Capítulo 4 Antes que ele acorde

Charlotte

Charlie me acorda cedo. Ele está agachado ao lado da minha cama, esfregando as mãos uma na outra e soprando ar quente nelas, como se isso fosse adiantar de alguma coisa — o hálito dele embaça no ar gelado do quarto.

— Anda — ele sussurra. — Vamos sair daqui antes que ele acorde.

Eu pisco para espantar o sono e saio da cama. O frio não perdoa nem um pouco. Por um segundo, fico parada ali, com os dentes cerrados, tentando lembrar se a casa estava tão gelada ontem à noite ou se eu só esqueci como é sentir calor.

Juro que aqui dentro é mais frio do que a neve lá fora.

Visto as roupas mais quentes que eu tenho. O que, sinceramente, não quer dizer muita coisa. Um suéter fino, meu jeans menos usado, meias com buracos que finjo não notar. Prendo meu cabelo loiro num rabo de cavalo e calço os sapatos em silêncio, fazendo uma careta quando o chão range sob o meu peso.

O pai ainda está esparramado no meio da escada, exatamente onde desabou ontem à noite. A boca está aberta, e um braço torcido num ângulo estranho. Passo por cima dele com cuidado, prendendo a respiração, porque só esse barulho já pode acordá-lo agora que o álcool passou.

Charlie já está na porta, sanduíche na mão. O frio entra de supetão e bate no meu rosto assim que ele abre. Saímos juntos, e ele dá uma mordida antes de estender metade para mim sem dizer nada.

Balanço a cabeça depressa.

— Não, tô de boa. Comi dois ontem à noite.

É mentira, mas às vezes a gente tem que mentir para proteger quem ama.

Ele me olha com uma sobrancelha arqueada, mas assente mesmo assim e continua comendo, enquanto eu imploro para o meu estômago ficar quieto, e seguimos pela entrada da casa com a neve estalando sob nossos sapatos.

O céu ainda está pálido, aquele cinza-azulado suave que vem logo antes de a manhã começar de verdade.

Levamos uma hora para caminhar até a cidade. A neve desacelera tudo, transformando ruas em trilhas irregulares e calçadas em mera sugestão. Quando chegamos à rua principal, meus dedos dos pés estão dormentes e minhas coxas queimam, mas as lojas estão despertando, e um pouco de calor escapa para a rua pelas portas abertas.

A loja de segunda mão é fácil de reconhecer. Tem uma placa desbotada, vitrines abarrotadas de manequins descombinados e caixas de sapatos empilhadas de um jeito que parece que podem cair a qualquer momento.

Lá dentro, cheira a poeira e tecido velho quando entramos e esfregamos as mãos para tentar evitar que congelem.

Nos separamos sem dizer nada. Charlie vai direto para qualquer coisa relacionada a hóquei, enquanto eu caço uniformes.

Encontro dois conjuntos completos dobrados juntos num cabideiro baixo.

Mesma cor.

Mesmo logo.

Meu peito se enche como se eu tivesse acabado de ver algo raro, porque, bem, eu vi. Foi quase impossível encontrar uma sorte dessas em qualquer outra cidade.

Eu os pego, apertando-os contra o peito, e então avisto uma camisa de hóquei pendurada, meio escondida atrás de um arara de casacos. Eu a puxo e me viro, erguendo-a.

— Ei. Essas são as cores da escola?

Charlie olha, e os olhos verdes dele se iluminam na hora.

— São. Nossa. Você é boa demais, Lotty.

A empolgação dele diminui só um pouco.

— Mas será que a gente tem dinheiro suficiente?

Enfio a mão no bolso e tiro minha carteira. Conto até a última moeda e nota do meu emprego anterior. Eu sei exatamente quanto tem ali antes de terminar, mas confiro mesmo assim.

“É”, eu digo. “Temos bastante. Não se preocupa com isso.”

Leva tudo — cada centavo —, mas não conto a ele. Ele não precisa saber.

Ele precisa da camisa.

No balcão, entrego os uniformes, a camisa e o dinheiro. A mulher mal levanta os olhos enquanto passa a compra no caixa.

Quando voltamos para fora, Charlie veste a camisa por cima do casaco como se ela já fizesse parte dele.

“Vou dar um pulo na escola”, ele diz. “Ver se nossas matrículas foram confirmadas. Talvez tentar entrar no time.”

Ergo a mão e afasto os cachos ruivos do rosto dele. “Mostra pra eles do que você é capaz, e eu sei que você entra.”

Ele abre um sorriso e vai embora.

Fico ali por um segundo, olhando ele se afastar, antes de puxar minha bolsa pra frente e ajeitar a pilha de currículos lá dentro.

A rua principal está quieta. A maioria das pessoas já está trabalhando ou na escola. Aliso meu suéter e começo a andar.

Tento a padaria primeiro. As janelas estão embaçadas, e o cheiro lá dentro é quente e doce. Eu adoraria voltar pra casa com esse cheiro todos os dias e, quem sabe, a gente ainda conseguiria umas sobras. A mulher atrás do balcão me avalia uma vez, os olhos descendo dos meus sapatos para o meu suéter.

“Ah, desculpa”, ela diz. “A gente não está procurando ninguém no momento.”

Agradeço com educação e continuo tentando. Estou acostumada com a rejeição. Eu fico bem com isso. Só preciso encontrar o único lugar que vai dizer sim.

Tento o supermercado em seguida e recebo o mesmo olhar e a mesma resposta de antes.

O café bonitinho abate meu ânimo mais um pouco. O homem mal me deixa terminar a frase antes de praticamente me enxotar.

Ao meio-dia, meu otimismo já afinou até virar algo quebradiço.

Sigo para o lado oposto da cidade, passando pelas lojas mais arrumadas e entrando num trecho que parece esquecido. Tem uma lanchonete ali, baixa e larga, com uma placa tremelicando. Ainda bem que por dentro é quente.

Uma mulher mais velha, de cabelo grisalho, levanta o olhar de trás do balcão. Os olhos dela vão do currículo na minha mão ao meu rosto, e ela sorri.

“Procurando emprego, querida?”

Caminho até ela e estendo o papel. “Na verdade, sim. Eu ainda tenho mais um ano de escola, mas posso trabalhar até tarde, começar cedo e sempre aos fins de semana.”

Ela nem olha o currículo. “Você está contratada. Pode começar agora?”

“Agora?”

Ela faz que sim com a cabeça. “Não é sempre que aparece gente nova em Wellington. Estou com falta de pessoal há meses, e eu preciso de uma mãozinha. Posso pagar em dinheiro no fim do dia.”

Dinheiro.

Minha carteira vazia parece pesar mais de repente. Eu podia comprar jantar. Talvez até almoço para amanhã.

“Tá”, eu digo, guardando o currículo. “Então vamos nessa.”

Ela abre um sorriso. “Isso aí. Eu sou a Sophie. Bem-vinda ao Nanna’s Diner.”

Ela me entrega um avental e aponta para a pia.

Quando o movimento do almoço começa, meus pés já doem, mas eu não ligo. Vou de mesa em mesa, do balcão para a cozinha, aprendendo rápido e mantendo a cabeça baixa, ganhando o dinheiro de que Charlie e eu precisamos.

Quando meu turno finalmente termina, Sophie enfia dinheiro na minha mão, e eu agradeço duas vezes.

Lá fora, o céu já está escurecendo de novo. Volto para casa muito mais devagar do que vim, o cansaço se instalando fundo nos meus ossos.

Eu posso estar cansada, com frio e com fome, mas nada vai me impedir de experimentar aquele gelo hoje à noite.

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