Capítulo 5 Capítulo 2.0 Theodoro Ventura

Estou perdido no meio da reunião.

A apresentação não me satisfaz. A responsável pelo setor de design não consegue responder com clareza nenhuma das perguntas feitas seja por mim, seja pelos acionistas. Cada vez que alguém questiona algo, ela começa a gaguejar. Não aguentando mais, levanto-me para encerrar aquilo.

— Senhor Ventura, a reunião ainda não acabou. Precisamos definir o design para que o senhor possa autorizar o desenvolvimento. — Lucca, meu assessor, diz preocupado. Sabe que vai acumular trabalho.

— Quando enviarem um funcionário que entenda do assunto e saiba se expressar, marcamos outra reunião. — falo, já saindo da sala.

Vou direto para o meu escritório. Lucca vem atrás.

— Theodoro, desse jeito não vamos finalizar o projeto. — ele diz, irritado com a perspectiva de mais um dia de atraso.

— Não me diga que você estava entendendo o que aquela mulher falava. Porque não acredito. Toda vez que alguém perguntava algo, ela gaguejava ou respondia de forma completamente incoerente. — Faço uma pausa. — Entre em contato com o setor e a demita. Não admito amadorismo na minha empresa. Pago muito bem para ter os melhores profissionais — mandar aquela apresentação para o presidente seria uma afronta. Meu tempo vale dinheiro.

— Eu sei. Mas se toda vez que uma mulher for te apresentar um trabalho você descarregar toda a sua raiva, não vai funcionar. Você precisa superar isso. Nem toda mulher é igual a ela.

— Nunca mais toque nesse assunto. Tenho os meus motivos. Agora, quero ficar sozinho.

Lucca me encarou por alguns segundos antes de suspirar.

Ele sabia.

Talvez fosse uma das poucas pessoas que realmente conhecesse os motivos por trás daquela reação.

Sem insistir, ele deixou a sala.

Assim que a porta se fechou, o silêncio tomou conta do ambiente.

Passei a mão pelo rosto.

Fazia anos.

E ainda assim bastava alguém tocar naquele assunto para que a ferida voltasse a sangrar.

A lembrança da traição continuava viva. Da perda que senti, sem ter tido sequer a oportunidade de conhecer.

Das mentiras.

Da humilhação.

Da sensação de ter sido feito de idiota.

Fechei os olhos por alguns segundos.

Desde aquele dia, aprendi uma lição.

Confiança era uma fraqueza. E eu nunca mais permitiria que alguém tivesse poder suficiente para me destruir daquela forma. Principalmente uma mulher.

Peguei outra dose de uísque e virei de uma vez.

O gosto amargo desceu queimando pela garganta.

Mas não era nada comparado ao gosto da traição.

Sem paciência alguma, volto ao trabalho.

Minha assistente entrega uma pasta com liberações para o financeiro. Assino os documentos com agilidade e a devolvo. Em seguida, ela me informa sobre um congresso — fui convidado a dar uma palestra sobre as tecnologias mais avançadas que oferecemos. É sempre uma boa oportunidade de visibilidade: saímos com destaque em inovação e qualidade. Confirmo a presença.

Amanhã cedo preciso ir até a cidade vizinha. Talvez seja bom sair um pouco.

Envio uma mensagem para Lucca me acompanhar. Sei que ele quer me ver voltar a ser o que era antes. Mas não estou preparado. Não estou disposto a passar por tudo aquilo novamente. Nenhuma mulher é digna da minha confiança. E nunca mais permitirei que uma chegue tão fundo.

Agora sou eu quem define as regras.

Passo o resto da tarde finalizando minha agenda e, sem paciência para mais nada, vou embora.

Optei por morar no campo, longe de tudo e de todos. Aqui me sinto bem — não preciso fingir educação. Os funcionários são discretos e sabem o quanto valorizo minha privacidade. Aqui, não admito erros.

Estaciono o carro e entro em casa. Não sou gentil com ninguém um simples aceno já é o suficiente como cumprimento.

Após o banho, pego o discurso que Lucca sempre prepara para as minhas palestras. Ele garante que tudo saia bem e desperte interesse real nas pessoas.

Na manhã seguinte, passo pela empresa para resolver algumas pendências e sigo para a cidade vizinha. Lucca me encontra lá para que possamos ir juntos e não percamos tempo.

Durante o trajeto, tento não pensar no quanto precisarei que aquele congresso seja rápido. Tenho compromissos e preciso voltar ainda hoje.

— Seria interessante o senhor permanecer na cidade por mais tempo. Os organizadores provavelmente vão querer aproveitar sua presença para falar mais sobre a empresa e despertar o interesse dos alunos pela área.

— Você sabe que não posso. Tenho compromissos importantes no horário do almoço. Preciso voltar antes.

— Entendido. Caso mencionem a possibilidade de estender, informarei que o senhor não terá disponibilidade. — ele diz, ciente do quanto seria prejudicial reagendar.

Chegamos ao local do evento.

Pego o celular para verificar as mensagens enquanto me dirijo ao auditório que Lucca indicou. Foi então que uma mulher esbarra em mim.

Segurei sua cintura antes que ela atingisse o chão.

Foi um movimento automático.

Mas quando ela ergueu o rosto para me encarar, algo estranho aconteceu. Por um instante, esqueci completamente minha irritação.

Era linda. Mas não era apenas isso. Era a forma como me olhava — sem medo, sem admiração, sem aquela expressão irritante que tantas mulheres costumam ter quando descobrem quem eu sou. Como se eu fosse apenas mais um homem qualquer.

E aquilo me incomodou.

Porque eu estava acostumado exatamente ao contrário.

Observei seus olhos por alguns segundos. Ela parecia pronta para me enfrentar.

Aquilo despertou algo que eu não sentia há muito tempo.

Curiosidade.

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