Capítulo 10 Bônus capítulo 4.1 Theodoro Ventura

Não. Não posso me deixar influenciar por isso. Negócios são negócios. Sentimentos nunca trouxeram bons resultados.

Agora você não me escapa, Morgana Ávila.

Chego em casa e vou direto ao escritório. Sirvo-me de uma dose, abro o notebook e acesso o e-mail de Lucca.

Leio cada ponto destacado em negrito.

Volto a analisar o relatório. Cada página parece revelar uma nova versão daquela mulher.

Mãe solteira.

Profissional reconhecida.

Sem apoio da família.

Sem o pai da criança.

Como alguém consegue carregar tanto peso sozinha?

A pergunta surge antes que eu possa impedir. Rapidamente a afasto. Aquilo não deveria me interessar.

Fecho o notebook — não antes de enviar um e-mail ao médico nos Estados Unidos.

Após o jantar, tento retomar a rotina. Analiso contratos, respondo e-mails, revejo relatórios.

Nada funciona.

A imagem de Morgana continua voltando. O olhar. A indignação. A forma como me enfrentou sem demonstrar medo.

Procuro uma distração — como tantas outras vezes.

Não resolve.

Porque, pela primeira vez em muitos anos, o problema não é desejo. É frustração.

Passo a madrugada sem conseguir tirar aquela mulher da cabeça, e isso me deixa ainda mais irritado. Não estou acostumado a perder. E muito menos a ser ignorado.

Uma única certeza permanece: Morgana Ávila se tornou um problema. E eu ainda não sei o que fazer com isso.

Chego ao escritório e, antes mesmo de me sentar, Lucca entra.

Preciso conter o sorriso ao vê-lo com a roupa completamente manchada.

— Pelo menos antes de vir trabalhar você poderia tomar um banho.

Ele me lança um olhar capaz de matar.

— Eu tomei banho.

Cruzo os braços.

— Então resolveu se jogar em uma poça de lama no caminho?

— Não. Isso aqui foi obra da senhorita Ávila.

Meu interesse desperta imediatamente.

— Explique.

— Fui até a casa dela como você mandou. Me apresentei, disse que tinha uma proposta do interesse dela e entreguei o contrato.

Ele respira fundo.

— Ela nem me deixou entrar. Pegou os papéis e fechou a porta na minha cara.

— E depois?

— Voltou segurando uma tigela com alguma mistura e jogou tudo em mim. E ainda avisou que, se eu aparecesse novamente, da próxima vez seria água fervendo.

Não consigo conter uma risada curta.

— Ela fez isso?

— Fez.

Apoio os cotovelos na mesa.

Morgana definitivamente não é como as outras. Quanto mais resiste, mais quero entender o que há por trás daquela muralha.

— Sobre a casa — já fiz uma contraproposta ao comprador atual. Estou aguardando retorno para fechar.

— Certo. Me envie uma cópia do contrato. Pode ir.

Ele sai. Volto ao trabalho.

Quando você quer algo bem feito, faça você mesmo.

O dia se arrasta entre reuniões. Uma delas se estende muito além do necessário — faz uma bagunça absurda na minha agenda e me obriga a remarcar compromissos. Pelo menos o contrato foi fechado.

Quando volto à empresa, o diretor financeiro já está me esperando. Assim que ele sai, Lucca entra para me lembrar de um evento naquela noite — preciso comparecer, pelo menos para marcar presença. Aviso que fico no máximo vinte minutos.

Minha assistente entra em seguida.

— Senhor Ventura. A senhorita Ávila está aqui. Não tem hora marcada, mas diz ser urgente.

Olho para a mesa. Para o copo. Para o contrato impresso que Lucca enviou mais cedo.

— Peça para aguardar. Vou atendê-la.

Faço a impressão do contrato, leio com atenção, deixo o papel virado sobre a mesa e peço a Verônica que libere a entrada.

Quando a porta se abre, ergo os olhos.

Por alguns segundos, apenas a observo.

Há algo diferente nela. Algo que não estava ali da última vez.

Os olhos vermelhos. O rosto abatido. A postura ereta — mas sustentada com esforço. Ela esteve chorando.

E aquilo me causa um incômodo estranho.

Morgana sempre pareceu forte demais para quebrar. Mas agora vejo uma mulher tentando permanecer de pé enquanto o mundo desaba ao seu redor.

— Eu gostaria de falar com o senhor. — A voz dela está trêmula.

— Pode falar. — Indico a poltrona.

— Eu gostaria de saber se a proposta ainda está de pé.

Permaneço em silêncio por alguns segundos.

Era exatamente isso que eu queria ouvir. Então por que não sinto satisfação?

Ela não parece alguém que veio negociar. Parece alguém que ficou sem alternativas.

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