Capítulo 3
Cinco dias depois.
O inferno do calor extremo finalmente tinha chegado.
Nesses cinco dias, eu vinha me preparando para a guerra que se aproximava. O congelador subterrâneo foi fortificado até virar uma fortaleza inexpugnável — usei o TNT do posto para montar um campo minado na entrada do túnel, redes elétricas de alta voltagem cobriam todas as rotas possíveis de invasão, e armadilhas com combustível estavam espalhadas pelos gargalos principais. Qualquer inimigo que tentasse entrar à força provaria o sabor do fogo do inferno.
Enquanto isso, movi os dois caminhões de medicamentos contrabandeados para a câmara de armazenamento mais profunda, protegendo-os com camadas de grossas placas de aço e cadeados com combinação. No apocalipse do calor extremo, esses remédios de padrão militar eram mais valiosos do que ouro.
Através do vidro à prova de balas, observei a cidade inteira de Blackwater se transformar num forno dentro das ondas de calor tremeluzentes.
Dia um: quando a temperatura bateu 104°F, os idosos da cidade começaram a cair, vítimas de insolação.
Dia dois: o calor de 113°F amoleceu o asfalto, pneus de carros explodindo um após o outro pelas ruas.
Dia três: a 118°F, o primeiro ar-condicionado explodiu, seguido do segundo, do terceiro...
Dia quatro: toda a rede elétrica começou a colapsar parcialmente, e o equipamento de resfriamento de cada casa falhou ao mesmo tempo.
Hoje, o termômetro marcava 122°F. Em temperaturas tão extremas, qualquer equipamento comum de resfriamento era inútil.
Exceto a minha habilidade.
Eu segurava uma cerveja gelada, sentado com calma no meu escritório constante a 64°F. No congelador subterrâneo, bifes tomahawk exalavam aromas irresistíveis; cervejas Corona, geladas no ponto. Esse contraste definitivo entre céu e inferno fazia cada respiração ser preenchida pelo êxtase da vingança.
Nesses cinco dias, as ligações do Bill não tinham parado.
No dia um, ele ainda bancava o durão: “Jack, última chance!”
No dia dois, virou súplica: “Por favor, cara! Aqueles mexicanos já estão atrás de mim!”
No dia três, foi um berro rouco: “Seu desgraçado! Eu vou te matar!”
No dia quatro, a voz dele veio com lágrimas: “Jack... eu estava errado... eu estava muito errado...”
A última ligação, de manhã, tinha só sussurros desesperados: “Jack... eu vou morrer hoje... mas não vou morrer sozinho...”
Lá fora, os moradores já vagavam pelas ruas com facas e machados, a pele cozida e vermelha, os olhos enlouquecidos, parecendo exatamente feras devoradoras de gente.
A ordem social estava à beira do colapso.
RRRRRR—
O ronco de motores interrompeu meus pensamentos. Apoiei a cerveja e espreitei pelas persianas.
Mais de trinta picapes pesadas e motos Harley rugiram desde a distância, com motoqueiros em cada uma empunhando AK-47; cintos de munição brilhavam metálicos sob o sol.
Bill estava na caçamba da primeira picape, o rosto cozido pelo calor como o de uma lagosta bem passada, mas os olhos queimavam de loucura desesperada.
“Jack! Mesmo que eu morra hoje, vou te arrastar pro inferno comigo!”
CRASH!
A picape pesada atravessou direto as barreiras externas do posto, espalhando destroços para todo lado. Trinta capangas totalmente armados saltaram dos veículos, cercando o posto como cães raivosos.
Soltei uma risada fria e caminhei até o armário de armas.
O eu de antes teria tentado conversar, tentado argumentar. Mas nesta vida eu só acreditava em armas de fogo e explosivos.
Peguei a espingarda Remington 870 e carreguei, com prática, cartuchos calibre 12. Os sons metálicos ecoaram especialmente nítidos no silêncio do escritório.
Instintos de combate do Corpo de Fuzileiros Navais despertaram no meu sangue.
Rat-tat-tat-tat—
A fúria das AK-47 explodiu de repente; as balas martelaram o vidro à prova de balas como granizo. Trincas em teia de aranha cobriram a superfície na mesma hora, mas o material temperado de padrão militar continuou impenetrável.
“Entrem! As drogas estão aí dentro!”, Bill gritou, rouco.
Vários motoqueiros avançaram contra a entrada principal do posto com AKs, despejando tiros nos trincos da porta. Em meio a faíscas voando, a porta de aço pesado começou a deformar.
Hora de dar uma lição nesses animais.
Puxei o ar e liberei meu “Campo de Zero Absoluto” com força total.
Uma geada azulada irrompeu dos meus poros, formando instantaneamente uma armadura grossa de gelo ao redor do meu corpo. O frio me envolveu como uma coisa viva; a temperatura despencou a ponto de congelar balas no ar.
Esse era o estado máximo da minha habilidade — proteção do corpo de gelo. Sob essa defesa, até balas de AK-47 congelavam e perdiam a eficácia na hora.
Levei a Remington até o segundo andar. Ali ficavam posições de atirador especializadas — a vantagem do terreno elevado combinada com poder de fogo pesado criava uma máquina de matar perfeita.
Abri a abertura de tiro, o cano negro apontado para os capangas lá embaixo.
O primeiro motoqueiro a alcançar a porta tinha acabado de erguer o pé de cabra quando puxei o gatilho.
BOOM!
O cartucho calibre 12 liberou um poder devastador à queima-roupa.
