Capítulo 6 Capítulo 2.1 Theodoro Ventura

Após a breve troca de farpas que me deixou ainda mais intrigado , ela virou as costas sem esperar qualquer resposta. Nem sequer olhou para trás.

Fiquei observando enquanto desaparecia pelo corredor.

Normalmente eu esqueceria aquele tipo de encontro em poucos minutos. Mas não consegui.

Algo naquela mulher continuava me incomodando. Talvez fosse a ousadia. Talvez fosse a sinceridade. Ou talvez fosse o simples fato de ela não parecer minimamente impressionada comigo.

O que era raro.

— Lucca.

— Sim, senhor?

Continuei olhando para o corredor vazio.

— Quero saber quem é aquela mulher.

— A mulher que acabou de esbarrar no senhor?

— Exatamente.

— Algum problema?

Finalmente voltei a caminhar.

— Nenhum.

Mas aquela mulher havia despertado algo raro em mim.

Curiosidade. E eu odiava não ter respostas.

Quem era ela?

Por que parecia tão diferente das outras?

Por que teve coragem de me chamar de babaca olhando diretamente nos meus olhos?

Precisava descobrir.

E quando eu queria uma resposta, sempre a encontrava.

A palestra transcorreu bem. Falar sobre algo que você domina é gratificante — principalmente quando se desperta nas pessoas um interesse genuíno. Tecnologia precisa ser explorada, e passar mais de duas horas explicando, respondendo perguntas e mostrando como ingressar na área vale cada minuto.

Antes de encerrar, Lucca retorna ao auditório. Agradeço o convite aos organizadores e, ao sair, viro-me para ele.

— Conseguiu o que pedi?

— Sim. Está tudo aqui — nome, onde está hospedada e o endereço residencial.

— Obrigado. Agora precisamos voltar antes que eu chegue atrasado. — Pego o papel e começo a ler.

Morgana Ávila.

Abri o relatório enquanto seguíamos viagem, e conforme lia, minha curiosidade só aumentava.

Nome completo: Morgana Ávila.

Profissão: Bioquímica.

Empresa: BioSynTech.

Reconhecida na área em que atua.

Mãe solteira.

Parei a leitura por alguns segundos.

Mãe.

Aquilo eu não esperava.

Voltei a observar a foto anexada ao relatório. Havia algo diferente nela. Algo que eu ainda não conseguia explicar.

E aquilo me irritava.

Porque eu não costumava perder tempo pensando em mulheres. Muito menos em mulheres que sequer demonstravam interesse em mim.

Agora você não me escapa, Morgana Ávila.

— Lucca, quero saber tudo sobre a vida dela. Cada passo.

— Sim, senhor. Assim que ela retornar, farei como o senhor deseja.

Dias depois, recebo o relatório completo.

E posso dizer que ela é surpreendente.

De posse de cada detalhe, faço questão de encontrá-la propositalmente. Ela acabou de sair do trabalho e está numa lanchonete próxima. Pego o momento certo em que está sozinha — o olhar distante, perdido em algum pensamento. Sento-me na cadeira à sua frente, pegando-a de surpresa.

— Acho que o senhor errou de mesa — ou melhor, de lugar. — ela diz, com a língua afiada que já esperava.

— Por que você diz isso? — pergunto, curioso.

— Pelo simples fato de o senhor ser um daqueles homens que nem pisam no chão. Sempre têm alguém rastejando aos seus pés — e certamente não costumam frequentar lugares como esse.

O garçom se aproxima antes que eu possa responder. Peço um café puro. Assim que ele se afasta, ela ri.

— Não posso negar. Tenho tudo o que quero e não costumo frequentar lugares assim. Mas isso você nunca vai entender, vai? — digo, e o sorriso dela some ao terminar a frase.

— Por acaso você é psicopata? Está me seguindo?

— Quanta presunção. O que te fez pensar isso? Só porque me sentei à sua mesa?

— Sabe o quê? O que vem de você não me interessa. Se me der licença, estou esperando alguém. — ela diz, com aquele ar de quem achou que ganhou.

— Não pense que acabou. — Levanto-me, deixo uma nota sobre a mesa para cobrir o café e saio sem olhar para trás.

Mas agora estou ainda mais intrigado.

Acabo ficando dentro do carro, parado, olhando para ela através do vidro da lanchonete. Observo Morgana se levantar e se afastar pela calçada.

Ela não é o tipo que se rende facilmente. E isso estava me despertando de uma forma que eu mesmo não sabia descrever.

Porque, pela primeira vez em muitos anos, uma mulher conseguiu permanecer nos meus pensamentos por mais tempo do que deveria.

E eu não gostava disso.

Não gostava nem um pouco.

Ainda assim, enquanto a observava desaparecer de vista, tive a estranha sensação de que aquele encontro estava longe de ser o último.

Muito longe.

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