Capítulo 2
Ponto de vista de Ellie
Com o jogo anual de basquete da rivalidade Mapleton vs. Westridge caindo na noite de lua cheia, a escola inteira estava em polvorosa. Não era um campeonato oficial, mas era o maior jogo do ano. O ginásio estaria lotado, e todo mundo estaria assistindo.
Para a maioria das pessoas, a lua cheia só significava uma noite bem clara. Para mim e para mais alguns, significava outra coisa completamente diferente. Nós éramos lobisomens, vivendo escondidos entre humanos. A maioria de nós despertava o lado lobo depois de fazer quinze anos e, desde então, cada lua cheia era um teste de autocontrole.
Se a gente não conseguisse, corríamos o risco de expor tudo. Alguns aprendiam a lidar com a transformação com treino, mas em noites como aquela, quando as emoções ficavam à flor da pele, a gente precisava de uma ajuda extra — como a mistura especial de ervas que chamávamos de “chá da lua”. Ela amortecia o lobo por dentro só o suficiente para nos manter seguros.
Hoje à noite, como líder de torcida principal de Mapleton, eu estaria à beira da quadra. Lucas, nosso ala estrela, estaria no centro da ação. Ele era forte, rápido e bom demais para um jogador normal do ensino médio — graças ao nosso segredo em comum. A última coisa de que a gente precisava era ele perder o controle e começar a criar pelo na frente de um ginásio lotado.
Esperei perto da entrada do ginásio antes do aquecimento, segurando duas garrafas de bebida esportiva quase idênticas. Uma tinha o chá da lua especial, disfarçado de Gatorade azul, e a outra era só uma bebida esportiva comum, para disfarçar.
Emma me cutucou. “Fica esperta. Vem problema aí.”
Segui o olhar dela e vi Samantha desfilando na nossa direção, usando a jaqueta do time do Lucas como se fosse um troféu. Ela nem se deu ao trabalho de esconder o sorriso de deboche.
Ela parou bem na minha frente, os olhos indo direto para as garrafas nas minhas mãos. “Isso é pro Lucas?”, perguntou, com uma voz doce, mas afiada. “Ele comentou que estava com sede.”
Tentei manter o rosto calmo. “É. Eu sempre trago alguma coisa antes dos jogos. Ajuda na energia dele.”
Os olhos de Samantha se estreitaram. Sem aviso, ela arrancou da minha mão justamente a garrafa com o chá da lua.
“Ei—!” Eu estendi a mão para pegar de volta, mas ela se virou, abriu a tampa e despejou a maior parte do conteúdo no chão. O cheiro de ervas tomou o ar por um segundo, antes de sumir.
“Ops”, ela disse, sem nem fingir que estava arrependida. Um sorriso zombeteiro puxou seus lábios enquanto ela me devolvia a garrafa quase vazia.
Eu encarei Samantha, com o coração disparado. Tinha talvez um terço sobrando — mal dava, mas era melhor do que nada. “Qual é o seu problema?”, rosnei, mal conseguindo manter a voz baixa.
Samantha só deu de ombros. “O Lucas não precisa dessas bebidas esquisitas suas. Eu já trouxe água pra ele.” Ela levantou uma garrafa comum, acenando na minha cara. “Ele gosta das coisas simples.”
Emma deu um passo à frente, o rosto vermelho de raiva. “Você fez isso de propósito! Qual é a sua?”
Samantha revirou os olhos. “Por que você é tão obcecada por ele, Ellie? Ele não é seu namorado.”
Antes que eu pudesse responder, Lucas se aproximou, já com o uniforme azul e prata. Ele olhou de uma para outra, franzindo a testa.
“O que tá acontecendo?”, perguntou, com a voz dura.
Samantha imediatamente assumiu uma expressão indefesa. “Eu só estava tentando te dar sua água, e a Ellie surtou comigo. Ela quase derrubou a bebida esquisita dela nos meus sapatos.”
“Não foi—”, eu comecei, mas Lucas me cortou.
“Sério, Ellie?” A voz dele estava fria. “Por que você não consegue simplesmente deixar ela em paz? Nem tudo gira em torno de você.”
Senti meu rosto queimar. “Lucas, você precisa disso”, sussurrei, tentando fazer ele entender. “É importante. Pra hoje à noite.”
Ele me lançou um olhar fulminante. “Eu disse que eu tô bem. Eu não preciso das suas bebidas especiais. Para de agir como se você fosse melhor do que todo mundo.”
