Capítulo 6

Ponto de vista de Lucas

Eu vi Ellie se afastar, os ombros retos e os passos comedidos apesar da dor que eu sabia que ela estava sentindo. Alguma coisa se retorceu no meu estômago — culpa, talvez, ou os restos da nossa amizade me puxando.

— O que foi aquilo? — a voz de Samantha cortou meus pensamentos, os dedos se apertando em volta do meu braço.

— Ela quer o pingente de volta — eu disse, fechando meu armário com mais força do que o necessário. — Aquele de madeira que ela me deu no ano passado.

— Aquela coisa feia que você usa às vezes? — o nariz de Samantha se enrugou. — Por que ela de repente quer isso de volta agora?

— Ela diz que é uma relíquia de família.

Samantha revirou os olhos.

— Sei. E por acaso ela lembra disso bem na hora em que vê que você está feliz com outra pessoa. — Ela se inclinou mais perto, baixando a voz. — Ela está tentando manter você preso a ela, Lucas. Você não está vendo?

Eu franzi a testa, encarando o corredor onde Ellie tinha desaparecido.

— A gente é amigo desde criança, Sam. Não é tão simples assim.

— É simples, sim. — Samantha deu um passo à frente, bloqueando minha visão. — Olha, eu sei que você se importa com ela, mas ela vem te controlando desde sempre. O jeito como ela fica de olho no que você come, como está sempre te monitorando... — Ela balançou a cabeça. — Isso não é amizade, é posse.

As palavras dela acertaram alguma coisa em carne viva dentro de mim. Eu não vinha pensando a mesma coisa ultimamente? Como Ellie estava sempre ali, sempre olhando, sempre preocupada? Sempre pegando no meu pé por causa das sessões de controle de transformação às quais eu continuava faltando. Ela estava paranoica com isso.

Tá, eu quase perdi o controle naquele jogo de basquete no mês passado, mas a culpa não foi minha! Se ela não tivesse ficado toda amiguinha do Aiden perto das arquibancadas, eu não teria me distraído. Meu lobo ficou com ciúme, só isso. E agora ela age como se eu fosse uma bomba-relógio, como se eu não desse conta das minhas próprias emoções. Ela estava tentando controlar isso também?

Se transformar durante a lua cheia era nossa tradição, nossa herança — por que a gente teria que suprimir isso? E daí se os humanos viam lobisomens como monstros? Eu só precisava tomar cuidado para não ser pego. Eu não precisava dos lembretes constantes da Ellie e daqueles olhares preocupados. Eu me virava muito bem sozinho.

Isso mesmo! Eu só tenho uma chance por mês de correr livre, e eles querem controlar isso também? Inacreditável! Conall, meu lobo, rosnou em aprovação em algum lugar no fundo da minha consciência. Era a primeira vez desde que eu tinha me aproximado de Samantha que meu lobo realmente concordava comigo em alguma coisa.

— Lucas? Alô? — Samantha acenou com a mão na frente do meu rosto. — Aonde você foi agora?

Eu voltei num solavanco, o coração disparado. Por um segundo, eu tinha esquecido que ela estava bem ali enquanto eu tinha uma conversa interna com o meu lobo.

— Desculpa — eu disse depressa. — Eu só estava pensando em como você tem razão. Mas o pingente é mesmo importante para a família da Ellie.

— Então por que ela te deu em primeiro lugar? — Samantha rebateu. — Se você devolver agora, vai estar deixando ela ganhar. Vai estar dizendo que ela pode pegar os presentes de volta quando bem entender.

Passei a mão pelo cabelo, dividido.

— O que você quer que eu faça? Só recusar?

Um sorriso lento se espalhou pelo rosto de Samantha.

— Não. Você vai devolver para ela, mas de um jeito que deixe claro que você acabou com os joguinhos dela.

— Como assim? — eu perguntei.

—Esmague debaixo do seu pé enquanto ela assiste —ela disse, simplesmente. —Quebre em pedaços bem na frente dela. Faça ela entender que você está me escolhendo, não a manipulação dela.

