração pesada veio pelo telefone. Depois de alguns segundos, a voz de Bill mudou completamente, carregada de desespero e maldade:

— Jack... seu desgraçado frio do caralho! Tá bom, muito bem! Já que você não vai me dar uma saída, não me culpe! Eu vou dizer pro Carlos que foi você que apreendeu a mercadoria deles! Aí aqueles mexicanos filhos da puta não vão vir só atrás de mim! Eles vão vir matar essa sua bunda de policial! Te espero no inferno!

Um cachorro acuado pula muro.

— Tanto faz.

Desliguei, sem emoção.

Bill tinha enlouquecido de vez. Logo os traficantes mexicanos também bateriam à porta.

Mas eu não estava nem um pouco em pânico. Quando o calor extremo chegasse, que eles sobrevivessem primeiro às estradas de asfalto em brasa — depois a gente conversa sobre virem me procurar.

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