Capítulo 2

Quando eu chego à sede reluzente, de prata de lei, da Trans-Media Global, encosto o carro na minha vaga de sempre no estacionamento subterrâneo. Pouco depois, pego o elevador até o átrio impecável — claro, amplo, com um prestígio silencioso. Enquanto atravesso aquele espaço polido, troco acenos com rostos conhecidos, todos impecavelmente vestidos numa elegância sem esforço. Dou um cumprimento educado ao segurança de plantão antes de entrar no elevador de vidro, subindo até o segundo nível do complexo de vários andares.

Assim que saio do elevador, no caminho, faço a conversa fiada de sempre com a Jen, a recepcionista. O “tudo bem?” automático, mesmo quando a pessoa não quer saber, e o “tudo” mesmo quando não está.

— Hadassah.

A Jessica encosta do meu lado e me entrega o meu Cinnamon Dolce Latte diário. Ela é meio que a menina dos recados do departamento. Animadinha, cheia de energia e simplesmente o ser humano mais doce.

— Então quer dizer que você vai tocar a matéria?

— Que matéria?

Ela me olha de volta com aqueles olhos arregalados de peixe.

— Você não ficou sabendo...

Meu olhar vai para o monitor grande da área principal, transmitindo plantão de última hora. Cercado por outros colegas, que aos poucos vão se dispersando, o boletim termina justamente quando eles voltam para ocupar suas mesas.

— Lionel Collins, ele—

— Faz parte do conselho de diretores executivos da Zenith.

Ela confirma com a cabeça, sorrindo como quem já sabia.

— Isso. Mataram ele, tiro na cabeça, encontrado morto no território do Gaza, com mais de duzentos e cinquenta gramas de droga no carro de luxo. A imprensa tá em choque com a notícia de que o terceiro no comando da Zenith surtou e virou fora da lei.

Nada disso encaixa, minha mente reclama.

— Encontrado morto bem onde um chefão do tráfico mora? — resumo em voz alta, mastigando a informação. — Eles acham que o Gaza matou e deixou o corpo pra ser achado? — balanço a cabeça devagar. — Tem um motivo pra ele ser intocável, independente das ligações com o submundo. Ele é meticuloso... esse assassinato já soa descuidado.

Tomada por um friozinho repentino, dou um gole generoso no latte — que me enche de um conforto quente — antes de segurar o copo contra o peito dela, e ela pega. Vou a passos largos até a sala da diretoria, ajeitando a lapela do meu blazer. Rachel, a secretária do meu chefe, estala os dedos pra mim sem parar.

— Não, você não pode entrar aí. — A voz dela é um agudo constante. — Ele tá no meio de uma ligação.

Eu paro, levando uma mão preocupada ao peito.

— Ai, meu Deus, é mesmo?

— É — ela diz, cansada. — Ele não quer ninguém interrompendo.

Arqueio as sobrancelhas.

— Ainda bem que eu não sou “ninguém”.

Abro as duas portas de propósito, entrando com um sorriso. Fecho atrás de mim com um clique suave e me viro, como se fosse passear pelo escritório. A sala está banhada de sol, com uma paleta quente de materiais naturais e resistentes — granilite, latão patinado, bronze, carvalho e superfícies de couro.

James está atrás da mesa robusta, o iPhone pessoal colado à orelha, resmungando uma ladainha de reclamações. Ele me olha de cima a baixo, claramente se segurando pra não revirar os olhos. As sobrancelhas grisalhas se juntam. Depois de soltar alguns palavrões, ele encerra a chamada e apoia as mãos grandes na mesa, soltando um longo suspiro.

— Eu imagino que você saiba por que eu tô aqui.

— Você é a minha peça-chave, o que mais seria? — ele diz, com um tom irônico.

Um sorriso puxa meus lábios. Demorou muito tempo e muito trabalho pra eu merecer a confiança dele.

Eu ando de um lado pro outro diante da mesa, pensativa.

— Então, pelo que eu ouvi, um dos tenentes da Zenith morreu, e foi pego em flagrante — sem trocadilho — no território do Gaza, com drogas no carro? — paro e encaro James com uma expressão de humor mórbido. — Mesmo que ele estivesse traficando, e ainda por cima com o Gaza... ele nunca daria um tiro ali mesmo e deixaria o corpo, sabendo que isso vai levar direto até ele.

— Tá sentindo cheiro de armação?

— Me dá uma chance de descobrir?

Ele faz que sim com a cabeça e lança um olhar para o iMac.

— Fechado. A Zenith já organizou uma coletiva pra conter o estrago e consertar esse escândalo de relações públicas deles.

Eu solto um gemido alto.

— Você sabe que essas coletivas não dão em nada.

— Sim, por isso o CEO da Zenith aceitou uma entrevista privada com uma das maiores redes internacionais de notícia. E eu só vou escalar o melhor investigadora que eu conheço. Minha peça-chave pra tocar isso.

Minha mão vai à boca.

— Você quer dizer que—

— Você vai conhecer o ilustre Orian Moon.

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