Capítulo 2 2

Era de se esperar pelo horário, que meu pai estivesse em casa. Em minha cabeça o plano que elaborei em minutos, parecia fácil e não teria como dar errado, mas na prática nunca era assim.

- Isabella? - Ele me chama assim que entro em casa, em passos silenciosos e faço menção em ir para a cozinha, aonde Lorenzo me esperava ao lado de fora da casa - É você? - Ele sabia que era eu, mesmo assim, perguntava.

- Sim. Sou eu - Olho para a cozinha, antes de andar até a sala, o encontrando no mesmo lugar de sempre: sentado em sua poltrona gasta, em frente a Tv, assistindo ás últimas notícias.

Seus olhos me varrem de cima a baixo e pela primeira vez, por estar escondendo alguma coisa dele, eu gelo, temendo que ele descobrisse que havia um gângster do lado de fora sangrando e que queria colocar ele para dentro.

- Como foi seu dia? - Ele pergunta de repente, para meu alívio.

- A mesma coisa de sempre - Dou um rápido sorriso - Está com fome? Vou fazer o jantar - Não espero que ele responda, giro meu corpo em direção da cozinha.

- Passei no supermercado na vinda e comprei comida congelada - diz ele alto o suficiente para que ouvisse. As sacolas sobre a pia comprovavam isso, mas nem me aproximei, ando em passos largos até a porta, encontrando Lorenzo no mesmo lugar, só que um um pouco mais debilitado.

Passando novamente o braço dele por cima dos meus ombros, amparo ele para longe da cozinha, necessariamente para o único lugar naquela casa que meu pai não entrava: meu quarto. Meu quarto era no sótão desde que me lembrava, acredito que por gostar do espaço otimizado e da vista que eu tinha.

O mais difícil naquele momento, só foi subir a escada em caracol com um peso maior com meu corpo.

Lorenzo geme de dor quando o coloco sentado na poltrona perto da janela, mesmo com seus olhos semicerrados e o rosto ainda mais pálido, noto que ele olha com atenção o cômodo. Entretanto, o mesmo se assusta quando volto do banheiro com uma toalha de rosto e tento erguer sua camisa para pressionar a toalha ali.

- Vou precisar ver o ferimento - digo baixo, pressionando a toalha, tendo meu olhar sustentado por ele.

- Só promete que não vai me deixar morrer - diz ele num sussurro, sem forças.

Engulo em seco, me sentindo nauseada com o odor de sangue.

- Não sou médica, lembra? E você se nega a ir para um hospital - Lembro.

- Hospital não - diz ele ao menos sem pensar.

- Então vai ter que confiar em mim e nas minhas habilidades - Aquela não era a primeira vez que via tanto sangue. Eu cresci vendo sangue e não estou falando sobre filmes sangrentos, mas pelo fato do meu pai ser da polícia e ser teimoso como Lorenzo, acreditando que poderia sozinho lidar com ferimentos causados por armas de fogo.

Meu pai, Romero, sempre se sentiu alto suficiente. Não era o tipo de pessoa que gostava de pedir ajuda e sentia que poderia resolver todo tipo de problema, muitas vezes com a minha ajuda. Na época, ainda uma criança.

Lorenzo olha para o lado no momento que ergue um pouco a camisa encharcada e em meio a pele suja de sangue, percebo um pequeno buraco sutil, o que me faz o inclinar para frente, a procura de um mesmo furo daquele.

- Não tem saída - diz sem me olhar - A bala ainda está dentro de mim - Seus olhos voltam a encontrar os meus.

Fico ereta em sua frente analisando o que tinha diante de mim. Seria uma boa notícia e ao mesmo tempo não, se o projétil tivesse saído sem atingir nenhum órgão, mas como continuava dentro dele, na lateral do flanco, as chances de ter atingido algum órgão, ainda existia, só que não eram grandes.

Saio do quarto sem dizer uma palavra, mentalmente concentrada em pegar a caixa metálica, que continha tudo que precisava para situações como aquela na lavanderia.

