Capítulo 4 4
Batidas fortes e altas, me acordam num sobressalto. Com o coração acelerado e com os olhos focados no vazio, demoro para lembrar o motivo pelo qual estava deitada no chão, dormindo dentro de um saco de dormir.
Mais duas batidas fazem com que eu olhe diretamente para a porta, notando que a maçaneta vira um pouco, mas logo o movimento para, como se tivesse mudado de ideia.
- Pêssego - Ouço a voz de Romero do outro da porta - Estou de saída. O café está na mesa.
Abro e fecho minha boca, ainda processando o que estava acontecendo.
- Tudo bem - digo forçando as palavras para fora.
- Não vá dormir de mais - diz descendo os degraus da escada, solto o ar dos pulmões, quando tenho certeza que ele se afastou da porta.
- Pêssego é um apelido carinhoso? - Lorenzo pergunta, deitado na cama.
- É - digo levantando, vestida em meu pijama de flanela.
- Geralmente se usa apelidos, deste tipo, quando se gosta muito da pessoa - Sua voz ainda continuava fraca, ele parecia estar fazendo um esforço para falar, o que dava para entender.
- Não tenho do que reclamar - Na verdade tinha, mas não queria ter que debater isso com ele.
Guardo o saco de dormir e o cobertor que usei de volta no closet, entrando no banheiro por último, saindo de lá após um banho e vestida adequadamente. Me aproximo de Lorenzo e a primeira coisa que faço, é checar sua temperatura duas vezes, a primeira com a mão e depois com um termômetro, estava um grau acima do normal. Eu precisava impedir que continuasse a subir.
Mal havia dormido direito naquela noite, pois havia ficado praticamente de vigília e toda vez que notava que a temperatura de seu corpo aumentava, colocava compressas em sua testa e peito. Conseguindo dessa forma, controlar a temperatura, mas acabou que o sono me venceu e lá estava sua temperatura tentando aumentar novamente.
A próxima coisa que faço, é olhar a sutura, atrás de secreções ou algo que indicasse que havia um problema. A ferida em si estava um pouco seca, o que era bom, mas ainda precisava de cuidados e curativos. Faço o curativos sob o olhar de Lorenzo, com maestria, mais maestria do que uma pessoa que não tinha nenhuma especialização, como ele mesmo estava achando.
Em menos de dez minutos, faço o curativo e volto para o banheiro, dessa vez jogando fora o que usei para fazer o curativo.
- Consegue levantar?- pergunto ao voltar para o quarto.
Ele ergue uma sobrancelha, me olhando por suas pálpebras semicerradas.
- Está pretendendo alguma coisa? - Um breve sorriso sexy surge em seu rosto, mas é breve, pois ainda ele não tinha forças o suficiente para o manter.
- Só quero saber se consegue fazer sua higiene básica sem ajuda - Inspiro profundamente - Tenho que ir até a farmácia - Me movo pelo quarto, pegando minha bolsa e checando o relógio- Você precisa de um antitérmico, sua febre está voltando - Volto a olhar para ele - Quero saber se consegue também ficar sozinho.
- Não vou roubar você e fugir - diz ele sem nenhum tom de brincadeira.
- Eu não pensei nisso - Na verdade pensei, ele ainda era estranho e precisava me manter cautelosa.
Não espero ele dizer mais nada, saio do quarto fechando a porta atrás de mim. No balcão da cozinha, lá estava o único café da manhã que meu pai sabia fazer: pão com geleia e cappuccino. Como rapidamente, mal sentando, saindo mastigando de casa. Por sorte, havia uma farmácia ali mesmo no bairro, mesmo assim teria que andar um pouco até lá.
O frio continuava, o que não era de chamar atenção, apenas indicava que o inverno estava próximo. Meus passos rápidos, impediam que eu sentisse frio, o que era bom, já que eu tinha literalmente um paciente em casa e não poderia demorar.
Na farmácia, pego não apenas o antitérmico, mas também outros medicamentos que considerava essencial e que mesmo assim, não se comparavam aos medicamentos que tinha a disposição no hospital. Pelo menos iriam me fazer ganhar tempo, até o inicio do meu plantão no começo daquela noite, aonde tentaria substituir aqueles. Após a farmácia, passo no supermercados, já que a maioria da comida congelada que tínhamos em casa, não era própria para o estado de Lorenzo, o que me fez comprar mais vegetais e legumes.
