Capítulo 5

Ponto de vista da Ellie

— Você tá brincando comigo? — mantive a voz baixa e firme, apesar da raiva borbulhando por dentro. — Todo mundo na escola sabe de vocês dois. Vocês estão praticamente grudados há semanas. O time inteiro de basquete não para de falar que o jogador estrela deles está jogando a temporada no lixo por causa de uma garota. O seu próprio técnico ligou pra sua mãe depois que você faltou a quatro treinos seguidos.

A expressão de Lucas mudou de acusatória para algo mais complicado. Ele desviou o olhar, passando a mão pelo cabelo.

— Eu... — começou, mas parou.

Dei um passo mais perto, meus olhos presos nos dele.

— O seu namoro é literalmente a coisa mais pública do Mapleton High agora. Não precisa ser um gênio pra entender por que suas notas estão caindo e por que você tá faltando aos compromissos com a sua família. Então não, Lucas, eu não precisei contar nada pra sua mãe. Você mesmo tem feito um ótimo trabalho divulgando isso.

Os ombros dele murcharam um pouco.

— Eu não pensei no quanto tudo ficou público — ele admitiu, baixinho. — Eu só presumi... — deixou a frase morrer, parecendo genuinamente envergonhado agora.

— Você presumiu que eu era ciumenta e mesquinha o suficiente pra correr até a sua mãe com historinhas sobre a sua vida amorosa — completei por ele. — Depois de quinze anos de amizade, é isso que você pensa de mim.

Lucas fez uma careta, como se eu tivesse dado um soco nele.

— Desculpa, Ellie. Eu não devia ter te acusado desse jeito. — Mas então a expressão dele endureceu de novo. — Falando nisso, o que está acontecendo entre você e o Aiden Harris? Você estava dando bebida pra ele.

Eu encarei Lucas, incrédula. Era sério? Num segundo pedindo desculpas, no outro me acusando de outra coisa?

— Você tá falando sério agora? Eu ofereci uma bebida esportiva pra ele antes do jogo. Isso se chama o mínimo de decência humana, Lucas. — Balancei a cabeça, sentindo alguma coisa finalmente se partir dentro de mim. — Enquanto isso, você rejeitou publicamente o meu chá da lua na frente de todo mundo e me acusou de discriminação por classe, mas de algum jeito eu é que tô passando dos limites?

— Isso é diferente — ele resmungou, na defensiva.

— Você tem razão. É diferente — eu disse, de repente me sentindo muito calma. — Porque você está, de fato, namorando a Samantha, e eu só estava sendo simpática com alguém de outra escola.

Virei na direção do meu carro, uma sensação estranha de clareza me invadindo. Essa amizade não valia mais a pena salvar. Não quando ele conseguia ir de arrependido a acusador no intervalo de dez segundos.

Enquanto eu caminhava até o carro, meu celular vibrou com uma mensagem do Aiden Harris perguntando de novo se eu estava bem e se eu queria tomar um café qualquer hora. Parei, encarando a mensagem. Por um momento, fiquei tentada — seria tão fácil dizer que sim, mostrar pro Lucas que eu também conseguia seguir em frente. Mas eu sabia que era melhor não.

Digitei uma resposta rápida: “Obrigada por se preocupar. Eu tô bem, só lidando com umas coisas pessoais. Agradeço o convite pro café, mas eu devia focar na escola agora.”

Enviei e enfiei o celular de volta no bolso. Diferente do Lucas, eu não ia, de forma imprudente, correr atrás de um relacionamento com um humano só porque estava magoada ou queria vingança. Eu tinha responsabilidades com a minha família e com os da nossa espécie, e eu levava isso a sério. Namorar um humano só complicaria tudo.

Na semana seguinte, fiz questão de não checar o celular atrás de mensagens do Lucas. Não procurei por ele na cafeteria nem espiei o ginásio durante o treino de basquete.

Quando o sábado chegou — meu décimo sétimo aniversário —, acordei com o cheiro de panquecas de mirtilo subindo da cozinha. Mamãe sempre fazia meu café da manhã favorito no meu aniversário, uma tradição que não tinha mudado nem depois de todo o resto ter mudado na nossa vida.

— Feliz aniversário, meu amor! — disse ela, colocando uma pilha de panquecas no meu prato quando entrei na cozinha. Ela tinha enfeitado a mesa com serpentinas, e um presente pequeno embrulhado estava ao lado do meu prato.

