Capítulo 9 Bônus capítulo 4.0 Theodoro Ventura
Ela é realmente uma criatura intrigante. E cada vez que a encontro, o desejo de tê-la só aumenta.
Envio uma mensagem para minha assistente pedindo que agende uma reunião com a senhorita Ávila para o dia seguinte. Passo o número e o nome. Vamos ver se a proposta que tenho não será suficiente para dobrar aquela petulância.
Sigo para casa. Preciso analisar um relatório e me livrar de um compromisso cedo quero ter tempo de sobra para ver aquela arrogância desmoronar.
O dia começa agitado.
Uma videoconferência de última hora me prende por mais tempo do que o tolerável. Só estava pedindo que não se estendesse, já que minha assistente havia confirmado que ela compareceria. Até Lucca percebe minha impaciência para encerrar a ligação.
Assim que desligo, separo os documentos assinados para o assessor dar andamento. Em cima da hora, Lucca sai e minha assistente avisa que ela chegou.
Aproximo o copo. Uma dose — pura. Preciso me manter frio quando ela entrar.
Encho o copo, sento e espero.
A surpresa no rosto dela ao me reconhecer é exatamente o que eu esperava. Como ela reluta antes de se sentar. Como faz questão de demonstrar que preferiria estar em qualquer outro lugar. Aquilo só aumenta minha vontade de quebrá-la.
Quando começo a falar, vejo a fúria acender em seus olhos. Sou categórico: pagaria o valor que ela quisesse.
Por um momento, chego a pensar que ela aceitaria.
Então o uísque atinge meu rosto.
Fico imóvel por alguns segundos.
O líquido escorre pelo meu rosto enquanto a porta bate atrás dela.
Ninguém. Absolutamente ninguém havia ousado me desafiar daquela forma.
Passo a mão pelo rosto, sentindo o líquido gelado escorrer pelos dedos.
Deveria estar furioso.
E estou. Mas há algo mais — curiosidade.
Morgana não reage como qualquer outra mulher reagiria. Não tenta negociar. Não tenta se aproveitar da situação. Não tenta me agradar.
Simplesmente me manda para o inferno.
E aquilo me irrita mais do que deveria.
Ela tem um ponto fraco. E farei questão de usá-lo.
Ligo para Lucca e peço que descubra esse ponto. Quero isso o quanto antes.
Morgana Ávila vai se render — ou não me chamo Theodoro Ventura.
Passo o restante do dia de mau humor. Antes de sair do escritório, Lucca entra na minha sala. Pelo olhar dele, é algo sério.
— Pensei que já tivesse ido. — diz, servindo-se de uma dose e trazendo um copo para mim.
— A última reunião atrasou. Você conseguiu o que pedi? — ele assente e me estende o copo. — Então fala logo.
— Quando fiz a investigação inicial, não tinha esse detalhe. Mas hoje descobri que ela tem um filho que precisa de um tratamento bastante delicado, disponível apenas nos Estados Unidos. O valor é alto e a situação é urgente. Ela já colocou a casa à venda, há um corretor na porta e vendeu o carro. Mesmo somando tudo, o empréstimo que conseguiu no banco e o valor do imóvel, não chega nem na metade do que precisa para cobrir o tratamento e a estadia.
Permaneço em silêncio por alguns segundos.
Uma criança.
O filho dela era apenas uma criança.
Olho pela janela enquanto absorvo as informações.
Ela estava vendendo tudo. A casa. O carro. A própria estabilidade. E mesmo assim ainda não era suficiente.
Por um instante, algo estranho aperta meu peito. Uma sensação incômoda que rapidamente tento ignorar.
Aquilo não é problema meu. Pelo menos era o que tentava me convencer.
— De quanto ela precisa ao todo?
— Consegui o contato do médico nos Estados Unidos e entrei em contato informando que havia interesse em ajudar o paciente Pietro Ávila. Ele me passou um orçamento de US$ 67.000,00 — esse valor cobre apenas o tratamento intensivo, a cirurgia e o pós-operatório. Fora isso, ela ainda precisa arcar com passagens, moradia e sustento pelo período em que o filho precisar permanecer lá.
— Ela já reuniu esse dinheiro?
— Não. Pelo que apurei, está bem longe disso.
— Certo. Quero que você redija um contrato com uma proposta de meio milhão de reais — em troca de uma única noite. Leve amanhã cedo. E compre a casa dela. Não me importa quem fez uma oferta antes nem o valor — eu quero esse imóvel. Investimento nunca é demais.
Lucca me olha por alguns segundos sem falar.
— Certo. Preparo o contrato ainda hoje e já enviei as informações do médico para o seu e-mail. Amanhã faço a proposta pela casa e te mantenho informado.
— Obrigado. Pode ir.
Pego minhas coisas e saio sem olhar para trás.
Deveria estar satisfeito. Havia encontrado a alavanca. Mas, estranhamente, não estou.
Porque aquilo não parece uma fraqueza. Parece desespero.
Uma mãe tentando salvar o próprio filho.
Fecho os olhos por um instante.