Quando meus dedos tocaram a superfície fria, senti que o plano estava correndo até bem.

- Não disse que ia fazer o jantar? - A voz de Romero faz com que eu paralise, precisando agir com rapidez mas sutilmente, a escondendo na roupa.

- É comida congelada - digo me virando para ele - Só colocar no forno - Passo por ele rapidamente, andando o mais rápido que posso de volta para meu quarto.

Meu coração estava prestes a sair pela boca, quando entrei no meu quarto. Mais alguns segundos diante de Romero e ele descobriria todo meu plano, era o que ele considerava o lado bom em anos sendo um policial.

Lorenzo estava com a cabeça apoiada na poltrona de um jeito estranho, que para mim era como se tivesse morrido. Atravesso rapidamente segurando seu rosto com uma das mãos, esperando desesperadamente que ele não tivesse morrido naquele meio tempo, pois não tinha ideia do que fazer com um corpo, muito menos como explicaria como ele havia ido parar em meu quarto.

- Ainda estou vivo - diz ele com os olhos fechados. Suspiro alíviada, soltando seu rosto, tentando o tirar da poltrona.

- Preciso que deite na cama - Ele não diz nada, apenas usa o restante da força que ainda tinha, para se deitar em meio aos travesseiros e almofadas que havia na minha cama de solteiro.

Sem ao menos pedir permissão, começo a desabotoar a camisa, deixando aos poucos visível um peitoral definido, o que para mim significava que pelo menos ele se exercitava. Pegando meio que sem jeito a pistola que havia em sua cintura, a colocando em baixo da cama, aonde me parecia ser o lugar mais seguro naquele momento.

- Bebe isso - Aproximo o cantil com conhaque de seus lábios, não recebendo resistência, pelo contrário, ele bebe boa parte do líquido, o que o deixa ainda mais grogue.

Após limpar todo o local, pego a pinça depois de esterilizar, lembrando das palavras costumeiras de Romero: “Esterilizar é sempre essencial, não vai querer que ninguém morra e manter a ferida sempre limpa, também é algo essencial”.

Lorenzo franze o cenho quando começo a mexer na ferida, em busca do projétil. Até aquele momento, nunca havia sido baleada, mas Romero costumava dizer que era uma dor desagradável e poderia ser mais, dependendo do local. Minhas mãos tremiam como da primeira vez, aonde Romero praticamente me forçou a tirar um projétil de seu braço e considerei os quarenta minutos seguintes, como os piores e mais tensos da minha vida, enquanto Romero não parava de me dar ordens e dizia a todo tempo que só iria sair dali quando terminasse.

Depois daquele episódio, não consegui comer carne por duas semanas.

Continuo movendo a pinça, o mais suave e o mais profundo que eu consigo, tentando não desistir ao notar a profundidade daquele buraco. Lorenzo se contorce mais um pouco, quando a pinça entra mais, meus olhos se focam por um momento nele, enquanto espero ele se acostumar com a dor, antes de prosseguir.

Estava quase concluindo que talvez tivesse que recorrer a Romero, quando sinto o projétil e com o coração na boca, começo a puxar para fora. Vejo o alívio estampado no rosto de Lorenzo quando o tiro e o olho fixamente, analisando como era pequeno e o estrago que havia feito.

Deixo a bala de lado, quando a ferida volta a sangrar, o que era péssimo, dada a quantidade de sangue que Lorenzo já havia perdido. Nos passos seguintes, me encarrego em estancar mais uma vez o sangramento e dessa vez a fazer uma sutura, o que particularmente já havia ficado muito boa nisso. Lorenzo só iria ficar com uma leve cicatriz, se sobrevivesse.

Tampo a boca dele com a minha mão suja de sangue, quando um gemido alto de dor escapa de seus lábios, quando a agulha atravessa sua pele. Olho para a porta, esperando ouvir passos na escada, sentindo o suor escorrer pelo meu rosto, grudando ali fios de cabelo.

