Capítulo 2 Prólogo 1.1 Morgana Ávila
Meu coração bate acelerado.
Que imbecil.
Depois de tantos anos, ele teve a coragem de me ligar apenas para negar aquilo que sempre soube.
Não que eu precise dele.
Nunca precisei.
Criei Pietro sozinha. Enfrentei noites sem dormir, contas acumuladas, provas da faculdade, jornadas exaustivas de trabalho e consultas médicas sem que ele estivesse presente uma única vez.
Mas ainda assim dói.
Não por mim.
Pelo meu filho.
Porque nenhuma criança merece crescer sabendo que foi rejeitada antes mesmo de ter a oportunidade de ser amada.
Engulo o choro que ameaça escapar.
Não posso deixar aquilo me derrubar.
Sou suficiente para o meu filho.
Sempre fui.
E continuarei sendo.
Respiro fundo algumas vezes até conseguir recuperar o controle.
Então entro no carro.
Assim que fecho a porta, ouço uma risada conhecida. Pietro está cantando alguma música com Manu.
Os dois parecem completamente distraídos.
E, naquele instante, todo o peso que carrego diminui um pouco.
— Canta, mamãe! — ele pede animado.
Imediatamente um sorriso surge no meu rosto.
Como aquele menino consegue iluminar até os meus piores dias?
— Mas é claro, meu amor!
Começo a cantar junto com ele enquanto Manu ri da nossa animação.
Pouco a pouco, a ligação de Vinícius vai ficando para trás.
Porque nada naquele mundo é mais importante do que aquele menino sentado no banco de trás.
Seguimos viagem pela rodovia enquanto cantamos e conversamos.
A viagem não demora muito, e logo chegamos ao hotel que reservei.
Assim que estacionamos, observo os olhos de Pietro brilharem ao encarar o prédio.
Aquilo arranca um sorriso sincero dos meus lábios.
Mesmo enfrentando tantas dificuldades, ele ainda consegue encontrar felicidade nas pequenas coisas.
E eu faria qualquer coisa para preservar isso.
Preciso deixá-lo instalado com a Manu antes de seguir para o congresso.
Ainda temos tempo para lanchar e descansar um pouco.
Se ele estiver disposto quando eu voltar, podemos passear pela cidade.
Fazemos o check-in e seguimos para o quarto.
— Mamãe, é grande! — Pietro exclama, observando tudo ao redor com encantamento.
Sorrio.
— É sim, meu amor. Agora vamos para o quarto. Você vai descansar com a tia Manu e, quando a mamãe voltar do trabalho, vamos fazer um passeio incrível. O que acha?
Ele abre um sorriso tão bonito que meu coração aquece.
— Super, mamãe!
Acabo rindo junto com ele.
Pego-o nos braços e seguimos para o elevador.
Assim que abro a porta do quarto e o coloco no chão, Pietro sai explorando tudo com a curiosidade típica de uma criança.
Enquanto Manu organiza as roupas, ligo para a recepção e peço um lanche.
Aproveito para dar banho nele.
Depois de algumas horas de viagem, quero que ele esteja confortável e descansado.
Quando saímos do banheiro, coloco seu pijama favorito.
Pouco depois, o lanche chega.
Peço para Manu ficar com ele enquanto tomo meu banho e me arrumo para o congresso.
Quando termino, encontro Pietro lutando contra o sono.
Os olhinhos estão pesados.
Os movimentos, mais lentos.
Aquilo faz meu coração apertar.
É impossível não notar o quanto ele se cansa mais facilmente agora.
Como alguma coisa rapidamente e então me aproximo da cama.
Por alguns segundos fico apenas observando meu filho.
Dormindo, ele parece ainda menor.
Tão inocente.
Tão frágil.
Passo os dedos pelos seus cabelos com cuidado.
Meu coração aperta imediatamente.
Farei qualquer coisa por aquele menino.
Qualquer coisa.
Se existir uma chance de vê-lo saudável novamente, encontrarei uma maneira.
Nem que precise mover o mundo inteiro.
Nem que precise enfrentar qualquer obstáculo que surja pelo caminho.
Inclino-me e deposito um beijo demorado em sua testa.
— A mamãe já volta, meu amor — sussurro.
Ele abre os olhos apenas o suficiente para me lançar um pequeno sorriso sonolento.
E aquilo quase é suficiente para me fazer desistir do congresso.
