Capítulo 2

— Tate, está tudo bem? — a voz preocupada de Lucianne soou pelo vínculo. A menos que precisasse de ajuda urgente, Tate nunca a contatava tão tarde da noite.

Por mais constrangedor que fosse para Tate falar com Lucianne — por quem ele fora apaixonado durante anos, antes de ela conhecer o rei e se tornar rainha —, ele insistiu em responder o mais normalmente que conseguiu:

— Sim, sim, ah… pegamos mais três hoje, mas... parece que daqui pra frente estamos entrando em território desconhecido. Uma delas é menor de idade.

Houve uma pausa antes de a voz de Lucianne voltar pelo vínculo, firme, com a autoridade de uma rainha:

— Quantos anos?

Tate suspirou, desanimado, e murmurou:

— Treze.

— Menino ou menina?

— Menina.

Outra pausa, chocada, antes de a voz de Lucianne sair mais suave:

— Como ela está?

As sobrancelhas de Tate se arquearam, inquietas, enquanto ele observava a garota com olhos solidários, e respondeu a Lucianne:

— Ela parecia cagada de medo no começo, mas agora com certeza está tentando bancar a corajosa. Ainda devo mantê-la aqui? Tenho que admitir... estou me sentindo meio mal.

Lucianne admitiu a contragosto, num murmúrio:

— Eu também, Tate.

Depois de suspirar, ela acrescentou:

— Mas sabemos o que aconteceu com os guerreiros de Forest Gloom quando decidiram mostrar misericórdia àquela rogue aparentemente apavorada.

Aquilo realmente era uma história horrível de lembrar. Uma loba de aparência frágil tremia e se encolhia sem parar atrás das grades depois de ser capturada pelos guerreiros de Forest Gloom. Os guerreiros pediram permissão a Lucianne para oferecer à rogue um tratamento e uma acomodação melhores dentro da própria casa da matilha, descrevendo o quão ruim estava a situação da intrusa. Lucianne deu sinal verde, lembrando-os de agir com o mais alto nível de cautela. No instante em que a rogue deu o primeiro passo para fora da masmorra e viu a luz do dia, o inferno se abriu. Ela atacou o lobo que a escoltava e continuou atacando quem estava ao redor, até que o Alfa, Clement, cravou as garras bem no peito dela para pôr fim à sua vida.

Apesar daquele pesadelo, Lucianne ainda hesitava em insistir que a garota permanecesse na cela. Era uma menor, e Lucianne sempre tivera um ponto fraco por crianças.

— Mas o que você acha? — ela perguntou. — Ela só está fingindo medo pra você soltá-la ou...

— Isso não parece encenação. Tem alguma coisa... inocente nela. Não sei explicar — ele respondeu.

Então Lucianne perguntou:

— E os outros dois que estavam com ela? O que você acha deles?

— Pelo que dá pra ver, são praticamente rogues sem coragem. Nem se deram ao trabalho de ficar na defensiva quando encurralamos eles.

— Estranho — murmurou Lucianne.

Depois de pensar pelos minutos seguintes, ela hesitou antes de dar a decisão:

— Eu QUERO ser mais branda com ela, Tate, mas eu PRECISO que você e o resto de White Blood estejam em segurança. Por favor, deixe-a aí. Não vale o risco.

Ficava claro pelo tom dela que não estava satisfeita com a própria decisão, e Tate também não. Mas que escolha eles tinham? O perigo provável pesava mais do que qualquer benefício de deixá-la sair.

Lucianne então continuou:

— Eu mesma vou aí buscar os três amanhã, para que eles não fiquem tão intimidados pelos guerreiros lycans. Não solte ninguém até eu chegar.

— Entendido, Lucy — ele respondeu e, o mais animado que conseguiu, o Alfa acrescentou por obrigação: — Manda um “oi” pro rei por mim.

Tate não era tão bom quanto Lucianne em fingir, então ela ainda ouviu a pontinha de tristeza ali. O que a deixava grata era que ele parecia menos triste agora do que alguns meses atrás. Ela falava com Tate o mínimo possível, dando ao amigo Alfa tempo e distância para se curar e seguir em frente. Toby, o Gamma de Tate e melhor amigo de Lucianne, a atualizava com frequência, e ela ficava feliz em saber que Tate melhorava a cada dia.

Com a voz gentil, Lucianne enviou pelo vínculo:

— Obrigada, Tate. Xandar vai apreciar isso. Tenha uma boa noite.

Assim que encerrou o vínculo, cada osso do corpo de Tate estava decidido a cumprir a instrução de Lucianne e deixar a menor ali. Mas, assim que seus olhos já claros pousaram na garota, abraçando as pernas com um olhar triste perdido no vazio e a cabeça inclinada para encarar o chão, ele se viu pregado no lugar.

Ele não sabia dizer exatamente o motivo, mas havia algo naquela criança que o deixava em alerta e fazia aflorar um instinto protetor. Seu animal, por alguma razão inexplicável, simplesmente SABIA que levaria uma bala por aquela garota — não de um jeito romântico, e sim de um tipo “você-é-uma-das-nossas-e-eu-vou-te-cobrir”. Deixá-la naquele lugar ia contra a certeza absoluta dos instintos primais do seu animal. Ele queria garantir que ela estivesse confortável, segura e bem cuidada. Mas as ordens da rainha eram exatamente o oposto disso.