Pego a toalha limpa ao lado e sem pensar duas vezes, a enfio na boca de Lorenzo, fazendo ele engasgar.

- Me desculpa. Me desculpa - Peço coma voz trêmula, percebendo o quanto agressivo aquele gesto foi, voltando a me concentrar no que estava fazendo. A morfina ainda não havia feito efeito por completo e infelismente, não poderia esperar muito, já que era essencial fechar aquela ferida.

Gradativamente os gemidos de dor de Lorenzo foram diminuindo, o que ajudou com que eu terminasse mas, logo isso se tornou um alerta e temendo que dessa vez tivesse morrido, me inclino sobre ele, tirando a toalha de rosto de sua boca, sentindo sua respiração fraca ao aproximar meu rosto do dele.

Ele estava vivo, concluo alíviada mais uma vez, entretanto esgotada, levantando da beirada da cama, com meus olhos vagam pela bagunça que havia feito ao redor da minha cama e as toalhas que precisavam ser lavadas o mais rápido que podia, de preferência não deixando nenhum rastro de sangue para trás e que pudesse levantar suspeitas.

Eu nunca tinha imaginado que limpar sangue do chão do meu quarto seria uma das coisas que eu faria em uma noite comum.

Mas aquela noite já tinha deixado de ser comum no momento em que decidi entrar naquele beco.

Olho novamente para Lorenzo, ainda inconsciente, ou pelo menos próximo disso. Seu rosto estava mais tranquilo agora, diferente de algumas horas atrás, quando a dor dominava cada expressão sua.

Por alguns segundos, permito-me apenas observá-lo.

Era estranho.

Muito estranho.

Porque eu deveria estar com medo.

Deveria estar arrependida.

Deveria estar pensando em como me livrar daquela situação.

Mas tudo que conseguia pensar era que ele quase morreu sozinho em um lugar escuro e que, por algum motivo, eu fui a pessoa que apareceu naquele momento.

Talvez fosse apenas coincidência.

Ou talvez algumas pessoas realmente entrassem na nossa vida sem aviso, trazendo mudanças que jamais estaríamos preparados para enfrentar.

Pego as toalhas sujas espalhadas pelo chão e começo a juntá-las rapidamente. Cada movimento era feito com cuidado, tentando não fazer barulho.

Meu pai estava no andar de baixo.

E Romero poderia perceber uma mudança na respiração de uma pessoa do outro lado da casa.

Esse era o problema de conviver tantos anos com um policial.

Ele observava tudo.

Sempre.

Quando eu era criança, achava incrível a forma como ele percebia coisas que ninguém mais notava. Uma porta aberta alguns centímetros, um objeto fora do lugar, uma mentira mal contada.

Hoje, pela primeira vez, aquilo me assustava.

Porque eu era a pessoa escondendo algo.

E não qualquer coisa.

Eu estava escondendo um homem baleado no meu quarto.

Termino de limpar o que consigo e guardo rapidamente os materiais de volta na caixa metálica. Antes de sair do quarto, olho para Lorenzo mais uma vez.

— Você tem muita sorte de estar vivo — murmuro.

Ele não responde.

Claro que não.

Ele estava completamente exausto.

Fecho a porta do quarto devagar, deixando uma pequena abertura para conseguir ouvir qualquer movimento, e desço as escadas.

A cada degrau, meu coração parecia bater mais forte.

Na cozinha, encontro meu pai colocando a comida congelada no forno, exatamente como havia dito.

Por um instante, sinto uma culpa enorme.

Romero sempre confiou em mim.

E eu estava mentindo para ele pela primeira vez.

— Você está estranha — ele comenta sem nem olhar para mim.

Meu corpo inteiro congela.

— Estranha como?

Ele fecha a porta do forno e finalmente me encara.

Aquele olhar.

O olhar de policial.

O olhar que parecia enxergar além das palavras.