Na volta para casa, encontro um grupo aqui e ali de membros de gangues, não deveriam ser rivais, pois não estariam naquela “harmonia”. Precisei me conter em ir até um dos grupos e perguntar se conheciam algum Lorenzo e, dar todas as características físicas dele mas, me deti antes mesmo de me aproximar, lembrando que Lorenzo poderia ser de uma gangue rival e eu poderia me complicar.
Invés disso, aumentei meus passos em direção de casa, os ignorando por completo. Assim que entro em casa, sou recebida pelo silêncio costumeiro, quando Romero não estava em casa; Penduro meu casaco e vou direto para a cozinha, aonde me adianto em preparar o café da manhã de Lorenzo.
Com o café da manhã em uma bandeja e com os remédios que o faria tomar em seguida, vou para meu quarto, abrindo a porta com dificuldade, encontrando Lorenzo sentado na lateral da cama, olhando para a janela que tinha as cortinas fechadas.
- Serviço de quarto - brinco, me aproximando, tendo seus olhos fixos em mim assim que me aproximo da cama - Tentei não demorar - Coloco a bandeja em seu colo, ele ainda estava de cueca, já que considerava dormir com calça jeans algo desconfortável - Espero que goste de vitamina de frutas - Ele olha para a bandeja organizada, com um croissant em um pequeno prato, ao lado do copo comprido de vidro. Entretanto, Lorenzo não se mexe, só fica encarando a bandeja - Você está se sentindo bem? - Dito isto, levo a mão para sua testa, notando que continuava meramente quente.
- Preciso de roupas - Finalmente ele diz, isto faz com que eu dê um passo para trás e concluo que ele deveria estar desconfortável.
- Entendi - Sem pensar duas vezes, saio novamente do meu quarto, dessa vez indo em direção do quarto de Romero, indo para seu closet. Pego uma camiseta e uma calça de moletom que ele não usava com frequência e que não sentiria muita falta. Com isto, volto para o quarto e ajudo Lorenzo a se vestir.
Não estava esperando que as roupas ficassem perfeitas nele, parecia que Romero e ele, tinham as mesmas medidas, até mesmo a altura. Se sentindo “confortável” vestido, ele começa a comer, inicialmente com dificuldade, acabando por se deitar antes mesmo de terminar, quando a sutura começou a doer.
Lorenzo não questiona o coquetel de remédios que faço ele tomar, assim que os engole, não demora muito tempo e ele adormecesse, talvez sob o efeito de tantos medicamentos juntos.
Apesar de ter tomado o antitérmico, a febre persistiu, isto fez com que me mantivesse sentada ao lado da cama, fazendo compressas de água com gelo. Tamanha era a força da febre, que os lábios de Lorenzo começaram a rachar, mesmo com a ingestão de água constante.
Em determinado momento, seus olhos se fixaram em mim, me observava trocar as compressas quentes e as mergulhar na bacia com água, antes de a colocar novamente sobre sua testa.
- Precisa me dizer se está com dor - Poderia haver diversas explicações para a febre persistente, mas estava deduzindo que era por causa de uma possível inflamação.
Um sorriso tenta surgir em seu rosto, apenas um resquício.
-...não estou com dor - diz ele baixo, voltando a me analisar por mais alguns segundos - Está com medo? - pergunta de repente.
Eu convivia com a morte diariamente, no início foi difícil “aceitar” e seguir minha vida, sabendo que era algo normal, fazendo parte do ciclo da vida. Mas Lorenzo fez com que tudo mudasse, eu estava temendo a morte naquele momento, mesmo com todas as informações que eu sabia, me sentia inútil.
- Não - Fungo, tentando afastar as lágrimas que estavam se aproximando - Só... - Me detenho, quando não sei o que dizer - Está com fome? - pergunto abruptamente.
- Mas você deve estar - Já fazia algumas horas que estava ali sentada, completamente focada em fazer aquela febre baixar - Você precisa comer - Ele engole em seco - Vou ficar bem - Sustento o olhar dele hesitante, acabando por fazer outra compressa antes de levantar.
- Vou trazer algo para você comer - Ele não diz nada, invés disso, continua a me observar, agora a sair do quarto. E é quando estou do lado de fora, que desabo, temendo que ele morresse, mesmo nós não tendo nenhum vinculo ou algo parecido.
Quando me recomponho, desço os degraus da escada, entrando na cozinha, indo diretamente para a geladeira.