As palavras acertaram como um tapa. Fiquei paralisada, agarrando a garrafa arruinada na mão. Ao nosso redor, as pessoas cochichavam. Pesquei trechos do que diziam — minha audição aguçada captando cada ferroada.
“…não eram melhores amigos pra sempre?”
“…ele acabou de humilhar ela na frente de todo mundo…”
“…talvez ele goste da garota nova agora…”
Thalia, a loba dentro de mim, se eriçou com a humilhação. Ele nos fez parecer fracas. Na frente da escola inteira.
Emma se aproximou, fuzilando Lucas com o olhar. “Uau. Que bonito, Lucas.”
Mas ele já tinha virado as costas, passando o braço em volta de Samantha enquanto os dois voltavam em direção ao time. Samantha me lançou um olhar presunçoso por cima do ombro, a vitória estampada.
Eu me obriguei a respirar, segurando as lágrimas. Eu não podia desabar agora. Tinha olhos demais em mim.
Fomos para a lateral, ajeitando nossos pompons. O ginásio estava lotado de azul e prata, as cores de Mapleton, em choque com o vermelho e dourado de Westridge. O ar estava pesado de suor, pipoca e nervosismo.
Emma se inclinou para perto. “Não acredito nele. Quinze anos de amizade, e ele fica do lado dela?”
Dei de ombros, tentando soar calma. “Tá tudo bem. Ele está sob muita pressão.” Eu não tinha coragem de dizer mais. Emma não sabia toda a verdade — que Lucas e eu éramos lobisomens, que crescemos escondendo o que éramos, aprendendo a controlar a loba por dentro. Que a lua cheia deixava tudo mais difícil.
Meu olhar foi até Lucas. Ele estava se aquecendo, mas seus movimentos eram duros, sem a fluidez de sempre. Ele não parava de olhar para Samantha na arquibancada, que agora vestia o moletom dele e sorria como se tivesse ganhado um troféu. Thalia rosnou de novo.
“Ellie!” Emma me cutucou. “Não olha agora, mas o ala-armador de Westridge tá encarando você total.”
Segui o olhar dela. Um jogador alto de vermelho, número 23, estava nos observando. Ele desviou rápido quando nossos olhos se encontraram, mas eu vi um esboço de sorriso.
“Quem é?” perguntei, tentando me concentrar em alguma coisa — qualquer coisa — que não fosse aquilo.
Os olhos de Emma se arregalaram. “É o Aiden Harris. O melhor jogador deles! E dizem que ele é super gente boa.”
Dei de ombros. Astros do basquete não me impressionavam. Eu tinha problemas maiores — como garantir que Lucas não perdesse o controle hoje à noite. Sem o chá de lua, ele estava por conta própria. Se ficasse com raiva ou se se machucasse em quadra, o lobo podia se soltar. Um erro, e nosso segredo viraria público.
Os times liberaram a quadra para os preparativos finais. Fui até o isopor, pegando garrafas de água para as líderes de torcida, tentando acalmar meus nervos. Eu não conseguia parar de pensar na bebida estragada na minha bolsa e no quanto dependia de Lucas continuar no controle.
Uma sombra caiu sobre mim. Levantei os olhos e vi o número 23 — Aiden Harris — parado ali.
“Oi”, ele disse. De perto, era ainda mais alto, com olhos penetrantes e uma energia calma e firme. “Eu vi o que aconteceu mais cedo. Tem gente que não sabe valorizar boas intenções.”
Pisquei, pega de surpresa. “Ah. Obrigada. É… tanto faz.”
Ele sorriu, tranquilo e sincero. “Se um dia você quiser dividir uma dessas bebidas especiais, eu topo experimentar. Talvez depois do jogo?”
Hesitei, mas a gentileza dele ajudou a derreter um pouco da minha raiva. Entreguei a ele uma das bebidas esportivas comuns. “Boa sorte hoje à noite. Só não muita sorte.”
Ele riu. “Justo. Te vejo depois?”
Assenti, e ele correu de volta para o time dele.
Do outro lado da quadra, senti os olhos de Lucas queimando em nós. Quando olhei na direção dele, a expressão estava carregada, como um temporal, o maxilar travado. Ao lado dele, o técnico Bennett dava instruções de última hora, mas Lucas não estava ouvindo. A atenção dele estava presa em Aiden e em mim.
