Capítulo 4
Ponto de vista de Ellie
Lucas se encolheu sobre si mesmo, o corpo se contorcendo enquanto os ossos estalavam e se remodelavam. A pele ondulou quando um pelo escuro irrompeu, e o rosto se alongou, virando um focinho. A transformação nunca era bonita — nisso Hollywood acertava, pelo menos. As roupas se rasgaram nas costuras conforme o corpo dele se expandia, os músculos ganhando volume sob a nova pelagem.
Eu recuei, dando espaço, enquanto as etapas finais da mudança se firmavam. Em questão de minutos, onde Lucas estivera, agora havia um lobo grande, de pelagem preta como meia-noite e olhos âmbar brilhantes. Ele se sacudiu, se ajustando à outra forma.
Enquanto ele andava em círculos, se acostumando de novo com quatro patas, eu tirei o celular do bolso e disquei.
— Caroline? Aqui é a Ellie — eu disse quando a mãe do Lucas atendeu. — Eu tive que tirar o Lucas do jogo. Ele estava prestes a se transformar na frente de todo mundo.
— Meu Deus — ela soltou, sem ar. — Onde vocês estão agora?
— Na mata da Pine Trail, mais ou menos meia milha depois da entrada leste do campus. Ele já terminou de se transformar. — Observei enquanto o Lucas-lobo farejava o ar, as orelhas tremendo com o som da minha voz. — Escuta, eu disse ao treinador Bennett que você ligou porque foi levada às pressas pro hospital. Se ele te ligar…
— Eu vou dizer que tive uma dor no peito, mas que agora estou bem — ela completou. — Essa não é minha primeira emergência de fachada, Ellie.
— Obrigada. E… — eu hesitei, debatendo se mencionava Samantha. Thalia queria que eu contasse tudo para Caroline — sobre a garota humana, sobre Lucas ter rejeitado o chá da lua, sobre a distância crescente entre nós. Mas alguma coisa me fez recuar. Apesar de tudo, eu não conseguia me obrigar a traí-lo desse jeito.
— E o quê? — Caroline insistiu.
— Nada. Só… ele já está completamente transformado, então se prepare quando chegar aqui.
Houve uma pausa, e então o som de outro telefone tocando ao fundo.
— Essa é minha outra linha — é o número da escola. Provavelmente o treinador Bennett. Preciso atender.
— Claro — respondi. — Eu fico com ele até você chegar.
— Vinte minutos — ela disse antes de desligar.
Eu encerrei a chamada e me apoiei numa árvore, observando Lucas trotar entre as árvores, parando de vez em quando para farejar alguma coisa interessante. Apesar de tudo, eu não conseguia deixar de admirar a forma de lobo dele — poderosa e graciosa, a pelagem da cor da meia-noite brilhando ao luar que filtrava pelos galhos.
Thalia se agitou, inquieta, dentro de mim. A gente devia correr também.
— Não hoje — eu sussurrei. — Alguém precisa ficar de guarda.
Pela meia hora seguinte, eu fiquei de sentinela enquanto Lucas explorava a floresta. Ele parecia ter esquecido nossa discussão, perdido nos prazeres mais simples da consciência de lobo — os cheiros da mata, a sensação da terra sob as patas. Lobos não guardavam rancor do jeito que os humanos guardavam.
Faróis varreram as árvores, e eu ouvi uma porta de carro bater. Caroline Miller apareceu minutos depois, seguindo a trilha que eu tinha mandado por mensagem.
— Onde ele está? — ela perguntou, sem rodeios.
Apontei para uma clareira onde Lucas tinha acabado de surgir, o focinho molhado de beber num riacho pequeno.
Caroline tirou algo do bolso — um frasquinho de líquido que eu reconheci como essência de acônito, diluída o bastante para ser segura, mas potente o suficiente para forçar a transformação de volta. Antes que eu pudesse protestar, ela destampou e arremessou o conteúdo na direção de Lucas.