Abro a geladeira sem realmente enxergar o que estava dentro dela.
Meus olhos passavam pelos alimentos, mas minha mente continuava presa no quarto.
Em Lorenzo.
Na sua pele quente demais.
No jeito como sua voz estava fraca.
No medo que eu havia tentado esconder.
Eu já tinha visto pessoas em situações muito piores. Já tinha acompanhado pacientes lutando pela vida. Já tinha segurado mãos enquanto famílias choravam ao lado de uma cama de hospital.
Então por que aquilo parecia diferente?
Talvez porque, dessa vez, não existia uma equipe comigo.
Não existia um médico entrando pela porta.
Não existia alguém para assumir a responsabilidade caso algo desse errado.
Era apenas eu.
E Lorenzo.
Fecho a geladeira lentamente e apoio as duas mãos sobre a bancada, respirando fundo.
Eu precisava me controlar.
Precisava pensar como enfermeira, não como alguém emocionalmente envolvida com um desconhecido.
Mas era difícil quando lembrava dele dizendo que confiava em mim.
Pego alguns ingredientes e começo a preparar algo simples. Uma sopa mais leve, algo que ele conseguisse comer sem forçar muito. Enquanto corto os legumes, meus pensamentos continuam voltando para ele.
Principalmente para aquela pergunta.
“Está com medo?”
Eu tinha mentido.
Não completamente, mas o suficiente.
Eu estava com medo.
Não da máfia.
Não dos inimigos dele.
Mas da possibilidade de falhar.
De fazer tudo certo e ainda assim não ser suficiente.
O som da faca batendo contra a tábua de madeira preenche a cozinha até que um barulho vindo da escada faz meu corpo inteiro ficar alerta.
Viro rapidamente.
Mas não era Lorenzo.
Era apenas o silêncio da casa.
Solto o ar devagar.
Eu estava ficando paranoica.
E talvez com razão.
Termino a sopa e coloco em uma tigela. Antes de subir novamente, preparo também um copo de água e separo os medicamentos que ele precisaria tomar depois.
Quando abro a porta do quarto, encontro Lorenzo acordado.
Mas dessa vez ele não estava deitado.
Ele estava sentado na cama, encostado na cabeceira.
Meu coração acelera.
— O que está fazendo?
Ele olha para mim.
— Esperando você voltar.
Franzo a testa.
— Você deveria estar descansando.
— Você demorou.
A resposta me pega desprevenida.
— Eu estava fazendo comida.
— Eu sei.
Ele fala como se fosse óbvio.
Coloco a bandeja sobre a mesa ao lado da cama e me aproximo.
— Você levantou sozinho?
Ele não responde.
O silêncio entrega.
— Lorenzo.
— Eu precisava ir ao banheiro.
Minha expressão muda imediatamente.
— E conseguiu?
Um pequeno sorriso aparece.
— Sim.
Observo seu rosto por alguns segundos, tentando entender como ele conseguia parecer tão tranquilo enquanto eu estava quase entrando em pânico.
— Você precisa parar de agir como se não estivesse ferido.
— E você precisa parar de agir como se eu fosse quebrar.
Fico em silêncio.
Porque talvez nós dois estivéssemos errados.
Ele não era tão frágil quanto eu imaginava.
E eu não estava tão tranquila quanto tentava demonstrar.
Pego a tigela e entrego para ele.
— Come.
Dessa vez, ele não discute.
Come devagar, ainda demonstrando dificuldade, mas melhor do que antes.
Fico observando em silêncio.
— Você está me vigiando ou esperando eu desmaiar? — pergunta depois de alguns minutos.
— Os dois.
Ele solta uma risada baixa.
— Você sempre foi assim?
— Assim como?
— Cuidadosa.
A pergunta me faz pensar.
— Acho que sim.
Ele abaixa o olhar para a sopa.
— Deve ser difícil.
— O quê?
— Se importar tanto.
Não respondo imediatamente.
Porque aquela frase parecia menos uma observação sobre mim e mais uma confissão sobre ele.
— Nem sempre.
— Parece que sim.
Olho para ele.
— Por que diz isso?
Ele demora alguns segundos.
— Porque pessoas como você costumam se machucar mais.
Meu coração aperta.
— Pessoas como eu?
— Pessoas que ainda acreditam que podem salvar todo mundo.
Desvio o olhar.
Porque talvez ele tivesse razão.
Desde criança, eu sempre tentei cuidar de quem estava perto.
