Capítulo 1

Ponto de vista de Ellie

Era para ser uma tarde comum de terça-feira.

Eu e Lucas estávamos voltando para casa depois da escola, pegando nosso atalho de sempre pelo beco atrás da Ferragens Miller. O sol de outono lançava sombras compridas sobre o asfalto rachado, e a gente discutia se abacaxi tinha lugar na pizza — um debate que mantínhamos desde o ensino fundamental.

— Só estou dizendo: fruta com queijo é um crime contra a natureza — insistiu Lucas, ajeitando a alça da mochila.

— Disse o cara que come sanduíche de coelho — rebati, sorrindo.

— Isso é diferente. Isso é tradição.

— Isso é estranho.

Ele ia responder quando a gente ouviu — um grito agudo, seguido de uma risada cruel ecoando do fundo do beco.

Nós dois congelamos.

— Por favor, só me deixa em paz — implorou uma voz de garota. — Eu não tenho dinheiro nenhum.

Os olhos de Lucas encontraram os meus. Naquele segundo, vi o maxilar dele se contrair, as pupilas se dilatarem levemente. O lobo dentro dele reagindo ao sofrimento, à injustiça. Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ele já estava se movendo.

— Fica aqui — ele resmungou.

— Nem pensar — sussurrei de volta, indo logo atrás.

Viramos a esquina e encontramos três caras cercando uma figurinha pequena, prensada contra a parede de tijolos. Samantha Grey. A mochila dela estava rasgada no chão, com o conteúdo espalhado pelo asfalto sujo.

— Ei! — a voz de Lucas cortou o ar como um chicote. — Caiam fora.

O mais alto — um cara de cabelo raspado e uma tatuagem no pescoço — virou devagar. — Ou o quê, bonitão?

— Ou eu faço vocês caírem fora.

Eu já tinha visto Lucas brigar antes. Nas luas cheias, a gente treinava nas nossas formas de lobo, testando a força um do outro. Mas eu nunca tinha visto ele lutar como humano, não assim. Ele se moveu com uma fúria controlada, acertando um soco seco no maxilar do Raspadinho antes mesmo de o cara perceber o que estava acontecendo.

Os outros dois avançaram ao mesmo tempo.

— Lucas! — gritei, correndo para a frente.

Um deles — um cara atarracado de cabeça raspada — agarrou Lucas por trás. O terceiro, magricela e com cabelo engordurado, golpeou na direção do rosto de Lucas. Eu não pensei. Só me mexi, me jogando entre eles.

Meu ombro bateu no peito do Cabelo Engordurado, tirando ele do equilíbrio. Por um instante, achei que a gente tinha o controle da situação.

Então o Atarracado me empurrou com força.

Eu cambaleei para trás. Minha coluna bateu em algo sólido e implacável. O som de vidro estilhaçando encheu meus ouvidos antes de a dor chegar — aguda, ardida, se espalhando pelas minhas costas como fogo. Eu escorreguei pela parede de tijolos, sentindo umidade atravessar minha camisa.

— Ellie! — a voz de Lucas soou distante, abafada pelo zumbido nos meus ouvidos.

Com a visão embaçada, vi ele se soltar do aperto do Atarracado. O que aconteceu em seguida foi brutal e eficiente. Lucas se moveu como um predador, cada golpe calculado, cada movimento preciso. Em trinta segundos, os três estavam no chão, gemendo.

— Não voltem nunca mais aqui — rosnou Lucas para eles. — E não olhem na direção dela nunca mais.

Eles se levantaram se atrapalhando e saíram correndo.

Eu tentei ficar de pé, apoiando a mão na parede para me sustentar. Minha palma voltou vermelha. Atrás de mim, os restos de uma garrafa de cerveja quebrada brilhavam no asfalto, pedaços de vidro marrom misturados com meu sangue.

— Ai, meu Deus, ai, meu Deus — a voz de Samantha tremeu de onde ela ainda estava encostada na parede, lágrimas escorrendo pelo rosto. — A culpa é toda minha. Me desculpa. Desculpa, desculpa, desculpa.

Lucas correu até ela. — Você se machucou? Eles encostaram em você?

— N-não, eu tô bem, mas ela… — Samantha apontou para mim com a mão tremendo.

— Eu tô bem — eu disse, mesmo com minhas costas parecendo estar em chamas. — Só uns cortes.

