Capítulo 9
Ponto de vista de Ellie
Universidade Cedar View.
Eu estava na metade de dobrar minhas roupas quando Lily irrompeu no nosso quarto do dormitório, os olhos arregalados de empolgação e o celular dramaticamente apertado contra o peito.
— Ai. Meu. Deus. Ellie! — ela se jogou na minha cama, fazendo meus montinhos cuidadosamente empilhados de camisetas desabarem. — Você já viu o Campus Whispers hoje?
Lily Parker era uma das minhas duas colegas de quarto no Dormitório 304 — um furacão humano, com cachos loiros e um radar sobrenatural para drama do campus. Eu adorava a Lily 99% do tempo, mas aquele 1% restante geralmente envolvia as entradas dela, tipo tornado, destruindo qualquer organização que eu tivesse acabado de criar.
Como agora: meu monte de camisetas, antes impecável, parecia uma avalanche colorida espalhada pelo edredom e pelo chão. Lá se foi a minha “segunda-feira Marie Kondo ficaria orgulhosa de mim”.
Suspirei, resgatando uma camiseta do chão.
— Você sabe que eu não acompanho esse aplicativo de fofoca.
— Pois deveria! — Lily enfiou o celular na minha cara. — Viram o Lucas na joalheria Cartwright ontem. Ele comprou esse conjunto maravilhoso de colar e pulseira que custou, tipo, o equivalente a um semestre inteiro de vale-refeição.
Minhas mãos pararam sobre o cesto de roupas.
— E por que eu me importaria com isso?
— Porque! — Lily rolou e ficou de barriga para baixo, balançando os pés no ar. — Todo mundo sabe que joia cara significa ou relacionamento sério ou pedido de desculpas sério. E pra quem mais ele estaria pedindo desculpa? Vocês não se falam faz, tipo, uma eternidade!
Suspirei por dentro. Eu tinha acreditado ingenuamente que a faculdade seria meu recomeço — que o drama do ensino médio ficaria em Mapleton, onde pertencia. Mas, logo no primeiro dia da semana de recepção, alguém criou um tópico “Calouros Mais Gatos” no Campus Whispers e, de algum jeito, Lucas e eu aparecemos no topo da lista. “Gatos da Cidade Natal”, foi como chamaram.
Só piorou quando alguns formados de Mapleton que escolheram a CVU começaram a espalhar histórias sobre o nosso passado. “Eles se conhecem desde o jardim de infância”, diziam, ou “As famílias deles são super próximas”. Em poucas semanas, quando Lucas entrou para o time de basquete e eu fui recrutada tanto pela sociedade de dança quanto pela equipe de líderes de torcida, os boatos se transformaram em algo mais romântico.
De repente, éramos “namorados de infância” ou “amantes predestinados”, dependendo de quem contava a história. A especulação se espalhou pelo campus como um vírus, ficando mais elaborada a cada repetição, até que até professores pareciam saber do suposto romance épico entre Lucas Miller e Ellie Green. A ironia de virarmos um casal do campus quando a gente nem estava se falando não passou despercebida para mim.
Me obriguei a continuar dobrando as roupas, mantendo a voz neutra.
— O Lucas pode comprar a joalheria inteira, por mim. Não tem nada a ver comigo.
— Ah, qual é, Ellie. Vocês estão se evitando desde a recepção. Você não acha que já está na hora de—
— Não — interrompi, talvez afiada demais. — Não acho que esteja na hora de nada.
Enquanto Lily continuava tagarelando sobre as fofocas do campus, minha mente voltou para uma lembrança que eu tinha me esforçado para enterrar. Eu tinha cinco anos, brincando no parquinho do Parque de Mapleton, enquanto minha mãe conversava com outros pais ali perto. Encontrei uma pulseira de berloques prateada na caixa de areia e a peguei, erguendo-a e perguntando em voz alta de quem era.
Em minutos, vergões vermelhos e inchados apareceram na palma da minha mão. Quando minha mãe percebeu, eu já lutava para respirar, a garganta se fechando à medida que a reação alérgica se espalhava. Lucas, que estava brincando no balanço, correu até mim mais rápido do que qualquer criança de cinco anos deveria conseguir. Ele derrubou a pulseira da minha mão e gritou por ajuda, quase arriscando expor o nosso segredo no desespero.
