Capítulo 5 #5

Capítulo 5

~ Shailyn ~

Passos trovejavam escada acima. Mais funcionários apareceram, empurrando a cadeira de rodas de Tyler pela porta.

— Que diabos está acontecendo aqui? — a voz de Tyler ecoou pelo quarto enquanto ele absorvia a cena: os móveis quebrados, o sangue, o rosto machucado de Dante, eu no chão. — Não acredito que, logo no primeiro dia dessa reunião de família, vocês dois brigaram!

Os olhos dele encontraram os meus, suavizando.

— O que aconteceu com você, Lyn?

Abri a boca para falar, mas Cynthia me cortou.

— Ah, nada. — A voz dela era leve, desdenhosa. — Ela só tentou separar os dois e levou um empurrão. Só isso.

Ela baixou os olhos para mim, gelados.

— Vamos, levanta. O que você ainda está fazendo no chão, bancando a coitada?

Eu encarei Cynthia, chocada demais para dizer qualquer coisa.

A cabeça de Dwayne virou num estalo na direção da mãe, a descrença estampada no rosto. Ele olhou dela para mim, claramente esperando que eu me defendesse. Que eu contasse a verdade.

“Diz alguma coisa”, os olhos dele pareciam implorar. “Conta pra eles o que realmente aconteceu.”

Minha assinatura de confiança aparentemente tinha vencido. As palavras morreram na minha garganta, e eu só fiquei ali, sentada, como o capacho patético que todo mundo achava que eu era.

— Vamos, ajude-a a levantar — disse Tyler ao Sr. Harvey. — Leve-a para o meu quarto. Isso aqui está uma bagunça.

As mãos gentis do mordomo me ergueram do chão. Enquanto ele me conduzia até a porta, eu senti o olhar de Dwayne queimando em mim.

Ele provavelmente estava se perguntando como alguém podia ser tão idiota. Tão fraca.

Eu me perguntei a mesma coisa.

Uma semana depois

Meu celular vibrou pela centésima vez naquele dia.

Dante: Por favor, volta pra casa

Dante: Shailyn, me desculpa. Eu não quis dizer isso

Dante: A gente precisa conversar sobre isso

Dante: Para de ser infantil e volta

Eu silenciei o telefone e o joguei no sofá gasto.

Eu tinha saído da mansão dos Belmar no meio da noite, ainda usando minha camisola. Dante tinha pegado minha bolsa com meus cartões, meu carregador de celular e, pior de tudo, a carta da minha mãe, e levado de volta para nossa vila. Quando ele foi à mansão na manhã seguinte para me buscar, eu já tinha sumido.

Eu tinha corrido para o único lugar cuja existência Dante não conhecia: a casa da minha família nos arredores de Kington.

Ele não sabia nada sobre a minha família. Ele tinha conhecido minha mãe exatamente uma vez, durante o nosso primeiro ano de casamento; ela estava dormindo, e ele ficou menos de cinco minutos antes de inventar uma desculpa para ir embora.

Cinco anos de casamento, e ele nunca se deu ao trabalho de descobrir de onde eu vinha.

Eu não sabia por que tinha fugido. Acho que eu só estava com medo de encarar Dante depois de ter mostrado toda aquela confiança. Com medo do que ele poderia fazer.

Então eu me escondi.

— Ei, maninha!

Eu me encolhi com a voz de Max antes mesmo de ele aparecer no batente da porta. Meu primo — filho da tia Patricia — tinha vinte e nove anos, só onze meses mais velho do que eu, mas agia como se a diferença fosse de uma década. Ele era tudo o que eu não era: barulhento, grosseiro, cheio de direitos.

— Quando é que você vai voltar pro seu marido bilionário? — Ele se jogou ao meu lado, os pés subindo imediatamente para cima da mesinha de centro. — Eu preciso do meu dinheiro de volta.

— Logo — murmurei.

Sem meus cartões, Max vinha “generosamente” bancando tudo — compras, contas, os cigarros dele — e me lembrando disso o tempo todo. A tia Patricia estava no hospital com a mamãe, cuja saúde tinha piorado rápido naquela semana inteira.

Eu precisava voltar. Eu sabia disso. Eu não aguentaria mais uma semana aqui, e eu já tinha perdido uma semana de trabalho.

Mas toda vez que eu pensava em encarar Dante, minha garganta apertava. Eu ainda conseguia sentir as mãos dele ao redor do meu pescoço.

