Capítulo 1 #1

Capítulo 1

~ Shailyn ~

Eu fiz o café do jeito que ele gostava.

Duas colheres de açúcar. Um pinguinho de creme. A caneca preferida dele — a azul-marinho, com a alça lascada, que eu já tinha me oferecido para jogar fora três vezes e ele se recusou. Eu fazia do mesmo jeito todos os dias havia cinco anos, exatamente às 14h, e todos os dias ele bebia sem comentar.

Eu dizia a mim mesma que isso significava alguma coisa.

Eu dizia a mim mesma um monte de coisas.

A porta do escritório dele se abriu com o empurrão da minha mão e eu entrei já sorrindo, já formando as palavras — Dante, trouxe seu café — quando o cheiro me atingiu primeiro. Um perfume que não era o meu. Algo floral e barato por baixo do cheiro familiar da colônia dele.

Aí eu vi os dois.

Ele estava curvado sobre a mesa. As calças nos tornozelos. Vanessa — a nova, a das pernas compridas e o jeito de rir alto demais sempre que Dante falava — estava esparramada sobre a mesa como se fosse dona dela, a saia enfiada para cima até a cintura, a blusa rasgada nos botões.

Tudo parou.

A caneca de café tremeu nas minhas mãos. O sorriso ainda estava no meu rosto. Eu conseguia sentir, congelado ali, porque o meu rosto ainda não tinha alcançado o que os meus olhos estavam vendo.

Os dois congelaram quando me notaram.

Por um momento horrível e suspenso, ninguém se mexeu. O escritório ficou completamente silencioso, exceto pelo zumbido baixo do ar-condicionado e pelo som do meu próprio sangue correndo nos meus ouvidos.

Então o rosto de Dante se contorceu.

Não de culpa ou vergonha.

De raiva.

— CAI FORA, Shailyn! Quem foi que te disse que você podia entrar aqui sem bater?

A voz dele me atingiu como uma coisa física. Eu cambaleei para trás, a lateral do meu quadril batendo no batente com força o bastante para roxear. O café derramou pela borda e escaldou minha mão, e eu soltei um som baixinho e idiota — não por causa da queimadura, mas por outra coisa completamente diferente. Uma coisa que morava mais fundo do que a pele.

— Eu… eu desculpa, eu só…

— FORA.

Eu puxei a porta e fechei.

Fiquei ali, com as costas coladas nela, as duas mãos em volta da caneca que ainda queimava a palma, e respirei. Entrar. Sair. Entrar. Sair. O corredor ao meu redor era claro e comum — paredes bege, carpete cinza, o som distante de teclados e conversa baixa vindo do salão aberto.

Normal. Tudo aqui fora era completamente normal.

Está tudo bem. Ele estava estressado. Ele não quis dizer daquele jeito.

Era isso que eu dizia a mim mesma.

Era isso que eu sempre dizia a mim mesma.

Então eu ouvi eles começarem de novo.

Eu fiquei parada ali e ouvi — o ritmo, os sons — e entendi de um jeito vago, meio inconsciente, que ele não tinha parado. Que a interrupção mal tinha sido percebida. Que eu tinha entrado, sido enxotada aos gritos e ele simplesmente… continuou.

Como se eu fosse uma mosca que ele tivesse espantado de cima da comida.

A caneca ainda estava queimando minha mão. Eu não me mexi.

— Senhora Belmar?

Jessica me observava da mesa dela com aquela expressão que eu tinha aprendido a reconhecer — olhos arregalados, a boca cuidadosamente neutra, a fome por baixo. Ela era o tipo de mulher que colecionava as humilhações dos outros como souvenirs.

Eu apoiei a caneca de café na beirada da mesa dela.

Não sei por quê. Eu só não conseguia mais segurar.

— Você pode ficar com isso — eu disse. Minha voz saiu completamente firme. Eu sempre me surpreendia com isso — com o quão calma eu soava quando tudo dentro de mim era ruído branco.

Eu caminhei até o elevador. Apertei o botão. Esperei.