Lucas finalmente olhou para mim. Seus olhos se arregalaram quando viu o sangue na minha mão, na minha camisa. Por um momento, achei que ele fosse vir até mim, ver como eu estava, como sempre fazia quando a gente se machucava durante o treino.

Em vez disso, ele se virou de volta para Samantha.

— Precisamos ver isso aí — ele disse com doçura, passando o braço pelos ombros dela. — Você está em choque. O hospital...

— Lucas — interrompi, tentando manter a voz firme. — Eu é que estou sangrando.

— Você vai ficar bem — ele disse depressa, sem encarar meus olhos direito. — Você é mais durona do que parece. Mas a Samantha precisa de ajuda. Ela está apavorada. Ela precisa de alguém agora, e você... você sabe... — Ele deixou a frase no ar, inacabada.

Você sabe que vai se curar.

Ele não disse. Nem precisava.

Eu o vi conduzir Samantha pelo beco, o rosto dela enterrado no peito dele, a jaqueta do time dele jogada sobre os ombros dela. Ela olhou para trás uma vez, os olhos encontrando os meus por cima do ombro de Lucas.

Sem lágrimas no rosto. Só aquele mesmo cálculo frio que eu já tinha visto antes.

E então eles se foram.

Fiquei ali sozinha no beco, cercada de vidro quebrado e sangue — o meu e o deles. Devagar, com cuidado, levei a mão às costas e toquei os ferimentos. Eles já estavam se fechando, a pele se recompondo, costurando-se de volta com aquela sensação familiar de formigamento.

Certo. Porque eu sou uma lobisomem. Eu me curo.

Afastei a mão e encarei o sangue nos meus dedos. Era vermelho, humano, totalmente comum. Não havia nada de especial nele. Nada que valesse a pena ficar ali.

Ela precisa de alguém agora, e você... você sabe...

Eu ri. Saiu amargo e cortante, ecoando nas paredes de tijolo.

Claro. Por que o Lucas se preocuparia comigo? Eu não sou frágil. Eu não sou humana. Eu não preciso de proteção nem de consolo nem de alguém me abraçando quando eu estou com medo. Eu sou uma lobisomem. Eu fui feita para aguentar pancada e seguir em frente. Feita para me curar e seguir adiante. Feita para ser forte para que os outros não precisem ser.

Feita para ser deixada para trás num beco, ao que parece.

Peguei minha mochila e comecei a caminhar para casa, ignorando o jeito como a camisa grudava nas minhas costas, molhada e incômoda. Quando eu chegasse em casa, os ferimentos já estariam completamente curados. Amanhã, não haveria nem cicatrizes.

Exatamente como o Lucas provavelmente esperava.


No dia seguinte, eu os vi no corredor entre uma aula e outra.

Lucas carregava os livros de Samantha, rindo de alguma coisa que ela tinha dito. Quando me viu, acenou, mas não parou para conversar — uma novidade na nossa amizade de quinze anos.

— Ele está levando ela até a sala agora — Emma Brown disse, surgindo ao meu lado. Minha melhor amiga desde o primeiro ano tinha um talento para reparar nas coisas. — Tipo, em toda aula...

— Tenho certeza de que ele só está sendo gentil — eu disse, mais para convencer a mim mesma do que a Emma. — Garantindo que ela se sinta segura depois do que aconteceu.

Os olhos de Emma se estreitaram. — Ellie, quem se machucou foi você. Ele ao menos sabe se você está bem?

Eu não respondi. A verdade era que Lucas não tinha me mandado mensagem ontem à noite. Não tinha ligado. Não tinha perguntado se meus ferimentos tinham cicatrizado direito ou se eu precisava de alguma coisa. Pela primeira vez em quinze anos, ele tinha passado uma noite inteira sem dar sinal.

— Ele sabe que eu estou bem — eu disse, por fim. — Eu sempre estou.

Emma me lançou um olhar, mas não insistiu. — Se você diz. Quer almoçar comigo mais tarde?

Assenti, ainda com os olhos seguindo Lucas e Samantha pelo corredor. Apesar do meu desconforto, eu confiava no vínculo que Lucas e eu compartilhávamos. A gente cresceu junto, se transformou sob as mesmas luas, dividiu segredos que nenhum humano entenderia. Um único ato de heroísmo não podia mudar isso.

Não é?

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