— Não sei. Você parece nervosa.

Solto uma risada baixa, tentando parecer natural.

— Só estou cansada.

Ele continua me observando.

— Cansada ou preocupada?

Engulo em seco.

— Os dois podem ser a mesma coisa.

Por alguns segundos, ele não diz nada.

Então apenas balança a cabeça e volta sua atenção para a comida.

Respiro aliviada.

Mas aquilo não dura muito.

— Isabella.

Fecho os olhos por um segundo.

— Sim?

— Você sabe que pode me contar qualquer coisa, não sabe?

A pergunta me atinge de uma forma inesperada.

Porque ele não estava falando como policial.

Estava falando como pai.

Viro meu rosto para ele.

— Eu sei.

E era verdade.

Eu sabia.

Esse era justamente o problema.

Eu sabia que, se contasse sobre Lorenzo, ele tentaria me proteger.

E talvez fosse exatamente isso que eu não queria.

Porque, apesar de tudo, eu tinha dado minha palavra.

Lorenzo confiou em mim.

E eu não sabia explicar por quê, mas quebrar aquela confiança parecia errado.

O jantar passa em silêncio.

Ou quase.

Eu mal consigo prestar atenção nas notícias que meu pai assistia enquanto comia. Minha mente estava no andar de cima.

Será que ele acordaria?

Será que a febre começaria?

Será que o ferimento estava realmente bem?

Cada pensamento fazia minha ansiedade aumentar.

Quando finalmente meu pai termina de comer e vai para a sala, espero alguns minutos antes de subir novamente.

Abro a porta do quarto lentamente.

A primeira coisa que noto é que Lorenzo não estava mais na mesma posição.

Meu coração acelera.

Ele estava acordado.

Seus olhos estavam abertos, observando o teto.

— Você está vivo — digo, mais para mim mesma do que para ele.

Um sorriso fraco aparece em seus lábios.

— Parece decepcionada.

Reviro os olhos, fechando a porta atrás de mim.

— Estou surpresa.

— Com o quê?

Aproximo-me da cama.

— Com o fato de você ainda conseguir fazer piadas depois de quase morrer.

Ele solta uma pequena risada, mas logo fecha os olhos por causa da dor.

— Você conseguiu tirar a bala.

— Consegui.

— E fez isso sozinha.

Não respondo.

Porque, pensando melhor, aquilo também parecia absurdo.

Ele abre os olhos novamente.

— Quem é você, Isabella?

A pergunta me pega desprevenida.

— O quê?

— Uma pessoa normal não faz o que você fez hoje.

Desvio o olhar.

— Talvez eu só seja alguém que não consegue ignorar quando outra pessoa precisa de ajuda.

Ele fica em silêncio.

Mas dessa vez, não parecia uma falta de resposta.

Parecia que estava tentando entender.

— Seu pai ensinou você?

Meu corpo fica tenso.

— Como sabe?

— Pelo jeito que você segurou a pinça. Pelo cuidado com a limpeza. Pelo fato de saber exatamente o que fazer.

Olho para ele.

Lorenzo era observador.

Muito mais do que eu gostaria.

— Meu pai é policial.

A expressão dele muda levemente.

Agora entendo.

Ele estava juntando as peças.

— Um policial.

— Sim.

Ele passa a língua pelos lábios secos.

— E ele não sabe que eu estou aqui.

Não era uma pergunta.

Era uma afirmação.

— Não.

Um silêncio pesado toma conta do quarto.

Então Lorenzo fala:

— Isabella, você precisa entender uma coisa.

O tom dele muda.

Fica mais sério.

Mais preocupado.

— O quê?

Ele sustenta meu olhar.

— Se alguém descobrir que você me ajudou, você pode se tornar um alvo.

Meu estômago se aperta.

Eu já sabia disso.

Mas ouvir aquelas palavras saindo da boca dele tornava tudo mais real.

— Você disse que não colocaria minha vida em perigo.