— Obrigada, mãe — eu disse, conseguindo esboçar um sorriso de verdade. O presente acabou sendo um lindo diário encadernado em couro, com minhas iniciais em relevo na capa.

Conforme o dia avançava, recebi mensagens da Emma e das minhas outras amigas, mas nada do Lucas. Todos os anos, desde que éramos crianças, ele aparecia na minha casa no meu aniversário. A gente comia bolo, assistia a filmes e só ficava junto.

Mas, neste ano, nada.

À noite, eu já tinha desistido de esperar. Minha mãe e eu estávamos sentadas no sofá assistindo a um filme quando ela finalmente falou do assunto óbvio.

— Ele não ligou, ligou? — perguntou, baixinho.

Balancei a cabeça, sem confiar em mim mesma para falar.

— Sinto muito, querida. Eu sei o quanto a amizade dele significa para você.

— Tudo bem — eu disse no automático. — As pessoas se afastam. Acontece.

Mamãe ficou em silêncio por um instante. — Aquele pingente que você deu a ele no ano passado — o amuleto de proteção — eu tenho pensado nisso.

Ergui o olhar, surpresa com a mudança de assunto.

— Eu não devia ter incentivado você a dar aquilo para ele — ela continuou. — Era uma relíquia de família, feita para ficar com a gente. Eu só estava tão feliz por vocês dois estarem se aproximando, e eu achei que...

— Você achou que, no fim, a gente ia ser família de qualquer jeito — completei por ela.

Mamãe assentiu, com um ar culpado.

— Não foi só ideia sua, mãe. Eu quis dar para ele. Eu achei... — deixei a frase morrer, lembrando de como eu tinha certeza de que Lucas e eu sempre faríamos parte da vida um do outro. — Enfim, agora não importa.

— Eu acho que você devia pedir de volta — disse mamãe, firme.

Pisquéi, surpresa. — Sério?

— Sim. Aquele pingente pertence à nossa família. Se o Lucas não vai mais fazer parte da sua vida, então ele não deveria ficar com algo tão importante para nós.

Pensei nisso. O pingente de madeira estava na nossa família havia gerações, supostamente entalhado a partir de uma árvore especial que crescia perto da casa dos nossos antepassados. Mamãe tinha me dado quando fiz treze anos, dizendo que ele me protegeria de perigos. Eu, idiota, tinha dado ao Lucas no aniversário de dezesseis dele, acreditando que nosso vínculo era inquebrável.

— Você tem razão — eu disse por fim. — Vou pedir de volta na segunda-feira.

Mamãe me puxou para um abraço apertado. — Sinto muito que este aniversário não tenha sido do jeito que você esperava.


Na manhã de segunda-feira, cheguei cedo à escola, determinada a pegar Lucas antes da primeira aula. Encontrei-o no armário dele, sozinho pela primeira vez em muito tempo.

— Lucas — eu disse, me aproximando com decisão. — Preciso falar com você.

Ele se virou, a surpresa evidente no rosto. — Ellie. Oi.

— Eu quero meu pingente de volta — eu disse, indo direto ao ponto. — O de madeira que eu te dei no ano passado.

— O quê? Por quê?

— Porque é uma relíquia de família e eu não devia ter dado.

Lucas franziu a testa. — Você me deu como presente. Não pode simplesmente pedir de volta só porque está brava comigo.

— Não é por eu estar brava — insisti, embora nós dois soubéssemos que não era bem assim. — Aquele pingente está na minha família há gerações. Era da minha mãe, e antes disso era da mãe dela.

— Então a gente não é mais amigo? — ele perguntou, a voz baixa. — É disso que se trata?

Senti uma fisgada no peito, mas segui em frente. — Você deixou bem claro onde estão suas prioridades. E aquele pingente não é algo que eu devia ter dado a um amigo. É para ficar na família.

— Ellie, qual é. A gente ainda é amigo. Nada mudou só por causa da Samantha.

— Mudou tudo — eu o corrigi. — E eu quero meu pingente de volta.

Antes que ele pudesse responder, uma voz familiar interrompeu:

— O que está acontecendo aqui?

Samantha surgiu ao lado de Lucas, a mão se enfiando de maneira possessiva na curva do braço dele.

— Nada — eu disse, fria, sem nem olhar para ela. — Isso é entre o Lucas e eu.

— Bem, qualquer coisa que envolva o Lucas envolve a mim — ela respondeu, com um sorriso doce que não chegava aos olhos.

Eu a ignorei, mantendo o foco no Lucas. — Traz amanhã para a escola. Eu quero de volta.

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