Primeiro meu pai.
Depois meus pacientes.
E agora Lorenzo.
— E pessoas como você? — pergunto.
Ele me encara.
— O quê?
— Pessoas como você costumam machucar mais?
O silêncio dele responde antes das palavras.
— Às vezes.
A honestidade me surpreende.
Ele não tenta se justificar.
Não tenta fingir que era diferente.
Apenas aceita.
Termino de ajeitar os remédios ao lado dele.
— Você precisa tomar isso.
Ele pega sem reclamar.
O que, vindo dele, parecia uma vitória.
Depois de alguns minutos, seus olhos começam a ficar pesados novamente.
— Isabella.
— Sim?
— Por que não chamou seu pai?
A pergunta me paralisa.
Eu sabia que ela chegaria.
Só não sabia responder.
Olho para a janela fechada.
— Porque ele teria feito o que achava certo.
— E você não acha?
Respiro fundo.
— Acho que ele tentaria proteger outras pessoas. Talvez até você.
Lorenzo franze o cenho.
— E isso seria ruim?
Não respondo.
Porque eu sabia que Romero faria tudo para impedir que alguém perigoso ficasse perto de mim.
Mas também sabia que ele nunca entenderia a situação da mesma forma que eu.
— Eu dei minha palavra.
Lorenzo fica completamente imóvel.
— Você está me protegendo porque prometeu?
A pergunta soa diferente.
Quase como se ele esperasse uma resposta específica.
Penso por alguns segundos.
— No começo, sim.
Ele sustenta meu olhar.
— E agora?
A pergunta me deixa sem resposta.
Porque eu não sabia.
Ou talvez soubesse e não queria admitir.
Baixo os olhos.
— Agora eu só quero que você fique bem.
O silêncio que vem depois parece maior do que o quarto.
Quando finalmente olho para ele, Lorenzo está me observando de uma forma diferente.
Como se aquelas palavras significassem mais do que eu pretendia.
— Isabella...
Sua voz falha.
— O quê?
Ele fecha os olhos por alguns segundos.
Quando abre novamente, parece cansado demais para continuar.
— Nada.
Pouco depois, ele adormece.
E eu permaneço ali.
Mas dessa vez não era apenas medo.
Era a sensação estranha de que, quanto mais eu conhecia Lorenzo Moretti, mais difícil ficava lembrar que ele era alguém que deveria permanecer longe da minha vida.
Porque, de alguma forma perigosa e inesperada, ele já tinha encontrado um lugar nela.
O restante da tarde passou de uma forma estranhamente silenciosa.
Silenciosa demais.
Eu estava acostumada com a correria do hospital, com telefones tocando, pessoas chamando meu nome, pacientes precisando de atenção e colegas andando de um lado para o outro.
Mas naquela casa, naquele momento, tudo parecia suspenso.
Como se o mundo lá fora continuasse acontecendo, enquanto dentro daquele quarto só existíamos eu e Lorenzo.
E isso era assustador.
Porque eu estava começando a me acostumar com a presença dele.
Termino de organizar algumas coisas sobre a escrivaninha, tentando ocupar minha mente com qualquer tarefa que não envolvesse olhar para a cama a cada cinco segundos.
Falhei.
Novamente olho para ele.
Sua respiração estava mais tranquila.
O rosto ainda demonstrava cansaço, mas pelo menos não parecia estar lutando contra a dor como antes.
Talvez os medicamentos estivessem começando a fazer efeito.
Talvez o corpo dele finalmente estivesse conseguindo descansar.
Sento novamente na cadeira ao lado da cama, apoiando a cabeça no encosto.
Por alguns minutos, permito fechar os olhos.
Apenas alguns minutos.
Era o que eu dizia para mim mesma.
Mas meu corpo parecia ter outras ideias.
Quando percebo, estou despertando com a sensação de alguém me observando.
Abro os olhos lentamente.
E encontro Lorenzo acordado.
Por um instante, esqueço onde estou.
Então tudo volta.
A casa.
O quarto.
Ele.
— Você dormiu — diz ele.
Minha voz sai rouca.
— Por alguns minutos.
Ele olha para a cadeira.
— Isso parece desconfortável.
— É melhor do que dormir no chão.
Um pequeno sorriso aparece.
— Então meu estado melhorou o suficiente para você admitir que estava desconfortável.
Reviro os olhos.
— Não mude de assunto.
Ele parece divertido.