Ele fecha os olhos por um instante.

Quando abre novamente, existe algo diferente em seu olhar.

Culpa.

— Eu menti.

Meu coração acelera.

Porque aquela era a primeira vez que Lorenzo parecia realmente assustado.

Não por ele.

Por mim.

— O que você quer dizer?

Ele respira fundo, sentindo a dor antes de responder.

— Quero dizer que, a partir do momento em que você entrou naquele beco e segurou minha mão...

Ele faz uma pausa.

— Você deixou de ser apenas uma desconhecida.

Fico imóvel.

— E isso significa que meus inimigos podem olhar para você como uma fraqueza.

As palavras ecoam dentro da minha cabeça.

Fraqueza.

Era assim que eles me veriam.

Como uma peça em um jogo que eu nem sabia que estava jogando.

E naquele momento percebo algo que deveria ter percebido desde o início.

Eu não tinha apenas salvado Lorenzo.

Eu tinha entrado no mundo dele.

E talvez sair dele não fosse mais uma escolha minha.

Por alguns segundos, não consigo dizer nada.

As palavras de Lorenzo continuam ecoando na minha cabeça, misturando-se com tudo que havia acontecido naquela noite.

Eu tinha imaginado muitos cenários quando decidi ajudá-lo.

Pensei que poderia ser apenas um homem ferido precisando de socorro.

Pensei que depois daquela noite cada um seguiria seu caminho.

Pensei que talvez, no dia seguinte, eu acordaria e tudo pareceria apenas uma decisão impulsiva que havia tomado em uma noite fria.

Mas não.

A realidade era muito mais complicada.

— Então você sabia — digo finalmente.

Lorenzo franze levemente o cenho.

— Sabia o quê?

— Que estava colocando minha vida em risco.

Ele permanece em silêncio.

E aquele silêncio era uma resposta.

Sinto uma mistura de raiva e frustração crescer dentro de mim.

— Você deixou que eu ajudasse você mesmo sabendo disso.

— Eu não pedi para você entrar naquele beco.

A resposta dele veio baixa, mas firme.

Aquilo me irrita ainda mais.

— Não, você não pediu.

Levanto da cadeira ao lado da cama.

— Mas também não me impediu.

Ele me encara.

Por um momento, nenhum de nós dois diz nada.

Porque os dois sabíamos que eu tinha razão.

Lorenzo poderia ter recusado minha ajuda.

Poderia ter me assustado.

Poderia ter feito qualquer coisa para me afastar.

Mas não fez.

— Eu estava morrendo, Isabella.

A voz dele sai mais cansada.

— Naquele momento, a única coisa que eu conseguia pensar era continuar respirando.

Aquelas palavras diminuem um pouco minha raiva.

Porque eu sabia como era estar diante de alguém desesperado.

Eu tinha visto meu pai em situações parecidas.

Homens que pareciam invencíveis, mas que, quando a vida estava por um fio, eram apenas pessoas tentando sobreviver.

— Quem tentou matar você? — pergunto.

Lorenzo desvia o olhar.

Eu percebo.

Aquele era o assunto que ele não queria tocar.

— Lorenzo.

— Não é tão simples.

— Parece uma resposta conveniente para alguém que apareceu sangrando no meu quarto.

Ele passa a mão pelo rosto, claramente cansado.

— Existem pessoas que querem tomar o lugar da minha família.

— Sua família na máfia?

Ele não nega.

A confirmação silenciosa me incomoda.

Ainda era difícil aceitar que o homem deitado na minha cama fazia parte daquele mundo.

Meu pai sempre dizia que pessoas envolvidas com crime eram pessoas que carregavam perigo por onde passavam.

E agora uma delas estava a poucos metros dele.

— Você matou alguém? — pergunto de repente.

A pergunta parece surpreendê-lo.

Pela primeira vez, vejo Lorenzo sem uma resposta imediata.

Ele apenas me observa.

— Por que quer saber?

