Capítulo 8
Ponto de vista de Ellie
Balancei a cabeça, um nó se formando na minha garganta enquanto eu recolhia o último fragmento minúsculo. — Não vai ser a mesma coisa. Eu confiei a ele algo insubstituível, Emma. Minha família passa isso de geração em geração, e eu... eu deixei que fosse destruído porque achei que ele se importava com a nossa amizade.
Emma passou um braço ao redor dos meus ombros enquanto eu apertava os pedaços quebrados contra o peito, a realidade da traição do Lucas afundando em mim mais fundo do que qualquer lasca. — Eu estava tão errada sobre ele — sussurrei. — Tão completamente errada.
As semanas que se seguiram passaram num borrão de rotina. Eu ia para a aula, ia aos treinos de líder de torcida, estudava para as provas — tudo isso enquanto evitava com cuidado qualquer caminho que pudesse cruzar com o Lucas. Quando eu o via no corredor, eu olhava através dele como se fosse feito de vidro. Quando o nome dele surgia numa conversa, eu mudava de assunto. Para mim, Lucas Miller não existia mais no meu mundo.
Isso não passou despercebido. Os professores pararam de nos colocar juntos em trabalhos. Os amigos pararam de mencioná-lo perto de mim. Até a orientadora da escola me chamou uma vez, perguntando com delicadeza se eu queria falar sobre “a situação com o Lucas”, uma oferta que eu recusei educadamente.
Enquanto isso, Lucas parecia estar desandando. Ouvi rumores de treinos de basquete perdidos, notas baixas e visitas cada vez mais frequentes à diretoria. Duas vezes vi a mãe dele, Caroline, atravessando apressada o estacionamento da escola, o rosto tenso de preocupação. Na terceira vez, eu literalmente esbarrei nela do lado de fora do prédio da administração.
— Ellie — ela disse, a voz falhando. Os olhos dela — do mesmo castanho-escuro dos do Lucas — traziam uma mistura de tristeza e culpa. Ela estendeu a mão como se fosse tocar meu braço, mas se conteve. — Eu... como você está?
— Estou bem, Sra. Miller — respondi, rígida, apertando meus livros com mais força.
Ela assentiu, como se procurasse palavras. — Eu quero que você saiba... que isso é... que não... — Ela suspirou, os ombros cedendo. — Cuide-se, querida.
As férias de inverno vieram como um alívio: duas semanas sem precisar atravessar os corredores da escola como se fossem campos minados. Eu foquei na família, em controlar minhas transformações sem o pingente, em construir uma versão mais forte de mim mesma.
Quando as aulas voltaram depois das férias, notei algo diferente. Samantha não estava nos corredores, não estava agarrada ao braço do Lucas, não estava me lançando aqueles olhares presunçosos do outro lado do refeitório.
Ouvi Lucas perguntando à Jessica depois do cálculo:
— Você viu a Samantha hoje?
— Não. Achei que ela ainda estivesse viajando ou algo assim — Jessica respondeu, dando de ombros.
No fim da semana, os boatos estavam por toda parte. Lucas parecia cada vez mais ansioso, checando o celular o tempo todo entre uma aula e outra. Eu o vi de relance abordando professores diferentes, a expressão ficando mais desesperada a cada tentativa.
Emma se inclinou na hora do almoço para sussurrar:
— Você ouviu? A Samantha sumiu. Tipo, sumiu de vez.
— Como assim? — perguntei, tentando não demonstrar interesse demais.
— Se transferiu. Sem aviso, sem explicação. Apagaram tudo das redes sociais dela. O Lucas está surtando — ele foi na secretaria hoje de manhã.
Mais tarde, vi Lucas saindo do escritório da administração, pálido e abalado. Segundo os sussurros no corredor, a Sra. Hernandez tinha dito a ele que Samantha tinha se desligado da Mapleton High com efeito a partir de 30 de dezembro, sem deixar qualquer informação de encaminhamento.
A notícia se espalhou rápido pela escola. Samantha Grey tinha desaparecido — sem explicação, sem despedidas. Era como se ela nunca tivesse existido.