O efeito foi imediato. Ele soltou um grito, desabando no chão enquanto seu corpo iniciava a dolorosa transformação inversa. Em poucos minutos, Lucas estava deitado nu no chão da floresta, humano de novo e desorientado.
Eu rapidamente joguei para Caroline as roupas reservas que eu tinha pegado da bolsa de academia dele. Ela as atirou no filho.
— Vista isso — ordenou.
Lucas obedeceu devagar, a confusão dando lugar ao reconhecimento e, em seguida, à cautela, quando percebeu a fúria da mãe.
Já vestido, ele se levantou, cambaleando um pouco.
— Mãe? O que você…
O estalo da palma dela contra a bochecha dele ecoou entre as árvores.
— Como você ousa — sibilou Caroline. — Como você ousa arriscar tudo o que construímos aqui? Se transformar durante um jogo de basquete? Na frente de centenas de testemunhas?
A mão de Lucas foi até a bochecha que já começava a ficar vermelha, o choque se convertendo rapidamente em raiva.
— Eu não escolhi me transformar! Simplesmente aconteceu!
— “Simplesmente aconteceu” porque você se recusou a tomar o chá da lua — ela rebateu, ríspida. — Porque você está ocupado demais correndo atrás de alguma garota humana para lembrar o que você é!
Senti meu estômago despencar. Eu tinha evitado de propósito mencionar ela durante a nossa breve ligação, mas, claro, Caroline descobriria de qualquer jeito. O técnico Bennett tinha acabado de ligar para ela, e o relacionamento de Lucas e Samantha não era exatamente segredo na escola. Do jeito que eles vinham praticamente grudados há semanas, provavelmente era uma das primeiras coisas que qualquer um mencionaria ao falar do Lucas ultimamente.
Os olhos de Lucas brilharam amarelos de novo.
— Não fale da Samantha desse jeito. Você não sabe nada sobre ela.
— Eu sei que ela é humana. Eu sei que ela é uma distração. Eu sei que ela é o motivo de você quase ter exposto todos nós hoje à noite!
Dei um passo à frente, tentando acalmar a situação.
— Não foi totalmente culpa do Lucas. Eu… eu esqueci de preparar o chá cedo o bastante. Talvez não estivesse na potência máxima.
Os olhos afiados de Caroline se voltaram para mim.
— Não minta por ele, Ellie. Eu te ensinei a preparar chá da lua quando você tinha doze anos. Você nunca esqueceu, nem uma única vez.
— A Samantha precisa de mim — Lucas interrompeu. — Os pais dela morreram no ano passado. Ela está morando com a mãe adotiva, que trata ela como lixo. Ela está sozinha no mundo.
— E você acha que pode salvá-la? — Caroline riu, amarga. — Fazendo o quê, transformando ela? Trazendo ela para o nosso mundo? Ou você estava planejando esconder metade da sua vida dela para sempre?
— Você não entende como é estar sozinho!
— Não, eu só vi nossa alcateia inteira ser massacrada! — A voz de Caroline falhou. — Seu pai e eu mal escapamos com vida. Fomos caçados por três estados antes de encontrarmos refúgio aqui. Se os Green não tivessem nos acolhido, nos ajudado a criar novas identidades, você nem existiria! Tudo o que eu fiz — cada sacrifício, cada mudança, cada mentira — foi para manter você em segurança. E você está jogando tudo fora por uma garota que mal conhece.
O maxilar de Lucas se contraiu.
— A Samantha vale a pena.
Caroline encarou o filho, uma mistura de mágoa e decepção nos olhos.
— Quando você tiver perdido tudo por ela, espero que ainda ache isso. — Ela se virou e saiu a passos duros na direção da trilha. — Encontre seu próprio caminho para casa.
O silêncio depois que ela foi embora era ensurdecedor. Eu fiquei ali, sem jeito, sem saber o que dizer.
Por fim, me aproximei de Lucas.
— Ela só está preocupada com você. Com todos nós. Isso vai passar.
Ele se virou para mim de supetão, os olhos faiscando.
— Foi você que contou para ela sobre a Samantha? Foi por isso que ela apareceu aqui pronta para brigar?