O lado humano dele queria obedecer às ordens e ir embora, como fora treinado a fazer a vida inteira. Mas o lado animal insistia, discutindo com ele. Desse jeito, Tate duvidava que fosse conseguir dormir naquela noite com seu animal choramingando e rosnando. Então, ele suspirou e, ao ceder à fera com a qual nascera, disse ao seu animal: “A Lucy vai matar nós dois por causa disso. É melhor você estar pronto. O que quer que ela faça com a gente vai ser culpa sua.” Seu animal abanou o rabo, completamente indiferente às consequências da própria decisão.

Tate tirou as chaves do bolso para destrancar a cela dela, e os olhos da garota se arregalaram de surpresa. Ela continuou sentada na cama e não fez menção de sair. Tate decidiu que não era hora de ser amistoso, ainda sem saber se ela estava fingindo vulnerabilidade ou se era mesmo vulnerável. Num tom duro, perguntou:

— Você vem ou não vem?

Ela pareceu sair do choque e se levantou da cama antes de dar passos na direção da porta aberta. Quando parou bem diante de Tate, ele fez um gesto com a cabeça para a frente e disse:

— Anda. Por ali.

Ela assentiu e começou a caminhar, lançando olhares para as amigas surpresas conforme passava pelas celas delas. Tate manteve uma distância de três passos, caso ela atacasse. Quando saíram da masmorra, ele continuou dando direções atrás dela, conduzindo-a até a casa da matilha. No porão, Tate acendeu as luzes e ligou o ar-condicionado. Fez a adolescente ficar num canto onde ele pudesse vê-la, enquanto tirava um tecido branco que cobria o sofá velho.

Depois de pegar travesseiros extras no armário, e de sua empregada trazer um cobertor extra, ele fixou nela os olhos ferozes e começou:

— Você vai dormir aqui esta noite. Tem um banheiro logo atrás daquela porta. Vou trancar o porão depois que eu sair. Pelo seu próprio bem, não tente fugir.

Ela assentiu obediente, com um olhar que parecia grato, embora ainda assustado. O que irritou o Alfa foi que seu animal estava arrulhando dentro da cabeça dele quando ela lhe deu um sorrisinho agradecido. Era um lobo Alfa de uma das matilhas mais fortes que existiam. Ele NÃO deveria amolecer por uma renegada, droga!

Ele fez uma nota mental para dar um sermão no próprio lobo depois. Assim que Tate saiu e trancou a porta como prometera, falou com o guerreiro postado do lado de fora do porão:

— No momento em que você ouvir qualquer coisa suspeita, me chama pelo vínculo aos gritos, Timmy.

— Pode deixar, Alfa.

Quando Tate foi para o próprio quarto e se deitou na cama, pensou no que tinha acabado de fazer e murmurou na escuridão:

— Lucy, você vai mesmo me matar por isso.

Na floresta densa, não muito longe de White Blood, a única outra loba vermelha existente, Margaret, mantinha o punho cerrado sobre a mesa, ao redor da qual seus membros renegados agora estavam sentados. Todos haviam acabado de voltar depois de passarem horas tentando encontrar três dos seus e, quando descobriram para onde os rastros de cheiro os estavam levando, todos ficaram com medo de se aproximar mais. A única que não compartilhava desse medo era Margaret, a líder deles. Ela estava preocupada, mas estava ainda mais furiosa!

Depois de soltar um rosnado baixo e cheio de raiva, ela perguntou:

— Qual de vocês deveria estar vigiando eles?

Todos os olhares recaíram sobre Kate. Os dentes de Kate soltaram o lábio inferior e, depois de engolir em seco, ela tentou contornar o problema explicando com humildade:

— Nós seguimos o cheiro deles até White Blood, Margaret. Podemos trazê-los de volta.

Os olhos de Margaret arderam de fúria quando ela disparou, em tom baixo e condescendente:

— Você faz ideia de como soa idiota agora, Kate? Minha filha e as amigas dela, sob sua suposta supervisão, conseguiram ir parar em uma das alcateias mais bem guardadas do território. Você acha que podemos simplesmente aparecer lá e arrancá-las de volta?

Um súbito avanço de suas garras, que atravessaram a mesa, fez a maioria de seus seguidores se encolher de medo, enquanto ela transmitia um aviso assustador:

— Pelo seu próprio bem, Kate, é melhor torcer para que eu recupere minha filha inteira, ou eu mesma vou arrancar sua garganta.

Todos concordavam que seria imprudente entrar na alcateia. Felizmente, renegados como eles haviam notado que guerreiros lycans costumavam aparecer um dia depois da captura de um renegado para escoltar os capturados e colocá-los em jatos, levando-os para sabe-se lá onde. Então, o plano era recuperar sua filha e os outros dois que estavam com ela depois que fossem transportados para fora da alcateia, mas antes de serem colocados no jato. Não era um plano à prova de falhas, mas era o melhor que tinham.

Depois de reunir sua melhor equipe para uma missão de resgate que executariam no dia seguinte, Margaret foi se deitar e não conseguiu evitar imaginar sua pobre menina trancada em alguma masmorra imunda. Seus olhos se encheram de lágrimas ao considerar a possibilidade de sua única filhote estar sendo estuprada. Os líderes das alcateias mais fortes não tinham misericórdia, especialmente com renegados. Ela apenas esperava que esse Alfa fosse gay ou já tivesse uma Luna, que fosse misericordiosa o bastante para poupar sua filha de qualquer tormento, pelo menos até amanhã.

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