A cabeça inteira do bandido explodiu na mesma hora, massa vermelha e branca espirrando para todo lado. O cadáver sem cabeça ainda cambaleou mais dois passos por causa do impulso antes de desabar pesadamente.
— Porra! Tem um atirador!
O medo começou a se espalhar pela multidão, enquanto vários motoqueiros procuravam cobertura em desespero.
Mas, naquele pátio aberto da delegacia, não havia proteção nenhuma.
Recarreguei depressa, mirando no segundo alvo.
BOOM!
O peito de outro bandido foi aberto por um buraco sangrento do tamanho de uma tigela, e o corpo inteiro dele voou três metros para trás, indo se chocar contra uma caminhonete e deixando um rastro de sangue.
— Ele está no segundo andar! Fogo concentrado! Fogo concentrado! — Bill gritou em comando, em pânico, enquanto os tiros de AK recomeçavam.
As balas atingiram as paredes de concreto reforçado, soltando faíscas, mas outras vieram direto na minha direção.
Só que, ao tocarem o escudo de gelo ao redor do meu corpo, congelavam instantaneamente em blocos de gelo, perdiam o impulso e batiam no chão com estrondo.
Continuei colhendo a vida daqueles animais.
BOOM! BOOM! BOOM!
A espingarda se tornou a foice da morte em minhas mãos, e cada apertar de gatilho levava uma vida.
A carnificina fez os motoqueiros restantes perderem a coragem, e seus ataques ficaram caóticos e desorganizados.
— Merda! Esse tira é maluco! As balas não atravessam ele! — gritou um subordinado, tremendo.
— Não tenham medo! Ele é só um homem! — Bill rugiu, histérico. — Avancem! Flanqueiem pelos lados!
Um motoqueiro esperto aproveitou a brecha enquanto eu recarregava para contornar silenciosamente até a janela lateral da delegacia.
Ele subiu com cuidado no parapeito, tentando me emboscar por trás.
Eu nem me virei.
Meus instintos de campo de batalha do Corpo de Fuzileiros Navais me alertaram para a ameaça atrás de mim. Ergui a espingarda para trás, confiando em anos de memória muscular para dar um tiro às cegas.
BOOM!
O cartucho atravessou a janela e acertou em cheio a cintura do emboscador.
O impacto brutal o rasgou ao meio; a parte de cima e a de baixo do corpo se separaram enquanto ele caía do segundo andar, com as vísceras se espalhando por toda parte.
Os gritos cessaram abruptamente.
Os motoqueiros restantes desmoronaram por completo. O que antes era um ataque arrogante virou um massacre unilateral.
Eles começaram a fugir em pânico; a taxa de baixas destruiu por completo a vontade de lutar deles.
Bill se escondeu atrás de uma caminhonete, vendo seus homens tombarem um a um em poças de sangue, com um desespero enlouquecido faiscando nos olhos.
Num ato de desespero, ele puxou uma granada, arrancou o pino e a arremessou em direção ao saguão do primeiro andar da delegacia.
BOOM—!
A explosão massiva estilhaçou todos os vidros do primeiro andar, e a onda de choque atravessou o piso, abrindo uma enorme brecha na parede de vidro blindado voltada para a rua.
Quando a fumaça se dissipou, surgiu no chão um buraco do tamanho de uma tigela. Provavelmente um duto de serviço da época da construção, depois tapado às pressas com papelão e cimento — incapaz de resistir à explosão como o restante da estrutura.
Um ar gelado de arrepiar os ossos jorrou do buraco.
Droga! O porão tinha sido exposto!
Os olhos de Bill se arregalaram. Pela fenda aberta pela explosão, ele viu claramente a cena do porão: caixas de carne bovina premium, montanhas de medicamentos e aquelas cervejas que emanavam gelo.
Naquele inferno de 50°C, existia de verdade um paraíso de -18°C ali!
— Isso... isso é impossível... — murmurou Bill, com os olhos cheios de choque e ganância. — Como você tem tantos suprimentos? Como está tão frio aqui?
Desci correndo para matá-lo, mas Bill já tinha rastejado para fora pela abertura na parede de vidro estourada.
— Jack! — Ele arrastava a perna ferida pela explosão, fugindo enquanto olhava para trás com um sorriso sinistro. — Você acha que matar meus homens acaba com isso? Eu vi! Eu vi tudo! As coisas no porão! Aquele ar frio!
Ele puxou o celular às pressas, tropeçando em direção ao interior da cidade enquanto gritava:
— A cidade inteira vai saber desse segredo! Todo mundo vai vir atrás da sua vida! Nesse inferno de 50°C, você está monopolizando o paraíso só para você!
Ergui a espingarda para matá-lo, mas Bill já tinha desaparecido nas ondas de calor tremeluzentes.
Minutos depois, meu celular começou a tocar sem parar.
Primeira ligação: o dono da padaria da cidade.
— Xerife Jack? Disseram que aí tem ar frio e comida?
Segunda ligação: um funcionário do posto de gasolina.
— Xerife, por favor, meu filho está morrendo de calor...
Terceira ligação: Lily.
— Jack... meu querido ex-noivo... Bill me contou tudo...
Minha expressão se fechou.
Logo, toda Blackwater saberia que o porão da delegacia escondia um paraíso congelado.
Sob a tortura de 50°C, aqueles civis desesperados seriam ainda mais insanos do que os motoqueiros.
Porque eles não tinham mais nada a perder.