Está tudo bem. Casamentos passam por fases difíceis. Isso é só uma fase difícil.

As portas se abriram. Eu entrei. Apertei o botão do meu andar.

E então, só então, na pequena privacidade prateada do elevador, eu deixei as lágrimas correrem, porque simplesmente não dava mais para segurar.

Cinco anos. Cinco anos de merda sendo casada com Dante Belmar, e ele simplesmente não mudava.

Peguei minha bolsa na mesa sem falar com ninguém, bati o ponto para sair, e fui embora do prédio dirigindo com o rádio desligado e as duas mãos bem firmes, com muito cuidado, no volante.

Tinha um podcast que eu começara a ouvir três semanas atrás. Uma mulher com uma voz calorosa e segura, que dizia coisas como você merece ser escolhida e o seu silêncio não é a mesma coisa que paz.

Eu tinha encontrado por acaso, procurando uma coisa completamente diferente. Tinha ouvido o primeiro episódio no carro, num estacionamento subterrâneo, com o motor ligado, e fiquei sentada ali por vinte minutos depois que terminou, sem me mexer.

Coloquei para tocar agora.

— Às vezes a gente fica não porque está feliz — disse a mulher —, mas porque confundiu resistência com amor.

Eu desliguei.

Ainda não estava pronta para aquela.

Meu celular vibrou no banco do passageiro.

Dante: [Nunca mais entre no meu escritório sem bater. Estou falando sério.]

Li no semáforo vermelho. Virei o celular com a tela para baixo. Como ele conseguia não sentir a menor culpa por me fazer passar pelo inferno.

Entrei no estacionamento do hospital, desliguei o motor e fiquei um momento sentada no silêncio. Meu reflexo me encarava pelo retrovisor — rímel escorrendo pelas duas bochechas, cabelo escapando dos grampos, olhos que pareciam pertencer a alguém bem mais velha do que trinta e um anos.

Patética.

A palavra chegou na voz do Dante, como sempre acontecia. Porque ele a tinha dito exatamente uma vez, dois anos depois do nosso casamento, durante uma briga que eu tinha começado ao perguntar por que ele não tinha voltado para casa na noite anterior. Ele tinha me olhado com algo parecido com desprezo e dito você é patética, sabia?, e então saiu do quarto, e eu fiquei ali de pé e decidi que ele tinha razão.

Peguei minha bolsa.

Eu precisava ver minha mãe.

✦ ✦ ✦

Ela estava dormindo quando eu entrei, como quase sempre ficava à tarde — o rosto flácido e sereno, o peito subindo e descendo devagar sob o cobertor pálido do hospital. Mais um susto de derrame, mais uma rodada de monitoramento, mais uma conta que levaria três meses para dar conta.

Tia Patricia estava na cadeira ao lado da cama, já de casaco, bolsa já no ombro. Esperando.

— Até que enfim — ela disse, antes mesmo de eu atravessar completamente a porta.

— Eu sei. Desculpa.

— Eu preciso de mais dinheiro, Shailyn. — Ela se levantou, cruzando os braços sobre o peito. — O custo dos remédios aumentou de novo, e eu venho cuidando da sua mãe há vinte e oito anos. Você é casada com um dos homens mais ricos desta cidade. Para de agir como se eu estivesse pedindo uma coisa absurda.

A culpa se mexeu dentro de mim, automática e enraizada. Patricia tinha me acolhido desde a infância. Tinha me alimentado, me vestido e garantido que eu fosse para a escola. Eu devia a ela uma dívida que eu nunca conseguia nomear direito.

— Vou transferir alguma coisa hoje à noite — eu disse, baixinho.

— Ótimo. — Ela vestiu o casaco direito. — Ah — antes que eu me esqueça. Sua mãe escreveu uma coisa para você.

Ela me estendeu um envelope. Grosso. Um pouco gasto nas bordas, como se tivesse sido manuseado muitas vezes antes de chegar às minhas mãos.

Minha respiração falhou.

— Foi ela que escreveu isso?

