Capítulo 5 Hoje à noite eu patino

Charlotte

Volto para casa com as sacolas de compras de verdade, mordiscando os dedos, e sigo arrastando os pés pela neve em direção à casa. Meus braços doem, meus dedos dos pés estão dormentes de novo, e a luz da varanda está acesa — o que nunca é um bom sinal.

Isso significa que o pai está acordado.

Ele está largado no sofá velho e mofado, com a televisão berrando, uma garrafa vazia tombada de lado perto do pé e outra frouxamente presa na mão. Os olhos dele se viram para mim no segundo em que abro a porta.

— Onde você estava? — ele rosna.

Levanto as sacolas, erguendo-as como a única prova que eu tenho. — Fui até a cidade comprar umas coisas pro jantar de hoje e pro almoço de amanhã. Achei que você ia estar com fome.

Ele bufa e bate a garrafa na mesa de centro com força o bastante para eu me surpreender por ela não quebrar. A cerveja derrama pela borda, escurecendo a madeira, e eu observo como aquilo parece deixá-lo ainda mais irritado.

— Ah, é? — ele diz. — Eu estive na cidade. Não te vi lá.

Provavelmente porque a primeira e única parada que você fez foi no bar, mas eu enfio esse pensamento bem fundo na minha cabeça.

Em vez disso, dou de ombros e passo por ele, com cuidado para não deixar as sacolas esbarrarem em nada. — Você deve ter me perdido por pouco. Tá com fome?

Ele resmunga e volta a atenção para a televisão, aumentando o volume mais um pouco.

Eu aceito isso pelo que é.

Uma vitória, dentro do que essas coisas permitem.

A cozinha está fria e tem um cheiro levemente azedo. Ponho as sacolas no chão e começo a desempacotar, alinhando as coisas no balcão conforme vou tirando.

Fui cuidadosa e estratégica com o dinheiro que tive a sorte de conseguir hoje. Comprei detergente e uma esponja barata porque a geladeira precisa de uma limpeza de verdade antes que eu confie em qualquer coisa lá dentro. Também comprei manteiga, papel higiênico, um saco de maçãs e algumas bananas.

Para o jantar, peguei uma bandeja de sobrecoxas de frango e alguns legumes — nada chique, mas eu sei que, com alguns temperos, dá para ficar com gosto de comida decente. A gente aguenta um ou dois dias com isso, e meu turno na lanchonete amanhã cobre o resto.

Encho a pia com água quente e esfrego as prateleiras da geladeira, com os dedos ardendo enquanto trabalho. Limpo tudo, empilho as coisas direitinho e começo a cozinhar.

O ritmo ajuda a manter meus nervos sob controle.

Cortar.

Mexer.

Temperar.

É mais fácil focar na comida do que em todo o resto.

Charlie entra bem na hora em que estou colocando o jantar nos pratos.

Ele tenta esconder, mas eu vejo do mesmo jeito. O jeito como os ombros dele ficam um pouco mais retos, e o quique do passo que some no instante em que ele vê o pai erguido no sofá.

Já é uma reação automática, o jeito como a gente se ajusta ao redor dele, tomando cuidado para não provocá-lo.

— E onde diabos você estava? — o pai rosna sem tirar os olhos da tela. — Vocês dois agora só ficam por aí arrumando confusão. Era pra isso aqui ser um recomeço.

As palavras dele se embolam, o que é um sinal esperançoso de que talvez ele apague logo.

— Desculpa, pai — Charlie diz, com facilidade.

Ele não explica. Sabe que é melhor assim. Às vezes, explicações dão ao pai mais alguma coisa para se agarrar.

— O jantar tá pronto — digo baixo, enquanto deslizo um prato para a frente do pai e passo outro para o Charlie. Assim que o pai está ocupado enchendo a boca, olho para o Charlie e formo as palavras em silêncio.

— Você conseguiu entrar?

Ele assente uma vez, rápido como sempre, e então abre um sorriso e me dá uma piscadela antes de pegar o prato e subir.

Solto o ar, em silêncio e com orgulho, para mim mesma.

Eu sabia que ele conseguiria.

O Charlie é bom demais para não entrar no time.

Olho de volta para o pai, que come como alguém que ainda não decidiu se está grato ou com raiva — provavelmente com raiva. Ele reclama do tempero, diz que o frango está seco, e mesmo assim termina tudo.

Quando acaba, ele se deixa cair contra o sofá, as pálpebras pesando. Em minutos, está roncando, a boca aberta, a televisão tremeluzindo no rosto dele.

Arrumo tudo em silêncio, lavando a louça e limpando as bancadas. Depois vou até ele, cubro-o com uma manta de trás do sofá e desligo a TV.

Lá em cima, a porta do quarto do Charlie está entreaberta. Bato de leve e entro.

Ele está sentado na beirada da cama, a camisa do time dobrada com cuidado ao lado, admirando-a como se fosse algo precioso.

— E aí? — pergunto, mantendo a voz baixa.

O sorriso dele se abre enorme.

— Consegui.

Sorrio de volta, sincera, inteira.

— Que notícia maravilhosa.

— Eles me deixaram entrar no treino na hora — ele diz, as palavras atropelando umas às outras agora que começou. — Quer dizer, eu ainda não estava oficialmente na lista, mas o técnico me viu patinar e disse que eu podia ficar. Eu fiz alguns exercícios e joguei um coletivo. Lotty, eles são bons, mas você sabe que eu acompanho.

— Eu sei — digo.

— E eu fiz um amigo — ele acrescenta, quase como se fosse um detalhe. — O nome dele é Blake. Ele é o capitão.

Sinto uma pontada estranha no peito ao ouvir isso. É rápida e esquisita, e acho que é só porque estou tão orgulhosa dele.

— Ele me deu o taco velho dele — Charlie continua, os olhos brilhando. — Disse que era melhor do que o que eu tinha. Dá pra acreditar?

Dá.

De algum jeito, dá, porque Charlie é bom em fazer amigos. Ele é bom em se encaixar. É por isso que ele é a nossa melhor chance de sair dessa vida.

— Isso é incrível — digo, e é de verdade. — Você merece.

Charlie finalmente vai desacelerando, o cansaço alcançando ele. Ele chuta os sapatos para longe e se joga na cama, ainda sorrindo.

— Obrigado, Lotty — ele murmura, já meio dormindo.

— Pelo quê?

— Por tudo.

Puxo o cobertor por cima dos ombros dele e apago a luz. Antes de fechar a porta, sussurro:

— Boa noite, Charlie.

Quando a casa finalmente fica em silêncio, sento na minha própria cama e espero. Conto os roncos do pai. Vejo os minutos passando no meu celular e, quando tenho certeza de que todo mundo está dormindo, então me levanto.

Tiro meus patins do fundo da minha caixa e passo os dedos pelo couro rachado e pelos cadarços desfiados.

Eles são meus. O único objeto neste mundo que eu nunca vou deixar para trás.

Bem, eram da mamãe, mas agora são meus.

São um pedacinho dela que eu posso guardar só para mim.

Talvez eu compre uns novos um dia, quando puder pagar, mas eu sempre vou ficar com estes. Eles são especiais.

Visto minha jaqueta e os sapatos e desço as escadas de mansinho, passando pelo pai. Com os patins na mão, abro a porta devagar e volto para o frio.

Minha visão se ajusta ao céu noturno e escuro enquanto solto um suspiro fundo e sorrio para mim mesma.

Esta noite, finalmente, eu patino.

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