Capítulo 3 #3
Capítulo 3
~ Shailyn ~
“Dwayne”, disse Tyler com cordialidade, e Dwayne se inclinou para abraçá-lo. “Bem-vindo de volta para casa, meu filho.”
Dwayne.
Não, não, não.
O homem do ginseng era o Dwayne? O irmão do Dante? O irmão que eu nunca tinha conhecido? O irmão que eu devia odiar?
Ele soube desde o início, naquela loja; soube exatamente quem eu era.
Que se foda ele.
“Você deve ser Shailyn”, ele disse, com aquela mesma voz grave, um rumorejo baixo que tinha me desarmado mais cedo. “A esposa do meu irmão.”
O jeito como ele disse esposa, como se fosse uma pergunta, não um fato.
“Eu… sim.” Forcei a palavra a sair. “Prazer em conhecer você.”
“É mesmo?”, ele perguntou, suave.
Dante bateu a mão na mesa. “Dá pra gente comer logo?”
Mas Dwayne não se mexeu. Apenas continuou me olhando com aqueles olhos escuros e indecifráveis, e eu me senti presa no lugar, como uma borboleta sob vidro.
Por fim, ele se virou para Dante, que ainda estava teimosamente sentado na cadeira que o pai tinha mandado ele não pegar. “Sai.”
“Vai se foder.”
“Dante!”, Tyler repreendeu, ríspido.
Dante empurrou a cadeira para trás e foi para o outro lado da mesa, a expressão retorcida de raiva. Dwayne deslizou para o assento ao lado do pai — o assento que tinha sido de Dante por cinco anos — e pegou o guardanapo como se nada tivesse acontecido.
Como se ele não tivesse acabado de virar tudo de cabeça para baixo.
Eu não conseguia parar de encarar. O jeito como ele se movia, pura força controlada.
Ele olhou para mim de novo e, dessa vez, eu vi com clareza.
Diversão.
Ele estava gostando daquilo.
“Então”, disse Cynthia, tensa, quebrando o silêncio. “Quanto tempo você vai ficar, Dwayne?”
“O tempo que for preciso”, ele respondeu.
“O tempo que for preciso para quê?”, Monica exigiu.
Dwayne abriu um sorriso lento, perigoso, que me arrepiou inteira.
“Para tomar de volta o que é meu.”
Meu coração disparou. Tyler pigarreou, chamando a atenção de todos.
“Eu queria a família toda reunida para anunciar isso antes de eu contar ao conselho.” Ele pousou o garfo com um cuidado deliberado. “Vou me afastar do cargo de presidente do conselho da SentientIQ.”
“O quê?”
A palavra explodiu de três bocas ao mesmo tempo — Dante, Cynthia e Monica. Eu fiquei paralisada, a cabeça girando.
Só Dwayne permaneceu calmo, cortando o bife como se Tyler tivesse acabado de comentar sobre o tempo.
“Tenho idade suficiente para me aposentar”, continuou Tyler, com uma risadinha. “E estou esperando netos de Dante e Shailyn em breve, então é melhor eu descansar agora antes que bebês chorando me mantenham acordado.”
Ele olhou para mim, com os olhos calorosos e cheios de expectativa.
Eu forcei uma risada, o som sufocado e falso.
Netos. Com Dante.
Um ano atrás, eu talvez acreditasse que isso era possível. Um ano atrás, eu ainda achava que Dante me amava em algum lugar lá no fundo, que talvez a gente pudesse consertar aquilo. Mas agora? Depois de tudo que eu tinha descoberto naqueles podcasts, depois de ver como ele me tratava sem a menor misericórdia...
Dante nunca ia querer uma família comigo. Eu era só… conveniente. Um meio para chegar a um fim.
E, ainda assim, apesar de saber disso — apesar das traições, das infecções e da humilhação — uma parte de mim ainda queria acreditar. Ainda queria me considerar sortuda só por ser a Sra. Belmar.
‘Por que eu não consigo deixar isso pra lá?’
“Então”, Tyler continuou, “depois de dois anos provando seu valor como vice-presidente do conselho, Dwayne vai assumir o meu lugar como presidente do conselho da SentientIQ.”
“O quê?”
Outro coro de choque. Desta vez, minha voz se juntou às outras, mas mais baixa, mais sutil, porque eu tinha aprendido há muito tempo a não abrir a boca na família Belmar. Mesmo assim, a palavra escapou.
Dante se levantou num pulo. “O que isso quer dizer, pai?”
Tyler deu uma mordida na carne, impassível. “Bem, Dwayne desenvolveu o X-Intel.”
Dante despencou de volta na cadeira como se tivessem cortado as cordas dele.