— Uma carta de cada vez. Ela está trabalhando nisso há quase um ano. — Patricia deu de ombros, como se fosse um assunto administrativo sem importância. — Vou ao mercado. Tranca tudo quando você sair.

A porta se fechou atrás dela.

Fiquei no meio do quarto, segurando o envelope com as duas mãos. A letra da minha mãe estava na frente — lenta e irregular, cada letra um esforço enorme, as letras do meu nome ocupando quase toda a largura do papel.

SHAILYN.

Ela tentou falar comigo a vida inteira. O primeiro derrame tirou a voz dela antes de eu nascer, deixando-a presa dentro de um corpo que não cooperava, que transformava cada palavra numa batalha. Cresci vendo-a lutar para se comunicar — o soletrar demorado de palavras numa prancha, as respostas de uma única palavra, os silêncios exaustos.

Ela passou um ano escrevendo esta carta.

Minhas mãos tremiam. Comecei a abri-la—

—e senti a conhecida dor surda, baixa no meu ventre, que me dizia que meu ciclo tinha começado.

O timing era tão absurdo que quase ri.

Guardei o envelope com cuidado na bolsa e fui procurar o banheiro.

✦ ✦ ✦

Havia duas mulheres lá dentro, no meio de uma discussão, as vozes ricocheteando no azulejo.

"—você viu a bolsa nova da Chantel? A Birkin? Ah, por favor. Todo mundo sabe que foi o Dante que comprou."

Parei logo na entrada.

"O Dante compra coisas pra todo mundo", disse a segunda voz, entediada. "Não quer dizer nada de especial."

"Quer dizer que ele tá dormindo com ela."

"O Dante tá dormindo com metade de Kington. Isso não é novidade."

Fiquei absolutamente imóvel. Havia uma cabine bem na minha frente. Entrei, tranquei a porta, sentei na tampa fechada e respirei.

Eles não estão falando do meu Dante. É um nome comum. Não significa nada.

Então o telefone de uma delas tocou, e o tom da discussão mudou completamente.

"VOCÊ TÁ FALANDO SÉRIO? Por que o Dante tá te ligando agora? Por que ele sequer tem o seu número?"

"Me solta…"

O som de um tapa. Um suspiro engasgado. E então, de repente, as duas começaram a gritar, o som de uma briga de verdade — corpos batendo na bancada, os sapatos de alguém rangendo no piso.

"Ele é MEU, Priscilla…"

"Seu? Ele me passou sífilis! SEU ex-namorado te passou sífilis e você passou pro Dante e agora eu tô com isso por SUA causa, sua…"

A palavra me acertou em algum lugar atrás do esterno.

Sífilis.

A minha receita. No porta-luvas. A que eu vinha renovando toda vez que o Dante voltava de uma viagem de negócios nos últimos três anos.

Sentei na tampa fechada do vaso, num banheiro de hospital, e entendi, devagar e por inteiro, algo que eu vinha escolhendo não entender havia muito tempo.

Não era uma fase ruim.

Nunca tinha sido uma fase ruim.

Não sei por quanto tempo fiquei sentada ali. Tempo suficiente para a briga acabar, para uma delas começar a chorar, para a outra bater a porta ao sair.

Tempo suficiente para o silêncio ficar insuportável.

“Encare seus medos.”

Isso era do podcast.

“Quanto mais você se esconde, menor você fica.”

Destranquei a porta da cabine. Empurrei e abri.

A que ficou — a que estava chorando — estava de pé diante da pia, a máscara destruída, e levantou o olhar quando me ouviu e ficou completamente rígida. Ela me reconheceu como a esposa do homem por quem ela e a amiga tinham acabado de brigar. Eu vi o instante exato em que aconteceu — o jeito como a cor sumiu do rosto dela, o jeito como a boca se formou num pequeno O, horrorizado.

Caminhei até a pia ao lado dela.

Abri a torneira. Lavei as mãos. Apertei o dispensador de sabonete duas vezes e esfreguei até fazer espuma e enxaguei, e fiz tudo isso com o cuidado metódico de alguém que estava se mantendo inteira pela simples atenção às tarefas pequenas.