— Porque preciso saber quem deixei entrar na minha casa.

A expressão dele muda.

Não era raiva.

Era algo mais profundo.

Talvez tristeza.

— Sim.

A resposta vem tão baixa que quase não consigo ouvir.

Meu coração aperta.

Mesmo esperando algo assim, ouvir a confirmação era diferente.

— Quantas pessoas?

Ele fecha os olhos por um instante.

— Mais do que eu gostaria.

O quarto fica em silêncio.

Não havia justificativa para aquilo.

Não havia como fingir que era algo pequeno.

Eu estava diante de alguém que fazia parte de um mundo que eu sempre mantive distância.

Mas então lembro de algo.

Do homem no beco.

Do homem que pediu ajuda.

Do homem que confiou em mim.

E essa era a parte que mais me confundia.

Como alguém poderia carregar tanta escuridão e ainda parecer tão humano?

— Eu deveria chamar a polícia — digo.

Lorenzo fica imóvel.

Não assustado.

Apenas sério.

— Você vai?

Olho para ele.

A pergunta não tinha medo.

Tinha curiosidade.

Como se ele realmente quisesse saber o que eu faria.

E isso me incomoda.

Porque eu não sabia.

Se fosse qualquer outra pessoa, talvez fosse fácil.

Mas não era.

Era Lorenzo.

O homem que eu tinha salvado.

O homem que estava ferido por algo que eu ainda não entendia.

— Não sei.

Ele me encara por alguns segundos.

— Isso é perigoso.

— Eu sei.

— Você deveria ter medo de mim.

A frase me surpreende.

Porque ele mesmo estava dizendo aquilo.

— Talvez eu tenha.

Ele inclina a cabeça levemente.

— Talvez?

Solto o ar devagar.

— Eu tenho medo da situação. Tenho medo das consequências. Tenho medo de estar fazendo uma escolha errada.

Faço uma pausa.

— Mas não sei se tenho medo de você.

O olhar dele fica preso ao meu.

Por alguns segundos, parece que o mundo ao redor desaparece.

Então ele desvia.

Como se aquele momento tivesse sido perigoso demais.

— Você deveria ir dormir.

Franzo a testa.

— Está tentando se livrar da conversa?

— Estou tentando evitar que você se arrependa.

A resposta me pega desprevenida.

Ele não parecia preocupado consigo mesmo.

Parecia preocupado comigo.

Caminho até a janela e observo a rua lá embaixo.

A cidade continuava funcionando como se nada tivesse acontecido.

Pessoas andando.

Carros passando.

Vidas normais.

Enquanto dentro daquele quarto, minha vida tinha tomado um rumo completamente diferente.

— Amanhã você vai embora?

Pergunto sem olhar para ele.

Existe uma pausa.

Longa demais.

— Se eu conseguir.

Fecho os olhos.

Eu não deveria sentir nada com aquela resposta.

Mas sinto.

Uma parte de mim queria que ele fosse embora.

Porque era o certo.

Era seguro.

Era o que qualquer pessoa sensata faria.

Mas outra parte, uma parte que eu não queria admitir, queria saber mais.

Queria entender quem era Lorenzo Moretti.

— Você precisa descansar — digo finalmente.

Volto para perto da cama e ajeito o cobertor sobre ele.

Quando estou prestes a me afastar, sua mão segura meu pulso.

O toque é fraco.

Mas suficiente para me fazer parar.

Olho para ele.

— Isabella.

— O quê?

Seus olhos encontram os meus.

— Obrigado por ter escolhido salvar minha vida.

Meu coração acelera de uma forma que eu não esperava.

Puxo meu pulso devagar.

— Só não faça eu me arrepender.

Ele sustenta meu olhar.

— Eu vou tentar.

E, pela primeira vez naquela noite, acredito que Lorenzo estava falando a verdade.

Mas ainda não sabia que aquela promessa seria colocada à prova muito antes do que imaginávamos.

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