Capítulo 7
Ponto de vista de Ellie
O sinal final tocou, anunciando o fim de mais um dia de aula na Mapleton High. Recolhi meus pompons e minha garrafinha, enfiando tudo na bolsa de ginástica enquanto o resto do time saía da sala de ensaio em fila. Minha cabeça ainda estava longe, presa no pingente de família que Lucas tinha se recusado a devolver mais cedo.
Eu estava fechando o zíper da bolsa quando aconteceu — aquela sensação familiar de formigamento na base do meu crânio, seguida pela voz de Lucas ecoando direto na minha mente.
Encontre comigo na clareira da Pine Trail hoje à noite, se você quer seu pingente de volta.
Eu congelei, olhando ao redor imediatamente para ver se alguém tinha percebido. Usar o nosso vínculo mental de lobos na escola era uma imprudência. A gente tinha concordado anos atrás em evitar isso em lugares públicos — os humanos não conseguiam ouvir nossas conversas mentais, mas com certeza notavam aquele olhar estranho e distante que tomava conta da gente quando a gente se comunicava assim.
Você enlouqueceu? rebati, mantendo o rosto cuidadosamente neutro. Não aqui. Tem gente pra todo lado.
Senti o encolher de ombros dele na minha mente. Ninguém percebe. E, além disso, isso é importante.
Pine Trail? À noite? Você não conseguiria escolher um lugar mais isolado nem se tentasse.
Essa é a ideia. Privacidade. Ninguém para interromper a gente. A não ser que você não queira seu precioso tesouro de família de volta...
A provocação na voz mental dele fez meu maxilar travar. Tá. Que horas?
Depois do pôr do sol. Não se atrase.
A conexão se rompeu quando Emma entrou de supetão pela porta do estúdio de dança, um pouco sem fôlego. “Foi mal eu ter demorado tanto pra trocar. Você não faz ideia da fila pros chuveiros.”
“Tudo bem”, eu disse, ainda abalada com a invasão mental de Lucas.
Emma analisou meu rosto. “Você tá bem? Tá com cara de quem viu um fantasma.”
“O Lucas acabou de me chamar”, eu disse, erguendo o celular enquanto terminava de enrolar minhas anotações da rotina de treino. “Ele quer me encontrar hoje à noite na clareira da Pine Trail pra devolver meu pingente.”
“Sério? Ele quer encontrar você no meio do mato? À noite?” As sobrancelhas de Emma subiram. “De jeito nenhum. Isso é literalmente como todo filme de terror começa.”
Fechei a bolsa de ginástica com um puxão decidido. “Vai ser só logo depois do pôr do sol — o céu nem vai estar totalmente escuro ainda. E eu preciso daquele pingente de volta, Em.”
“Então ele que te entregue amanhã na escola. Em plena luz do dia. Com testemunhas.”
“Não é tão simples”, eu disse, jogando a bolsa no ombro. “Eu vou.”
Emma agarrou meu braço. “Então eu vou com você. E vou levar spray de pimenta e deixar o 190 na discagem rápida.”
“Ele só quer conversar sem ninguém por perto”, suspirei.
“Sei”, Emma disse, claramente desconfiada. “Porque clareiras isoladas na floresta são ótimos lugares pra uma conversa civilizada.”
A caminhada até a Pine Trail foi tensa. O sol se pondo filtrava por entre as árvores, lançando sombras salpicadas pelo caminho. Quando nos aproximamos da clareira, avistei duas figuras esperando — Lucas e Samantha, de mãos dadas na borda do pequeno espaço aberto.
Emma resmungou por entre os dentes. “Claro que ele trouxe ela. Porque isso já não era constrangedor o bastante.”
Lucas se virou quando nos aproximamos, a expressão indecifrável na luz que se apagava. Samantha estava ao lado dele, com um sorrisinho pequeno e satisfeito brincando nos lábios.
“Você realmente veio”, Lucas disse, soando quase surpreso.
“Você fez questão de trazer ela só pra esfregar na cara da Ellie?” Emma retrucou, apontando para Samantha. “Que classe, Lucas.”
Lucas a ignorou, os olhos fixos em mim. “Você queria seu pingente de volta.”
“Sim”, eu disse, simples, mantendo a voz firme apesar da raiva e da dor revirando por dentro. “É uma herança de família, Lucas. É importante.”
