Capítulo 3 O que eu dou
Charlotte
Charlie e eu corremos pela mata nevada, serpenteando entre árvores nuas, saltando sobre troncos caídos, abrindo caminho por montes de neve que chegam até o peito. A neve espirra ao redor das minhas pernas a cada passada. Ela gruda no meu pelo e derrete na minha pele, fria, cortante e perfeita.
Fazia tempo demais que a gente não conseguia correr assim, tempo demais sem espaço e ar e sem nada nos perseguindo.
Charlie assume a dianteira, e contornamos um arbusto denso. Então ele para tão de repente que eu derrapo e bato direto nele.
Enterro as patas na neve para me firmar. Solto um bufar, irritada, prestes a rosnar com ele, mas então olho por cima do ombro dele.
Um lago se estende à nossa frente.
É imenso e está completamente congelado, a superfície irregular e marcada por rachaduras antigas e emendas recongeladas. A neve se acumulou em depressões rasas, deixando largas faixas de gelo exposto que captam a luz que se apaga.
Dou um passo lento adiante, atraída sem pensar.
O gelo parece grosso o bastante, velho o bastante; não é liso, mas eu já patinei em coisa pior.
Meu peito aperta, porque isso não é só um lago.
É uma resposta.
Eu já sei que não vou conseguir pagar tempo de pista. Eu já sei que vou precisar de um emprego o quanto antes para ajudar a manter a casa de pé. Sei que não vou ter tempo para clubes ou times, nem para nada que exija dinheiro, autorização ou constância.
Mas isso?
Isso está aberto.
Isso é silencioso.
Isso não me pede nada.
Isso pode ser um lugar para patinar. Um lugar onde eu não preciso me explicar nem fingir que não sinto falta — um lugar onde eu posso respirar.
Charlie circula a borda do lago, focinho baixo, conferindo a área por hábito. Eu o sigo, memorizando cada curva, cada agrupamento de árvores, cada abertura na vegetação. Marco tudo na cabeça como um mapa de que vou precisar depois.
Quando enfim voltamos na direção da cidade, olho por cima do ombro uma última vez.
O gelo já está sumindo na sombra, mas eu sei que vou voltar por ele.
Aquele lugar é meu.
O sol já está baixo quando chegamos aos arredores da cidade. Os postes de luz piscam e acendem um a um, e diminuímos o ritmo conforme as casas começam a aparecer, montes de neve ladeando entradas estreitas de garagem.
Nós já sabemos que o pai não vai estar em casa ainda. Ele vai ter achado algum bar por aí. Sempre acha.
Nos transformamos atrás da casa, a pele se arrepiando, os ossos estalando de volta ao lugar. Puxo minhas roupas com os dedos dormentes, agradecida por ter polegares de novo quando chego à porta.
Ela emperra, como todo o resto aqui, e Charlie a abre com o ombro, com um grunhido.
Lá dentro, a casa está quieta e fria.
Subimos e tomamos banho no chuveiro gelado, revezando. A água mal esquenta, mas é o suficiente para tirar o suor e a neve.
Visto roupas limpas e me sento na cama, encarando a mancha no teto. Parece uma nuvem se eu inclinar a cabeça do jeito certo. Ou talvez um lobo. Não sei.
Charlie se joga ao meu lado, e o colchão afunda sob o peso dele.
— Esta cidade parece bonita, né, Lotty? — ele diz, com um sorrisinho torto no rosto.
— É. Parece ok. — Dou de ombros, mantendo a voz casual.
Por dentro, eu já estou contando passos. Já pensando em quanto tempo levaria para voltar a pé até o lago — já me coçando para pegar meus patins e ir.
Mas eu não vou.
Ainda não.
Preciso de um pouco de luz do dia, de tempo, e preciso ter cuidado.
O pai chega em casa pouco antes da meia-noite.
Eu ouço antes de ver: as botas raspando no alpendre, as chaves largadas em algum lugar onde não deviam. A porta se abre com um estrondo, e eu observo do patamar enquanto ele entra cambaleando, fedendo a álcool, carregando uma sacolinha plástica de compras como se fosse um prêmio que ganhou.
Ele despeja a sacola no chão e consegue subir dois degraus antes de as pernas falharem.
Desaba ali, meio torto e já roncando.
Eu passo por ele sem dificuldade e pego a sacola, levando para a cozinha para tirar duas cenouras, um pão e seis ovos. Fico ali um instante, olhando para aquilo, já revirando combinações na cabeça.
Não é suficiente, não mesmo, não para três pessoas — mas eu faço virar.
Calço os sapatos e desço de novo pela entrada até o carro. O frio atravessa direto a sola quando abro o porta-malas e pego a caixinha pequena que levo comigo toda vez que a gente se muda.
Ela está cheia de temperos e condimentos. Coisas que fazem a comida render.
Eu sabia que era melhor não deixar isso para trás.
De volta para dentro, mãos à obra. Cozinho os ovos. Amasso com curry em pó e um pouco de maionese, e tosto o pão só o bastante para não amolecer.
Faço três sanduíches, caprichados e do mesmo tamanho.
Então levo um para o andar de cima, para o Charlie, que está em pé numa cadeira, junto à janela, segurando o celular de flip antigo para tentar fazer funcionar.
— Consegui matricular a gente na Wellington High — ele me diz, enquanto estendo o prato.
Ele desce num pulo, os olhos se iluminando.
— Boa.
— Amanhã eu procuro uniformes — digo. — Provavelmente de segunda mão.
— Tá. — Ele assente, já comendo. — De boa.
Deixo ele ali e volto para baixo, onde coloco um sanduíche ao lado do pai, na escada. Ele vai ficar furioso se não tiver nada quando acordar.
Embrulho o último e enfio na geladeira.
Não pego um para mim, e não vou contar ao Charlie que não deu.
Não conto porque ele não precisa carregar esse peso nos ombros. Ele precisa ser forte. Precisa se misturar. Precisa parecer que pertence a este lugar.
Se um de nós vai conseguir se dar bem em alguma coisa e tirar a gente disso, vai ser ele. Eu seguro as pontas até lá.
Me enfio na cama e puxo o cobertor até o queixo. Minha barriga dói, mas eu ignoro e encaro o teto de novo. Minha mente volta ao lago.
Amanhã eu volto, eu patino e, não importa o que me custe, vou garantir que o Charlie nunca precise saber do que eu abro mão para deixar a gente um passo mais perto de sair.
