Capítulo 8 Bônus capítulo 3.1 Morgana Ávila
Sigo para casa.
No meio do caminho, meu celular toca. Número desconhecido. Paro no acostamento antes de atender.
— Boa tarde. Estou falando com a senhorita Morgana Ávila?
— Boa tarde, sim, sou eu. Quem está falando?
— Aqui é Verônica, assistente do senhor Ventura. Ele gostaria de agendar uma reunião com a senhorita amanhã, às 9h. Posso confirmar sua presença?
— Me desculpe, Verônica, mas do que se trata essa reunião? Não conheço nenhum senhor Ventura.
Como essa pessoa conseguiu o meu número pessoal? A pergunta ecoa na minha cabeça.
— Senhorita, o senhor Ventura gostaria de tratar de um assunto que acredita ser de seu interesse. Não tenho autorização para fornecer mais detalhes, mas ele pediu que eu reforçasse a importância dessa reunião.
— Compreendi. Pode confirmar.
— Ótimo. Enviarei o endereço em seguida. Tenha uma boa tarde. — Ela desliga antes mesmo que eu responda. Aposto que estava com receio de que eu recusasse.
Fico alguns segundos com o celular na mão.
Quem é esse tal senhor Ventura?
Nunca ouvi falar.
Será que é algum dos acionistas querendo ajudar?
Pela primeira vez em semanas, sinto que talvez Deus esteja ouvindo minhas orações. Talvez aquela ligação seja a resposta que tanto espero, alguém disposto a estender a mão.
Porque eu já não sei mais de onde tirar forças. Estou vendendo tudo o que tenho. Me endividando. Abrindo mão da minha estabilidade. E mesmo assim continuo longe do valor necessário.
Se aquela reunião puder representar uma chance para Pietro, agarrarei essa oportunidade com tudo o que tenho.
Chego em casa e encontro meu pequeno assistindo ao desenho favorito. Deixo um beijo enorme nele, arrancando uma gargalhada.
— Mamãe, vem! — ele me chama.
— Deixa só a mamãe tomar um banho e já venho ficar com você, minha vida!
Mais beijos. Mais risadas.
Passo pela cozinha e encontro Manu preparando o jantar.
— Alguma novidade, Morgana?
— Eles não aceitaram a demissão. Fizemos um acordo: vou tirar dois meses de licença e a empresa vai contribuir com R$ 50.000,00 para o tratamento do Pietro. Em troca, fico comprometida com eles por mais cinco anos.
— Só mostra o quanto têm receio de perder uma das melhores profissionais que têm. — ela diz, balançando a cabeça. — Mas o que vamos fazer para arrumar o restante?
— Ainda não sei. Mas no caminho para casa recebi uma ligação estranha — uma assistente, dizendo que o patrão dela quer me encontrar amanhã cedo. Disse que tem uma proposta do meu interesse. Fiquei curiosa. Pode ser até um dos acionistas querendo contribuir com o tratamento. — Solto um suspiro. — Tenho um fio de esperança.
— Que notícia boa. Quem sabe ele tenha se comovido com a situação. Torço para que dê certo. O jantar do pequeno já está quase pronto — vou esperar a senhora chegar para jantarmos todos juntos.
— Já disse que é só Morgana, Manu. Você é de casa!
— Está bem, ainda não me acostumei. — ela ri, e sigo para o quarto.
Após o banho, vou ficar com Pietro. Jantamos animados, e na hora de dormir ele reclama quando percebe que vai dormir na minha cama.
— Já sou um homenzinho, mamãe. Consigo dormir sozinho.
Aquilo aperta meu coração. Minha vidinha estava crescendo.
Conto a ele a novidade de que ficarei em casa por alguns dias, e a alegria que toma conta do seu rosto é o combustível que preciso para continuar firme.
Acordo com Pietro nos meus braços. Preciso me organizar para a reunião. Tomo um banho, me sinto estranhamente confiante. Me arrumo, pego a bolsa e tomo apenas uma xícara de café com um pedaço de bolo — Manu reclama que preciso comer direito, mas já estou em cima da hora. Não posso chegar atrasada.
Sigo para o endereço que Verônica enviou.
Quando paro em frente ao prédio, fico de boca aberta.
O edifício é enorme. Moderno. Imponente. Transmite riqueza e poder só pela fachada.
Conforme caminho pelo saguão, me sinto pequena. Tudo ali parece funcionar em outro nível — os pisos impecáveis, os móveis luxuosos, as pessoas circulando apressadas como se cada segundo valesse milhões.
Pela primeira vez me pergunto quem realmente é esse tal senhor Ventura. Porque claramente não é uma pessoa comum.
Vou até a recepção, informo meu nome e recebo um crachá provisório. A recepcionista indica o andar — o último. Fico olhando para o número com os olhos arregalados.
Entro no elevador. Outras pessoas sérias entram em seguida, trocam um bom dia discreto entre si. Fico no fundo, quieta, observando os andares subirem no painel. Quanto mais sobe, mais a ansiedade aperta.
Quando as portas se abrem, paro por um instante.