No espelho, eu conseguia vê-la me observando. Paralisada. Esperando que eu gritasse, talvez. Ou chorasse. Ou desabasse de vez.

Sequei as mãos.

Peguei meu pó compacto e ajeitei a maquiagem. Ao longo dos anos, eu tinha ficado muito boa nisso — preenchendo os borrões, alisando as provas. Dois anos atrás, tinha saído uma foto minha, correndo perto do nosso prédio. Alguém a tirou sem eu saber e postou na internet com a legenda: quando você casa por dinheiro, mas não pode pagar rímel. Aquilo viralizou um pouco em certos círculos. Dante mencionou uma vez, durante o jantar, com um sorrisinho.

Desde então, eu nunca saía de casa sem estar impecável.

Fechei o compacto com um estalo.

Saí sem dizer nada.

No corredor, soltei um suspiro que parecia estar se acumulando havia horas. Minhas pernas estavam bambas. Minhas mãos não paravam de tremer.

Mas eu não me escondi. Eu não chorei na frente dela. Eu não pedi desculpas por estar ali.

Era uma coisa tão pequena, tão ridícula, para se sentir orgulhosa.

Meu celular tocou enquanto eu voltava para o quarto da minha mãe. Era Tyler, meu incrível sogro.

— Shailyn, querida! Você vai estar no jantar hoje à noite, sim? Sete horas na mansão. A família toda.

Meu estômago se contraiu.

— Eu não sabia sobre…

— Dante não te contou? Ah, esse garoto. — Ele estalou a língua. — Você consegue pegar aquela bebida de ginseng no caminho? A mistura de ervas, você sabe qual é.

— Claro — eu disse. — Estarei lá.

Encerrei a ligação.

É claro que Dante não tinha me contado. Por que contaria? Me dizer as coisas exigia reconhecer que eu existia, e reconhecer que eu existia exigia um nível básico de consideração que ele não demonstrava havia anos.

Beijei a testa da minha mãe. Ela se mexeu, mas não acordou. Enfiei o envelope ainda mais fundo na bolsa — eu ia ler aquilo hoje à noite, prometi a mim mesma, quando tivesse privacidade e silêncio — e dirigi até o shopping.

✦ ✦ ✦

A loja de ginseng era pequena e aconchegante, enfiada no canto da ala leste do shopping, perfumada com ervas secas e um aroma amadeirado por baixo. Encontrei a marca do Tyler rapidamente — eu já tinha comprado aquilo vezes o bastante para saber exatamente onde ficava na prateleira — e me virei para o caixa.

Eu não o vi até trombar direto com ele.

A colisão arrancou o ar dos meus pulmões. A garrafa voou das minhas mãos, bateu no chão e explodiu — vidro e líquido âmbar se espalhando num arco largo pelo piso, brilhando sob a iluminação quente da loja.

— Ai, meu Deus, eu…

Levantei os olhos e o pedido de desculpas morreu por completo.

O homem com quem eu tinha esbarrado era… de tirar o fôlego. Alto, de ombros largos, com maçãs do rosto marcadas e olhos escuros que pareciam olhar através de mim. Tatuagens subiam debaixo da gola, envolvendo o pescoço como serpentes.

Ele olhou para a garrafa quebrada. Depois para mim.

E então simplesmente… foi embora.

Sem desculpas, sem sequer me reconhecer. Absolutamente nada.

Uma raiva ardente explodiu no meu peito; eu já tinha passado por coisa demais num dia só. Antes que eu conseguisse me conter, gritei:

— Pare aí!

A loja inteira ficou em silêncio. As pessoas se viraram para olhar.

E, para meu choque… ele parou.

Meu coração martelava enquanto ele se virava devagar, uma sobrancelha arqueada. Aqueles olhos escuros se fixaram em mim com uma intensidade que deixou meus joelhos fracos.

“E agora, Shailyn? Que diabos você faz agora?”

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