Mas preciso continuar trabalhando.
Preciso continuar lutando.
Por ele.
Afasto-me da cama e me viro para Manu.
— Vou deixar o celular no silencioso durante a apresentação, mas vou ficar atenta. Qualquer coisa, me liga imediatamente.
— Pode ficar tranquila, Morgana. Vou cuidar dele.
Sorrio agradecida.
— Obrigada.
— E boa sorte. Você merece esse reconhecimento.
Assinto.
Talvez ela tenha razão.
Mas, naquele momento, minha maior preocupação não é o congresso.
É deixar meu filho bem.
Despeço-me dos dois e sigo para o auditório.
Não vou mentir: estou animada.
Aquele congresso representa uma oportunidade importante para minha carreira. Novos contatos, conhecimentos, novas possibilidades. Mas também representa algo ainda mais importante — quanto mais eu crescer profissionalmente, mais condições terei de proporcionar o melhor tratamento possível para Pietro.
É por isso que estou aqui, é por isso que continuo lutando. Por ele.
Chego ao corredor do auditório tentando organizar mentalmente tudo o que preciso apresentar.
Apesar da ansiedade, estou confiante.
Conheço meu trabalho, sei do que estou falando. Tudo dará certo.
Foi então que meu celular volta a tocar.
Franzo a testa ao olhar para a tela.
Meu estômago revira imediatamente.
Vinícius.
De novo.
Por um instante, meu coração dispara.
Então percebo que ele não está fora do país. Está aqui.
Perto.
Uma sensação desagradável percorre meu corpo. Não posso permitir que esse homem apareça na vida do meu filho depois de todos esses anos apenas para machucá-lo. Pietro já enfrenta dificuldades demais.
Não precisa enfrentar mais uma rejeição.
Aperto o celular com força enquanto tento colocá-lo dentro da bolsa.
Foi quando acontece. Distraída, acabo trombando em algo ou melhor, em alguém.
Meu salto escorrega levemente no piso polido.
Por um segundo, tenho certeza de que irei ao chão.
Mas antes que isso aconteça, duas mãos firmes seguram minha cintura.
O mundo parece parar por um instante.
Meu corpo fica suspenso entre o equilíbrio e a queda.
Respiro fundo.
Quando ergo o rosto, encontro um par de olhos que me fazem esquecer momentaneamente qualquer pensamento. Olhos verdes acinzentados. Intensos. Observadores.
Há algo naquele olhar que imediatamente me coloca em alerta — como se aquele homem estivesse acostumado a enxergar muito além das aparências. Como se estivesse me analisando. Me estudando.
Seu maxilar é forte. Os traços, perfeitamente marcados. O terno impecável só reforça a imagem de alguém acostumado a comandar. Mas é a expressão séria que chama atenção.
Uma carranca permanente que faz qualquer pessoa pensar duas vezes antes de puxar conversa.
Por alguns segundos, fico presa naquele olhar.
Até perceber que ele continua segurando minha cintura.
Rapidamente me afasto.
Endireito a postura e ajo a roupa.
— Me desculpe. Eu estava distraída.
Minha intenção é encerrar aquilo e seguir para o auditório. Mas o desconhecido parece pensar diferente. Seu olhar percorre meu rosto por mais alguns segundos antes que ele finalmente fale.
— Veja se olha por onde anda.
Seu tom é frio. Controlado. Autoritário.
— Na próxima vez, vou deixar você cair.
Pisco algumas vezes. A irritação que vinha tentando controlar desde a ligação de Vinícius volta com força total. Quem aquele homem pensa que é?
Cruzo os braços.
— Obrigada por me alertar.
Ele arqueia uma sobrancelha.
— Mas isso não vai acontecer.
Seu olhar permanece fixo no meu.
— Não?
— Não.
Dou um sorriso educado — daqueles que escondem perfeitamente a vontade de mandar alguém para o inferno.
— Porque definitivamente não pretendo trombar com você outra vez. Babaca.
Viro as costas imediatamente e começo a caminhar em direção ao auditório. Mas posso sentir seu olhar me acompanhando.
E, por algum motivo estranho, aquilo me incomoda mais do que deveria.
Quem aquele homem pensa que é?
Apenas mais um executivo arrogante.
Era exatamente isso — ou pelo menos foi o que tento me convencer enquanto entro na sala do congresso.
Sem imaginar que aquele encontro mudaria completamente a minha vida.
