Capítulo 1 Prólogo 1.0 Morgana Ávila
A minha vida nem sempre foi um mar de rosas.
Sempre trabalhei muito para chegar onde cheguei. Sou formada em Bioquímica e posso afirmar que amo o que faço.
Mas nem tudo acontece como eu planejei.
Assim que consigo entrar para a faculdade, descubro minha gravidez.
No começo, fico desesperada. Não sei se consigo dar conta da faculdade, do trabalho e de um bebê ao mesmo tempo. E, para piorar a situação, o homem de quem engravidei havia ido fazer um intercâmbio. Acabo enfrentando toda a gestação sozinha.
Infelizmente, moro longe da minha família, o que torna tudo ainda mais difícil. Voltar para a casa dos meus pais não é uma opção naquele momento. Tenho sonhos, objetivos e uma vida que preciso construir.
Então sigo em frente.
São anos de uma jornada tripla entre estudos, trabalho e maternidade.
Há dias em que acho que não consigo.
Noites em que durmo apenas algumas horas.
Momentos em que choro escondida por medo de fracassar.
Mas basta olhar para meu filho para encontrar forças novamente.
Não posso desistir.
Quero me tornar uma profissional reconhecida, construir uma carreira sólida e dar ao meu filho tudo aquilo que ele merece.
E foi exatamente isso que faço.
Quando finalizo a faculdade, consigo uma oportunidade na melhor empresa do setor. Meu talento é reconhecido rapidamente, e mergulho de cabeça no trabalho.
Mas, acima de tudo, me dedico ao meu pequeno.
Pietro é a coisa mais importante da minha vida.
É o sorriso dele que me dá forças para enfrentar qualquer obstáculo.
É o abraço dele que me lembra diariamente por que continuo lutando.
Ele é o meu mundo.
Quando Pietro completa cinco anos, jamais imagino que a nossa vida mudaria tão drasticamente.
Tudo começa com uma ligação da escola, depois de uma queda aparentemente simples durante o recreio.
Corro para buscá-lo acreditando que encontrarei apenas alguns arranhões e um susto passageiro.
Mas os exames solicitados pelos médicos acabam revelando algo muito maior.
Lembro como se fosse ontem do momento em que o médico entra na sala com os resultados nas mãos.
O aperto no meu peito é imediato.
Sei que algo está errado.
Desde aquele dia, a palavra normalidade deixa de fazer parte da nossa rotina.
Consultas, exames, medicamentos e noites em claro passam a fazer parte da nossa vida.
Ver meu filho tão pequeno enfrentando algo tão grande é uma dor que jamais imaginei conhecer.
Em meio ao trabalho e aos cuidados com Pietro, não tenho mais tempo para nada.
Há dois meses recebi um destaque pelo reconhecimento do meu trabalho, e meu chefe me convidou para participar de um importante congresso.
Era uma oportunidade incrível para minha carreira.
Mas, naquele momento, nenhuma conquista profissional era capaz de ocupar mais espaço no meu coração do que a preocupação constante com meu filho.
Na última consulta, Pietro precisou realizar exames ainda mais detalhados para que os médicos avaliassem como seu organismo estava reagindo ao tratamento.
Rezo todos os dias para que os resultados sejam positivos.
Só quero ver meu pequeno correndo pela casa sem sentir dores.
Quero ouvi-lo reclamar dos brinquedos espalhados pela sala, fazer bagunça e me deixar louca como qualquer criança da sua idade.
Mas, ultimamente, o brilho dos seus olhinhos anda mais apagado.
Há dias em que ele parece cansado demais para brincar.
E toda vez que isso acontece, o medo aperta meu peito de uma forma sufocante.
Porque, por mais forte que eu tente ser, existem noites em que me tranco no banheiro apenas para chorar sem que ele me veja.
Mas não posso quebrar.
Não na frente dele.
Não quando ele precisa que eu seja forte.
Mais do que nunca.
Já estou com as malas prontas e combino de levar Pietro e minha amiga Manu comigo.
Manu é a babá do Pietro desde que ele nasceu.
Posso dizer, sem exagero algum, que ela foi um anjo enviado por Deus para nossas vidas.
Esteve ao meu lado nos momentos mais difíceis, me ajudou quando precisei trabalhar, estudar e cuidar do meu filho ao mesmo tempo. E, mesmo depois de todos esses anos, continua ao nosso lado.
Vamos de carro para a cidade vizinha.
Pietro adora viajar de carro, mesmo que fique um pouco cansado durante o trajeto.
Quando saio de casa, Manu já está acomodada no banco de trás ao lado dele.
Meu pequeno está animado, observando tudo pela janela.
Sorrio ao vê-lo tão feliz.
Era por momentos como aquele que eu continuava lutando.
Estou prestes a entrar no carro quando meu celular toca.
Olho para a tela e franzo a testa ao ver um número desconhecido.
Atendo sem pensar muito.
— Alô?
— Estou falando com a Morgana? — pergunta uma voz masculina do outro lado da linha.
Por alguns segundos, demoro para reconhecer.
Mas então meu corpo inteiro fica tenso.
— Sim, sou eu mesma. Vinícius? É você?
— Sim, sou eu. Você me enviou uma carta e não compreendi direito. Pode me explicar?
Minha testa se franze imediatamente.
Como assim não compreendeu?
— Sim, eu te enviei uma carta explicando sobre a minha gravidez.
Do outro lado da linha há um breve silêncio.
Então ele solta uma risada sem humor.
— Isso é impossível, Morgana. Eu sempre tive cuidado. Você deve estar enganada.
Meu sangue ferve.
Depois de tantos anos, essa é a primeira reação dele?
Negar?
— Vinícius, para de ser babaca. Não estou enganada e sei muito bem quem é o pai do meu filho. Agora, se você não é homem suficiente para aceitar a realidade, não posso fazer nada.
Ele suspira pesadamente.
— Só liguei para pedir que você pare de me enviar essas cartas. Não quero filho com ninguém, e muito menos com você.
Por alguns segundos fico sem reação.
Não porque aquelas palavras me machucam.
Mas porque, depois de tantos anos, ele continua sendo incapaz de enxergar além do próprio ego.
Meu filho enfrenta uma batalha diária.
Meu filho passa por consultas, exames e tratamentos.
Meu filho luta para ter uma infância normal.
E aquele homem sequer foi capaz de perguntar o seu nome.
A indignação toma conta de mim.
— Não se preocupe, babaca. Meu filho não precisa de um pai como você. Garanto que sou suficiente para ele!
Desligo antes que ele possa responder.