Daqui de cima, a vista é deslumbrante. Janelões do chão ao teto revelando a cidade lá embaixo, viva e distante ao mesmo tempo.
Aproximo-me da recepção do andar e aguardo a assistente encerrar uma ligação.
— Bom dia, em que posso ajudar? — ela pergunta com um sorriso.
— Bom dia. Sou Morgana Ávila. Tenho uma reunião com o senhor Ventura.
O sorriso dela se abre.
— Fui eu que falei com a senhorita. Um momento — ele ainda está com o assessor. Assim que ele sair, pode entrar. — Indica o sofá. — Fique à vontade.
Me sento. Não demora muito para um homem bem vestido sair da sala. A assistente se levanta, bate levemente na porta e entra por alguns instantes. Quando volta, faz um gesto em minha direção.
— O senhor Ventura já está à sua espera. Por aqui.
— Obrigada. — Sigo até a porta.
Assim que entro, a assistente fecha a porta atrás de mim.
O homem sentado atrás da enorme mesa ergue os olhos dos documentos.
Meu coração quase para.
Não.
Não pode ser.
Era ele. O homem arrogante do congresso. O mesmo da lanchonete. O mesmo rosto que parecia surgir em todo lugar que eu fosse.
Por alguns segundos fico sem entender nada.
O que aquele babaca está fazendo aqui?
Foi então que meus olhos encontram a placa sobre a mesa.
Theodoro Ventura — CEO
Meu estômago afunda.
Ele abre um sorriso presunçoso enquanto eu o encaro com a expressão mais fechada que consigo sustentar.
— Bom dia, senhorita Ávila. Sou Theodoro Ventura. Pode se sentar. — diz ele, indicando a poltrona à frente da mesa.
— O que o senhor quer? — pergunto, sem paciência.
— Quanta rispidez, senhorita Ávila. Sente-se, e logo saberá.
Algo naquele tom me faz querer sair dali imediatamente. Mas não consigo me mover — a curiosidade e a necessidade falam mais alto.
— Só estou sendo direta. Primeiro foi o encontro no congresso, onde me tratou como se eu fosse invisível. Depois a lanchonete. E agora isso — manda a assistente me ligar com uma proposta misteriosa. Não vejo o que poderíamos ter em comum para discutir.
— Você se surpreenderia. Mas só falo quando estiver acomodada.
Solto um suspiro, ainda com a raiva bem viva, e me sento.
Senhor Ventura permanece alguns segundos me observando. Como se estivesse avaliando algo. Como se eu fosse um contrato. Uma negociação. Não uma pessoa.
Aquilo me incomoda profundamente.
— Como disse, tenho uma proposta para a senhorita Ávila. — Ele faz uma pausa calculada, como quem se prepara para soltar uma bomba. — Uma única noite com você. Em troca, realizo qualquer desejo seu. Para mim, não importa o valor.
Ele diz aquilo como se estivesse oferecendo um contrato empresarial. Como se fosse a coisa mais normal do mundo. Sem vergonha. Sem constrangimento. Sem qualquer consideração.
Meu sangue ferve instantaneamente.
Por alguns segundos fico encarando aquele homem sem acreditar no que acabei de ouvir.
Todo aquele prédio.
Toda aquela reunião.
Toda aquela expectativa.
Era para isso?
— Você deve ter se confundido. Não sou acompanhante para aceitar esse tipo de proposta.
— Não vai me dizer que não sente absolutamente nada, senhorita. — ele diz, com um sorriso que me enche de raiva.
Meus olhos pousam no copo com líquido cor de âmbar sobre a mesa. Abro um sorriso lento. Vejo-o relaxar — erro dele.
Levanto-me da cadeira com calma, aproximo-me e ele gira a cadeira para me encarar de frente.
Chego bem perto. Olho diretamente nos seus olhos frios.
— Para o seu governo — não sou qualquer uma. Jamais me submeteria a isso. E você, com todo esse poder, continua sendo apenas um homem sem caráter. — Pego o copo e despejo o conteúdo sobre ele. — Se quiser companhia, procure alguém que goste de babacas arrogantes. E se aparecer na minha frente de novo, pode esperar algo pior.
Bato a porta ao sair.
Do outro lado, ouço algo sendo quebrado lá dentro. A assistente se assusta.
Eu sigo direto para o elevador com o coração disparado e a vontade de gritar represada no peito.
Que absurdo.
Como ele ousou?
Entro no elevador e aperto o botão do térreo com força. Meu coração está acelerado. Minha respiração, pesada.
Quando as portas se fecham, sinto meus olhos queimarem.
Mas não é por causa daquele homem. Nem pela humilhação.
É porque, durante alguns minutos, eu realmente acreditei que alguém pudesse ajudar meu filho. Acreditei que havia encontrado uma saída. Uma esperança.
Mas a vida mais uma vez mostrou que nada seria fácil.
Fecho os olhos tentando controlar o choro.
Não posso desmoronar.
Não agora.
Pietro precisa de mim.
Mas, pela primeira vez desde que recebi o orçamento do tratamento, não faço a menor ideia do que fazer.
E aquilo me assusta mais do que qualquer coisa.