Lucas tentou manter uma expressão corajosa. Ele se jogou nos treinos de basquete, ficava até tarde na quadra e se concentrava em levantar as notas de novo. Mas eu conseguia ver a confusão nos olhos dele, ouvir os sussurros que o seguiam.
“Você ficou sabendo da Samantha?”
“Sumiu nas férias...”
“Coitado do Lucas, ela nem se despediu...”
Eu não sabia ao certo o que sentir. Uma parte de mim — uma parte pequena e mesquinha da qual eu não me orgulhava — se sentia vingada. Mas, na maior parte, eu não sentia nada. Os pedaços quebrados do meu pingente, agora guardados com cuidado numa caixinha de madeira em cima da minha cômoda, eram um lembrete constante de que algumas coisas não tinham conserto.
Lucas tentou se aproximar de mim várias vezes. Na aula de Biologia, ele se sentou na carteira ao lado da minha, colocou um café na minha mesa e deu um sorriso hesitante. Eu olhei para o café, depois para ele, e então empurrei o copo de lado em silêncio, voltando a atenção para o livro. Quando ele deixou um bilhete no meu armário, eu devolvi sem abrir. Eu não estava sendo cruel — eu estava sendo honesta. O que quer que tivéssemos compartilhado um dia tinha acabado.
Eu mantive minha posição no topo da turma. Lucas, por sua vez, tinha conseguido, de algum jeito, melhorar as notas o bastante no último bimestre para continuar no rumo da formatura, embora seu desempenho no basquete nunca tivesse piorado — os reflexos aprimorados de lobo lhe dando uma vantagem injusta que os técnicos simplesmente chamavam de “talento natural”.
Março trouxe a ansiedade da temporada de inscrições para a faculdade. Eu me candidatei a sete instituições, com a Cedar View University como minha primeira opção, por causa do renomado curso de Ciência da Computação. Minha mãe insistia que, com minhas notas no SAT e minhas atividades extracurriculares, eu entraria em qualquer lugar, mas a espera continuava sendo excruciante.
O envelope chegou numa terça-feira à tarde, em abril — grosso e promissor, com o emblema da CVU em relevo no canto. Minhas mãos tremiam enquanto eu abria.
“Prezada Srta. Green, temos o prazer de oferecer sua admissão à turma de 2020 da Cedar View University com uma bolsa acadêmica integral...”
Mamãe gritou quando eu mostrei a ela, me puxando para um abraço apertado. “Eu sabia! Eu sabia que eles iam reconhecer como você é brilhante!”
Nossa comemoração foi interrompida por gritos empolgados do outro lado da rua. Pela janela da frente, eu vi a casa dos Miller se encher de movimento — os pais do Lucas abraçando-o na varanda, o pai dele batendo nas costas dele com entusiasmo.
“Parece que outra pessoa também recebeu uma boa notícia hoje”, mamãe observou.
Dez minutos depois, a campainha tocou. Eu abri a porta e encontrei Caroline Miller ali, radiante de orgulho.
“Ellie! O Lucas acabou de receber a carta de aceitação da Cedar View com uma bolsa de basquete! E eu vi sua mãe pulando e gritando mais cedo — vocês também tiveram resposta?”
Antes que eu pudesse responder, ela me puxou para um abraço sem jeito. “Ah, isso é maravilhoso! Vocês dois passaram! Do jeitinho que a gente sempre esperou.”
Eu enrijeci, sem saber como reagir. Caroline parecia ter se esquecido por um instante da rachadura entre o filho dela e eu, levada pelo orgulho de mãe.
“Sim, eu fui aceita no curso de Ciência da Computação”, eu disse com cuidado.
“Perfeito! Vocês dois podem cuidar um do outro lá”, ela se derreteu, ignorando — ou realmente esquecendo — os meses de silêncio entre nós. “O Lucas vai precisar de alguém para mantê-lo focado nos estudos, e você sabe como o primeiro ano longe de casa pode ser tão difícil...”
Por cima do ombro de Caroline, eu consegui ver Lucas parado, sem jeito, na varanda deles, nos observando. Nossos olhos se encontraram por um instante do outro lado da rua — a expressão dele indecifrável, a minha deliberadamente vazia.
“Tenho certeza de que o Lucas vai ficar bem sozinho”, eu disse, com a voz educada, mas firme.