Eu encarei Samantha, chocado.

—Esmagar? Sam, isso... isso parece extremo. Aquele pingente significa muito pra família dela.

A expressão confiante de Samantha vacilou. Ela baixou o olhar, de repente parecendo menor, mais frágil.

—Eu achei que você estava do meu lado —ela sussurrou, a voz tremendo de leve. —Você faz ideia de como é não ter nada? Nenhuma herança de família, nenhuma casa de infância, nenhum pai e mãe que se importem?

Ela se encostou na parede, abraçando o próprio corpo.

—Recebi uma ligação da minha mãe adotiva hoje de manhã.

Eu enrijeci. Samantha quase nunca falava da mãe adotiva, mas as poucas histórias que tinha contado já tinham sido o bastante para fazer meu sangue ferver.

—O que ela queria? —perguntei, imediatamente preocupado com a mudança no jeito de Samantha.

—Ela quer que eu volte pra casa neste fim de semana —disse, com os olhos baixos. —É o aniversário do dia em que ela me acolheu. Ela gosta de me lembrar do quanto eu deveria ser grata.

—Você não precisa ir —eu disse, na hora.

Samantha me deu um sorriso triste.

—Preciso, sim. Ela ainda é minha responsável legal até eu fazer dezoito no ano que vem. —Ela puxou o ar, trêmula. —Sabe o que ela fez no ano passado? Me obrigou a ficar ajoelhada em cima de arroz por três horas enquanto listava todas as formas como eu fui uma decepção. Depois me fez agradecer por “ter me salvado da sarjeta”.

Eu senti uma onda de raiva protetora.

—Isso é abuso, Sam. Você devia denunciá-la.

—Pra quem? Ela é uma líder comunitária respeitada. Ninguém acreditaria em mim. —Ela enxugou os olhos. —Além disso, falta só mais um ano. Aí eu estou livre.

Eu a puxei para um abraço, sentindo o corpo frágil dela tremer contra o meu.

—Sinto muito.

—A culpa não é sua —ela murmurou contra o meu peito. —É só que... quando eu vejo gente como a Ellie, que teve tudo entregue de bandeja a vida inteira —pais amorosos, casas boas, escolas caras— e ainda age como se tivesse direito a tudo... —Ela se afastou para me olhar. —Você sabe o que eu daria pra ter vivido só um dia da vida perfeita dela?

As palavras dela me fizeram enxergar Ellie sob uma nova luz. Ellie sempre teve tudo —pais que apoiavam, segurança financeira, boa saúde. Até a “alergia” dela à prata era pequena perto do que Samantha tinha aguentado.

—Aquele pingente —Samantha disse de repente. —Ela não merece ter aquilo de volta. Não depois do jeito como me tratou.

Eu hesitei.

—Mas é da família dela.

—E daí? Ela te deu. Agora é seu. —Os olhos de Samantha endureceram. —Se você devolver, você está escolhendo ela em vez de mim. Está dizendo que os sentimentos dela importam mais do que os meus.

—Isso não é justo —protestei.

—Não é? —Ela deu um passo para trás, enxugando as últimas lágrimas. —Toda vez que você coloca ela em primeiro lugar, é como se estivesse me dizendo que eu não importo. Que eu sou descartável, do mesmo jeito que eu fui a vida inteira.

A culpa me inundou.

—Você não é descartável, Sam. Você importa pra mim... muito.

—Então prove —ela disse, baixo. —Me mostre que eu não sou só sua segunda opção.

O sinal da aula tocou, assustando nós dois.

—Vamos nos atrasar —eu disse, olhando o relógio.

—Lucas. —Ela segurou meu braço, os olhos de repente intensos. —Promete que não vai simplesmente entregar aquele pingente pra ela. Promete que vai mostrar pra ela que ela não pode mais te controlar.

Eu olhei para o rosto suplicante dela e senti alguma coisa endurecer dentro de mim.

—Eu prometo.

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