—Meu amigo precisa de ajuda! —ele tinha gritado, a voz pequena falhando de medo. —Ela não consegue respirar!
Naquele dia, Lucas tinha sido meu protetor, meu amigo, minha matilha. A lembrança tornava o contraste com o comportamento recente dele ainda mais doloroso — especialmente quando eu pensava em como ele tinha esmagado de propósito o pingente da minha família sob o salto, a madeira estilhaçando como a nossa amizade.
—Ellie? Alô? Chamando a Ellie?
A voz de Lily me puxou de volta ao presente. Ela acenava com a mão na frente do meu rosto.
—Desculpa, o que você estava falando? —perguntei.
—Você vai jantar com a gente? A Megan encontrou um tailandês incrível fora do campus.
—Não dá. Eu tenho ensaio de dança pra apresentação do aniversário. —Mantive os olhos baixos, focada no chão.
—Ah, a grande celebração dos cento e cinquenta anos! —Megan Davis apareceu atrás de Lily, as sobrancelhas perfeitas erguidas de um jeito sugestivo. —O Lucas vai estar lá? Ouvi dizer que o time de basquete vai fazer algum tipo de apresentação durante o evento.
Eu me levantei, torcendo a toalha com mais força do que o necessário.
—Não faço ideia do que o Lucas vai fazer, e não me importo. A gente só é da mesma cidade. A gente mal se conhece.
Megan e Lily trocaram um olhar que dizia claramente que não acreditavam em mim, mas, graças a Deus, deixaram o assunto pra lá.
Vinte minutos depois, eu atravessava o campus em direção ao estúdio de dança, o ar da noite fresco contra a minha pele. Os caminhos estavam quase vazios, com a maioria dos alunos ou jantando, ou na biblioteca. Aproveitei para respirar fundo, tentando me centrar e afastar os pensamentos de Lucas e do presente dele.
A celebração do aniversário de cento e cinquenta anos da Cedar View University aconteceria em menos de uma semana. Como uma das melhores dançarinas da sociedade de dança, eu tinha sido selecionada para participar do número. Era uma honra que eu não podia recusar.
Eu estava passando pelo prédio de Humanidades quando ouvi, acima de mim, um arranhão metálico. Minha audição aprimorada captou o som um microssegundo antes de meus instintos entrarem em ação. Eu me atirei para a frente justamente quando algo pesado despencou da janela do terceiro andar, errando minha cabeça por poucos centímetros.
O impacto atrás de mim foi seguido por um tinido metálico pesado. Eu me virei e vi um candelabro de prata ornamentado, retorcido no pavimento, seus braços elegantes agora dobrados em ângulos impossíveis, uma das bordas afiadas brilhando de modo ameaçador sob a luz. Enquanto eu encarava, em choque, uma dor lancinante explodiu no meu ombro direito.
—Droga —sibilei, levando a mão até lá e encontrando a jaqueta rasgada e molhada de sangue. Um pedaço irregular da prata tinha me atingido na queda, cortando tecido e pele.
Ergui o olhar rápido para as janelas do terceiro andar. Ali — só por um instante — vi um lampejo de cabelo loiro e um rosto pálido assustadoramente parecido com o de Samantha antes de desaparecer do meu campo de visão. Meu sangue gelou.
Aquilo não tinha sido acidente. Um candelabro pesado de prata não “cai” simplesmente do parapeito de uma janela. Alguém tinha empurrado — mirado — direto em mim.
A ardência no meu ombro se intensificou, se espalhando a partir do corte como ácido sob a pele. Ferimentos normais cicatrizam rápido para os da minha espécie — às vezes em minutos — mas a prata... a prata era diferente. Ela nos envenenava, impedia a cicatrização e, em quantidade suficiente, podia matar.
Eles sabem o que eu sou, pensei, com o pânico crescendo. Alguém sabe que eu sou uma lobisomem.