Ele enfiou a mão no bolso e tirou o pingente de madeira — aquele que eu tinha dado a ele no ano passado, acreditando que nossa amizade duraria para sempre. A luz do dia, já enfraquecida, pegou os entalhes intrincados, fazendo o desenho do lobo parecer quase vivo.
“Importante, é?” Lucas o ergueu, deixando-o balançar preso ao cordão de couro. “Se é tão importante assim, por que você me deu em primeiro lugar?”
Antes que eu pudesse responder, ele continuou, a voz ficando mais dura. “Sabe o que eu acho? Eu acho que você só quer isso de volta porque não aguenta me ver feliz com outra pessoa.”
“Não é verdade”, protestei. “Lucas, esse pingente está na minha família há gerações. Não é sobre nós — é sobre a minha herança.”
“Claro”, Samantha interrompeu, a voz pingando sarcasmo. “De repente virou uma relíquia de família preciosa agora que o Lucas está comigo.”
Lucas olhou para o pingente e depois para mim. Algo tremulou nos olhos dele — dúvida, talvez, ou um instante de clareza. Mas então Samantha apertou a mão dele, e a expressão dele se endureceu de novo.
“Você quer tanto assim de volta?”, perguntou ele, a voz gelada.
Ele deixou o pingente cair no chão, entre nós. O amuleto de madeira caiu com um baque suave na trilha de terra, os entalhes do lobo capturando a luz do dia uma última vez.
Antes que eu pudesse me mexer, Lucas ergueu o pé de propósito e desceu com força sobre o pingente. O estalo nauseante ecoou no ar silencioso da noite enquanto a madeira se estilhaçava sob o calcanhar dele. Ele torceu o pé, triturando os fragmentos na terra.
Eu arfei, paralisada de incredulidade. O pingente jazia despedaçado aos meus pés. Uma raiva branca e ardente subiu dentro de mim, queimando do meu centro até a ponta dos dedos. Eu podia sentir Thalia tentando se soltar à força — exigindo retribuição, exigindo sangue.
Fira-o como ele nos feriu. Mostre a ele o que acontece quando você destrói o que é nosso.
Minha visão se aguçou de um jeito doloroso; de repente, a noite ficou clara demais, brilhante demais. Eu conseguia sentir o cheiro do suor de Lucas, ouvir o coração dele acelerado. Minhas mãos se fecharam em punhos, as unhas cravando nas palmas enquanto eu lutava para impedi-las de se alongarem e virarem garras.
“Lucas!”, Emma gritou, a voz ecoando pela mata. “Que porra é essa? O que deu em você?”
A voz dela me puxou de volta à realidade. Emma e Samantha estavam aqui. Eu não podia perder o controle — não ali, não naquele momento. Com cada grama de força de vontade, eu empurrei a loba de volta para dentro, embora ela rugisse e uivasse em mim.
Fiquei imóvel, encarando os pedaços quebrados da minha herança. Meu peito parecia apertado, minha visão embaçando com lágrimas represadas que eu me recusei a deixar cair. Quinze anos de amizade, e era nisso que tinha dado — uma traição tão completa que quase tinha acionado minha transformação na frente de todo mundo.
Lucas encarou os restos estilhaçados, uma expressão estranha atravessando o rosto dele. Por um instante, ele pareceu chocado com a própria atitude, como se não conseguisse acreditar no que tinha acabado de fazer. Algo na postura dele mudou — os ombros cederam um pouco, a pose confiante vacilou.
“Vamos”, Samantha puxou o braço dele, quebrando o encanto. “Você fez o que precisava ser feito. Ela não vale mais o seu tempo.”
Lucas hesitou, os olhos encontrando os meus. Naquele breve momento, eu vi conflito, talvez até arrependimento. Mas então ele se virou, deixando Samantha conduzi-lo de volta em direção ao campus. Os passos dele eram pesados, e ele olhou para trás duas vezes antes de desaparecerem na escuridão.
A noite tinha caído por completo, sem que a lua ainda tivesse surgido.
Eu me ajoelhei e, com cuidado, juntei cada lasca e fragmento, aninhando-os nas minhas mãos trêmulas como se fossem pedras preciosas, e não madeira quebrada.
“Ellie, me desculpa”, Emma sussurrou, agachando-se ao meu lado. “Talvez a gente consiga consertar? Meu tio trabalha com madeira — ele talvez consiga restaurar.”
