Capítulo 4 #4
Capítulo 4
~ Shailyn ~
Eu me encolhi, tentando me desvencilhar do aperto dele, mas os dedos se cravaram ainda mais nos meus ombros. Ele era muito mais forte do que eu.
— Jesus Cristo, Shailyn! — ele me soltou de repente, passando as mãos pelo cabelo. — Isso é por causa do que aconteceu no escritório?
“O que aconteceu no escritório.”
Como se tivesse sido só um pequeno inconveniente. Como se ele não tivesse continuado transando com aquela secretária mesmo depois de eu ter entrado. Era isso que mais me chocava — não a traição em si, eu já estava acostumada. Mas o fato de ele nem ter parado. Nem ter perdido o interesse como antes.
Ele realmente já não se importava.
Eu devia estar louca. Eu tinha que pedir o impossível.
— Eu não vou desenvolver nada para você, Dante.
Ele me encarou como se eu tivesse criado uma segunda cabeça. Como se não conseguisse compreender que eu, a patética Shailyn capacho — ousaria falar com ele desse jeito.
Meu coração martelava contra as costelas, mas eu me obriguei a continuar. A fazer a coisa que eu tinha tido medo demais de fazer por anos. A coisa que eu sabia que precisava ser feita.
O casamento era para fazer as duas pessoas felizes. Mas o nosso? Eu só tinha sido feliz no começo, durante aquele único ano perfeito em que Dante me bombardeou de amor até eu acreditar que eu importava. Depois disso, ele ficou frio.
Era hora de acabar com aquilo.
— Eu quero o divórcio, Dante.
As palavras ficaram suspensas no ar entre nós.
Por um instante, tudo ficou imóvel.
Então Dante agarrou a penteadeira e a arremessou do outro lado do quarto.
Ela se espatifou na parede, explodindo numa chuva de vidro, maquiagem e madeira quebrada. O barulho foi ensurdecedor. Eu tinha certeza de que a família inteira lá embaixo tinha ouvido.
— Vou fingir que não ouvi isso — disse ele, a voz mortalmente baixa.
Mas eu tinha ido longe demais para parar agora. Algo tinha mudado dentro de mim hoje, algo fundamental. Cada vez que eu me defendia, ficava mais fácil. Como se a autoconfiança fosse um músculo que eu finalmente tivesse começado a exercitar.
— Você ouviu — eu disse, a voz tremendo, mas firme. — Mas se não ouviu, eu digo de novo. Eu vou me divorciar de você, Dante.
O olhar que ele me lançou então... eu não consegui compreender.
— O que deu em você, Shailyn?
Ele veio na minha direção e, dessa vez, eu tentei correr. Mas ele foi mais rápido.
As mãos dele se fecharam ao redor do meu pescoço.
Eu engasguei, os dedos arranhando os pulsos dele enquanto ele apertava. Pontos dançavam na minha visão. Eu não conseguia respirar. Não conseguia gritar.
“É isso. É assim que eu morro.”
Toda aquela confiança, todas aquelas atitudes ousadas... iam ser o meu fim.
Ninguém ia me salvar. Tyler estava lá embaixo, na cadeira de rodas, incapaz de subir as escadas para me salvar. Cynthia e Monica me odiavam. O mordomo não ousaria se meter.
Eu estava sozinha.
O quarto começou a desbotar, a escuridão se aproximando pelas bordas. O rosto da minha mãe passou como um lampejo pela minha mente.
A carta.
Meu Deus, a carta. Ela passou quase um ano escrevendo aquilo, e eu ia morrer sem ler. Eu ia morrer antes da minha mãe, que estava acamada desde o meu nascimento.
Criador, por favor. Me dê uma segunda chance.
Meus pulmões queimavam. Minha visão escureceu por completo.
Então, de repente… ar.
As mãos de Dante sumiram. Eu desabei no chão, arfando e engasgando, com a garganta em chamas.
Por entre a visão turva, vi Dante bater no chão ao meu lado.
E Dwayne agora estava em cima dele.
O punho dele acertou o rosto de Dante uma vez. Duas. Três.
— Para! — tentei gritar, mas minha voz saiu rouca, só um fiapo.
Ele não parou. Os punhos dele eram implacáveis, brutais. Sangue respingou pelo chão, pelos nós dos dedos dele, pelo rosto de Dante.
Ele ia matar o Dante.
Eu quis me mexer, impedir, mas meu corpo não obedecia. Eu só fiquei ali, arfando por ar, me odiando por ser tão inútil.
Passos trovejavam escada acima. O mordomo irrompeu pela porta, seguido por Monica e Cynthia.
— Parem ele! — Cynthia guinchou.
Foram necessários os três para arrancar Dwayne de cima. Mesmo assim, ele lutou contra eles, o peito subindo e descendo, os olhos escuros selvagens de tanta raiva.
— Seu filho da puta! — ele rosnou, tentando avançar em Dante de novo.
O sr. Harvey o segurou, o rosto marcado e austero.
Dante estava jogado no chão, sangue escorrendo do nariz, da boca. Então, inacreditavelmente, ele começou a rir.
O som era descontrolado, maníaco.
Dante cambaleou até ficar de pé, oscilando um pouco, e se virou para mim. O sangue escorria pelo rosto, mas ele estava sorrindo.
— Levanta — ele disse. — A gente vai pra casa.
— Pra você matar ela lá? — A voz de Dwayne era de aço. — Acho que não.
Ele se adiantou, se colocando entre Dante e eu.
Eu nunca tinha me sentido tão protegida na vida.
Dante soltou uma risada de desprezo.
— Dwayne. Depois de cinco anos sumido, você volta aqui pra roubar de mim? Não só a empresa, mas o quê… a minha esposa também? — Ele riu de novo, amargo e cruel. — Por que você se importa com o que eu faço com a minha esposa? Cuida da porra da sua vida!
As palavras pareceram cortar fundo. Dwayne ficou possesso e então se virou para mim com aqueles olhos escuros que tinham me deixado inquieta na loja de ginseng, os mesmos que me observaram durante todo o jantar.
— Você viria comigo? — ele perguntou, baixo. — Ou você quer que ele te mate?