“Ele desenvolveu o X-Intel?”
As palavras explodiram de mim antes que eu pudesse contê-las, mais alto do que eu pretendia. Choque e assombro tingiam minha voz.
Todas as cabeças se viraram para mim. Mas eu só notei um único par de olhos.
Os de Dwayne.
Eles se fixaram nos meus, escuros e intensos, e eu não consegui desviar o olhar.
X-Intel. A X-Intel. O modelo de IA sobre o qual todo mundo no mundo da tecnologia não parava de falar, aquele que fazia o H-GPT parecer uma calculadora. Eu vinha acompanhando o desenvolvimento obsessivamente, morrendo de curiosidade para saber quem estava por trás.
E era ele?
— Sim, Shailyn — disse Tyler, com orgulho evidente na voz. — Foi ele. E é realmente revolucionário. Ele vai lançar sob a SentientIQ, e...
— Eu não acredito nisso, pai. — A voz de Dante falhou. — E o H-GPT?
— H-GPT é passado. Já se passaram cinco anos. Não dá para continuar remoendo o passado. — Tyler fez um gesto displicente com o garfo. — O mercado precisa de algo novo. Algo que mude tudo.
Os olhos dele brilharam com aquele entusiasmo implacável que eu já tinha visto antes, o mesmo olhar de quando ele fez de Dante o CEO. Tyler Belmar era um homem de negócios primeiro, pai em segundo. Sentimento não significava nada para ele.
O olhar de Dante foi direto para mim.
Eu entendi na hora. “A gente precisa conversar.”
Meu estômago afundou.
O resto do jantar passou num silêncio tenso, interrompido apenas pelo tilintar dos talheres enquanto Tyler e Dwayne comiam, completamente indiferentes ao caos que tinham acabado de soltar sobre nós.
Eu belisquei a comida, sem apetite. Minha mente voltava sempre ao mesmo pensamento: H-GPT, a minha criação, o código que eu tinha construído a partir do trabalho do meu pai, estava sendo descartado e substituído.
Não devia doer. Eu tinha dado aquilo para Dante, estupidamente. Eu nunca tinha recebido crédito por isso mesmo.
Mas doía. Doía pra caralho.
— Shailyn.
Ergui o olhar. Dante estava ao lado da mesa, a expressão tensa.
— Eu preciso falar com você. Agora.
Um arrepio desceu pela minha espinha. Eu conhecia aquele tom. Eu sabia o que vinha.
— Com licença — murmurei, forçando um sorriso sem jeito ao me levantar.
Eu sentia os olhos de Dwayne em mim enquanto eu seguia Dante para fora da sala de jantar, queimando nas minhas costas. Mas eu não ousei olhar para ele.
…
Dante me levou ao seu quarto na mansão, o quarto em que costumávamos ficar durante os feriados ali.
A porta se fechou com um clique atrás de nós.
— A gente precisa fazer alguma coisa, Shailyn.
Ele andava de um lado para o outro, as mãos passando pelo cabelo. Eu vi medo de verdade nos olhos dele. Medo de o irmão tomar tudo. Medo de ficar com nada.
— O quê? — perguntei, já me preparando.
“Diz não. Seja o que for que ele peça, diz não. Você não é capacho.”
— A gente precisa desenvolver outro modelo. Algo melhor do que a X-Intel. A gente precisa...
— Não.
A palavra saiu limpa e cortante.
Dante parou de andar. Virou-se para me encarar.
— O quê?
— Eu disse não. — Minhas mãos tremiam, mas eu mantive a voz firme. — Eu não vou desenvolver nada para você, Dante. Eu sou só uma depuradora, lembra?
A voz do narrador do podcast ecoou na minha cabeça: “Mantenha sua posição. Sem concessões. Você não é capacho.”
Aquilo foi a coisa mais ousada que eu já tinha feito. Três vezes num único dia — o banheiro, a loja de ginseng, e agora isso.
Talvez eu estivesse mesmo mudando.
Dante soltou uma risada de desprezo, a incredulidade estampada no rosto.
— Você está brincando.
— Não estou.
Por um instante, nós só nos encaramos. Então a expressão dele se endureceu, virando algo frio e perigoso.
Ele se moveu tão rápido que eu não tive tempo de reagir.
Num segundo, ele estava do outro lado do quarto. No seguinte, as mãos dele estavam nos meus ombros, me arremessando contra a parede. Uma dor subiu pela minha coluna.
— Você é minha esposa — ele sibilou, o rosto a centímetros do meu. — Você vai fazer o que eu mandar. Você vai me apoiar e desenvolver um modelo melhor para me fazer presidente do conselho. Entendeu?
Eu quase me mijei.
