Capítulo 4 Capítulo 1.1 Morgana Ávila

Enquanto ele fala, minha cabeça já começa a pesar com tudo o que meu filho terá de enfrentar a partir de agora.

O Dr. Lemos me passa o nome do médico responsável pelo tratamento nos Estados Unidos. Sei que só a viagem sairá muito cara, e ainda terei de custear o tratamento intensivo, a cirurgia e o pós-operatório. Meu Deus. Precisaria de um milagre.

Só peço forças a Deus.

Preciso saber exatamente quanto terei de reunir e em quanto tempo — a doença está avançando. Se for preciso, venderei minha casa, meu carro e, se necessário, pedirei empréstimo no banco. Mas meu filho terá o tratamento de que precisa.

Engulo o choro e me sento na sala de espera. Não posso perder tempo. Entro em contato com o médico responsável por e-mail, tiro fotos de todos os resultados dos exames de Pietro e anexo o laudo do Dr. Lemos. Deixo meu nome completo, e-mail e telefone. Solto um suspiro e aperto enviar.

Agora só peço a Deus que respondam o mais rápido possível.

Pego minha agenda e, ali mesmo, começo a pesquisar sobre passaporte e todos os trâmites necessários para viajar com meu filho. Busco hotéis e hospitais, e começo a mapear opções de casa ou apartamento para alugar por dois meses — o tempo estimado de permanência. Acabo migrando para uma mesinha da lanchonete do hospital para me organizar melhor. Começo a fazer anotações e, só pelos preços que encontro, percebo que gastarei um valor absurdo apenas com moradia, fora as passagens e a alimentação.

E isso sem considerar o tratamento.

Após incansáveis horas pesquisando, me sinto esgotada. Deixo tudo anotado e começo a calcular o quanto conseguiria com a venda da casa e do carro.

O valor não cobriria nem os primeiros meses da nossa estadia.

Quanto mais pesquiso, mais desesperada fico. Passagens, hospedagem, alimentação, consultas, medicamentos, cirurgia. Tudo parece impossível.

Pela primeira vez desde o diagnóstico, sinto medo de verdade. Porque agora existe uma esperança — mas não sei como alcançá-la. E isso é cruel.

Fecho os olhos por alguns segundos.

Não.

Não posso desistir. Se for preciso vender tudo o que possuo, venderei. Se for preciso trabalhar dia e noite, trabalharei. Meu filho terá aquele tratamento. De alguma forma, encontrarei uma saída.

Saio do hospital completamente desnorteada. Em vez de seguir para casa, vou direto para a orla. Preciso respirar. Preciso colocar os pensamentos em ordem — ou talvez apenas precise de alguns minutos para me permitir sentir tudo aquilo.

Estaciono o carro e caminho até a areia. O som das ondas preenche o ambiente. O vento bagunça meus cabelos. Mas nada é capaz de aliviar o peso que carrego dentro do peito.

Sento e fico observando o mar.

As lágrimas finalmente escapam.

Estou com medo. Terrivelmente assustada. Porque pela primeira vez desde que tudo começou, não é apenas a doença que me assusta — é o tempo. Ele está correndo. E não sei se consigo acompanhar.

— Por favor, Deus... — sussurro.

Minha voz sai quebrada.

— Não tira meu filho de mim.

Fecho os olhos. Respiro fundo.

Encontrarei uma maneira. Não importa como. Não importa o preço. Meu filho é minha vida.

E lutarei por ele até o último segundo.

Depois de alguns minutos, decido voltar para casa. Sinto uma sensação estranha e olho ao redor, mas não vejo nada de mais. Sigo para o carro e dirijo no automático até chegar em casa.

Quando entro, encontro minha vida brincando com Manu. Esqueço por alguns instantes o peso do dia e me permito brincar com ele, mimá-lo, me dedicar inteiramente a ele.

Depois da nossa brincadeira, sugiro que façamos o jantar juntos e Pietro fica empolgado.

Fazemos uma porção de sanduíches em formato de diferentes desenhos. Após o jantar, preparo meu pequeno e o coloco para dormir, dessa vez na minha cama. Não sei se conseguiria deixá-lo no quarto dele esta noite.

Volto para a sala e explico tudo para Manu. Ela, sem hesitar, deixa claro que ficará ao meu lado até mesmo sem salário, se for preciso. Gosta demais do Pietro para ficar longe dele. Aquilo enche meu coração.

Sei que meu filho terá a ela também.

Meu celular apita. É uma notificação de e-mail.

Quase caio da cadeira quando vejo quem respondeu.

O médico. Com todos os detalhamentos que preciso saber. E uma informação que me aperta o peito: o caso de Pietro tem certa urgência. O tratamento precisa começar o quanto antes.

Abro o anexo com os valores.

Tratamento intensivo: $27.000,00

Cirurgia: $23.000,00

Pós-operatório e medicamentos: $10.000,00

Taxas extras (caso o paciente não responda bem ao tratamento): $7.000,00

Total: $67.000,00

Faço a simulação em reais.

Merda. Estou ferrada.

R$ 373.337,00

Continuo encarando aqueles números na tela. É como se estivessem zombando de mim.

Pela primeira vez em anos, me sinto completamente impotente. Encontrei a esperança que tanto procurava, mas ela custa mais do que possuo. Mais do que posso conseguir sozinha.

As lágrimas voltam a se acumular nos meus olhos.

Meu olhar segue para o corredor que leva ao quarto. Onde Pietro dorme tranquilamente. Sem imaginar a batalha que estou prestes a enfrentar.

Engulo o choro.

Aquele não é o fim. É apenas o começo.

E farei o impossível para salvar meu filho.

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