— Na verdade — disse Max, tirando o celular do bolso. — Consegui ingressos pra um clube de máscaras no centro. Minha namorada deu pra trás, então você devia ir comigo.

— Um clube de máscaras? — franzi a testa. — Max, eu não acho...

— Ah, qual é. Faz quanto tempo que você não faz algo divertido? Algo espontâneo? — Ele abriu um sorriso. — Não é isso que esses podcasts de autoajuda que você vive ouvindo dizem? Tentar coisas novas?

Ele não estava errado. Os podcasts diziam isso mesmo. Fazer algo novo aumenta a confiança. E Deus sabia que eu precisava de toda a confiança possível antes de encarar Dante de novo.

— Tá bom — eu disse. — Mas só por algumas horas.

....

O clube de máscaras era como nada que eu já tivesse visto.

Luzes vermelhas banhavam tudo de carmim. Máquinas de fumaça despejavam névoa pela pista de dança. Dezenas de portas alinhavam as paredes, cada uma levando pra Deus-sabe-onde. E todo mundo usava máscara. Umas elaboradas, outras simples, máscaras que cobriam o rosto inteiro ou só os olhos.

A minha era simples: renda preta cobrindo a metade superior do meu rosto. Max tinha me entregado no carro com uma piscadela.

Dois minutos depois de entrarmos, ele sumiu.

Típico.

Fui até o bar, de repente me sentindo muito sozinha e completamente deslocada. Pedi um drinque, algo frutado e forte... e tentei não pensar em como Dante reagiria se soubesse que eu estava ali.

Quem se importa com o que Dante pensa?

Dei um gole longo, deixando o álcool descer queimando pela minha garganta.

O homem ao meu lado se mexeu, e eu olhei de relance. Era alto, de ombros largos, usando um terno caro e uma máscara preta elegante que cobria a maior parte do rosto. Mas havia algo nele... familiar.

O jeito como ele se portava. A linha dos ombros.

Eu me peguei encarando.

— Quer pegar um quarto comigo? — ele perguntou de repente, sem olhar pra mim.

A voz dele. Meu Deus, a voz dele.

Eu conhecia aquela voz, mas não podia ter tanta certeza; a música estava alta.

— Sim — eu disse antes de conseguir me impedir.

Então ele virou o rosto pra mim, claramente não esperando aquela resposta.

— Eu estava brincando.

Ele deu um gole na bebida, me dispensando.

A decepção me atingiu, seguida de vergonha. Soltei uma risada desconfortável, levando a mão ao meu copo.

Mas então ele olhou pra mim de novo, os olhos escuros me analisando por trás da máscara.

— Eu te conheço? — ele perguntou.

Eu ri... um som bêbado, inconsequente.

— Não sei. Você está usando uma máscara.

O silêncio se esticou entre nós. A música continuava martelando.

— Ainda quer pegar um quarto? — ele perguntou, baixo.

Minha respiração prendeu com o convite e, sinceramente, podia ser a bebida, mas eu queria aquilo demais.

Eu assenti.

Ele se levantou e estendeu a mão. Eu peguei; os dedos dele, quentes e fortes em volta dos meus, e deixei que ele me conduzisse pela multidão. Meu pulso trovejava nos ouvidos.

Eu só estou tentando algo novo. Construindo confiança. Isso vai me ajudar a superar Dante. Isso vai me ajudar a levar o divórcio adiante.

Ele falou com alguém perto do corredor dos fundos e recebeu uma chave. Então seguimos por um corredor mal iluminado, passando por porta após porta, até ele parar diante de uma e destrancá-la.

Entramos.

Ele trancou a porta atrás de nós, cortando a música pulsante do clube. O silêncio repentino foi ensurdecedor.

— Quer tirar as máscaras? — ele perguntou.

Agora, no silêncio relativo, eu conseguia ouvir a voz dele com clareza.

Não havia dúvida.

Era a voz de Dwayne.

Meu coração parou, mas existe a possibilidade de duas pessoas terem vozes parecidas, certo?

Mas então ele começou a desabotoar a camisa, e eu vi as tatuagens subindo do peito, serpenteando pela clavícula em padrões que eu tinha memorizado num jantar uma semana atrás.

Era ele.

Meu Deus. Eu estou prestes a dormir com o irmão do meu marido.

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