— Você sempre responde assim?
— Assim como?
— Como se estivesse brigando comigo.
Cruzo os braços.
— Talvez porque você seja irritante.
— Talvez você só não esteja acostumada com alguém respondendo.
Essa frase me faz olhar para ele.
— O que quer dizer?
Ele dá de ombros, mas o movimento parece incomodar seu ferimento.
— Você cuida de todo mundo. Dá ordens. Resolve problemas. Talvez não goste quando alguém tenta cuidar de você.
Fico em silêncio.
Porque aquela observação tinha sido certeira demais.
— Você me conhece há pouco tempo.
— Às vezes pouco tempo é suficiente para perceber algumas coisas.
Desvio o olhar.
Eu não gostava do quanto Lorenzo conseguia me analisar.
Era como se ele enxergasse partes minhas que eu mesma tentava ignorar.
— Sua febre baixou um pouco — digo, mudando de assunto.
— Graças a você.
— Graças ao seu corpo também. Eu só ajudei.
Ele observa meu rosto.
— Você sempre diminui o que faz?
A pergunta me surpreende.
— Não.
Ele apenas me olha.
E aquele olhar deixa claro que ele não acredita.
Antes que eu possa responder, meu celular vibra sobre a escrivaninha.
O som faz nós dois olharmos para o aparelho.
Meu coração acelera.
Não porque fosse algo estranho.
Mas porque, naquele momento, qualquer coisa parecia uma ameaça.
Pego o celular.
Era uma mensagem do hospital.
Meu plantão começaria em algumas horas.
E eu precisava tomar uma decisão.
Não poderia ficar ali para sempre.
Mas também não conseguia imaginar sair e deixar Lorenzo sozinho naquele estado.
— Você precisa ir trabalhar — ele diz.
Olho para ele.
— Como sabe?
— Pela forma como olhou para o celular.
Suspirando, guardo o aparelho.
— Meu plantão começa à noite.
— Então você precisa descansar antes.
Dou uma risada sem humor.
— Você está preocupado com meu descanso?
— Sim.
A resposta simples me pega desprevenida.
Ele fala como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
— Você está cuidando de mim há mais de um dia.
— Não faz nem vinte e quatro horas.
— Para mim parece mais.
Fico sem resposta.
Porque, de certa forma, parecia mesmo.
Uma eternidade havia acontecido desde aquele beco.
— Lorenzo...
Ele me interrompe.
— Você não pode continuar fazendo isso.
Meu rosto muda.
— Fazendo o quê?
— Colocando sua vida em segundo lugar.
Aquelas palavras me incomodam.
Porque pareciam vindas de alguém que me conhecia melhor do que deveria.
— Você não sabe nada sobre a minha vida.
— Sei que você ficou acordada a noite inteira.
Silêncio.
— Sei que deixou de descansar para cuidar da minha febre.
Mais silêncio.
— Sei que provavelmente vai trabalhar cansada mesmo assim.
Abaixo o olhar.
Porque ele estava certo.
— Isso não é novidade para mim.
— Deveria ser.
Ergo os olhos.
Ele estava sério.
Sem provocação.
Sem aquele sorriso que usava para esconder as coisas.
Apenas Lorenzo.
— Você não pode salvar todo mundo, Isabella.
A frase me atinge mais forte do que deveria.
Talvez porque eu já tivesse ouvido algo parecido antes.
Meu pai.
Meus colegas.
Até eu mesma.
Mas nunca tinha levado realmente a sério.
— E você? — pergunto.
Ele franze o cenho.
— Eu?
— Você acha que pode salvar todo mundo?
O silêncio dele é imediato.
E dessa vez, eu vejo.
Vejo a resposta antes mesmo que ele diga.
— Não.
A sinceridade me surpreende.
— Então somos dois.
Ele mantém o olhar no meu.
Por alguns segundos, nenhum de nós fala.
Até que ele quebra o silêncio.
— Isabella.
— Sim?
— Se eu sair daqui...
A pausa faz meu coração apertar.
— Não pense que o que aconteceu foi culpa sua.
Franzo a testa.
— Por que está dizendo isso?
Ele olha para o teto.
— Porque eu conheço meu mundo.
A voz dele fica mais baixa.
— E sei que, quando as pessoas descobrirem que você me ajudou, vão tentar usar isso contra você.
Um arrepio passa pelo meu corpo.
— Você acha que vão vir atrás de mim?
Ele não responde imediatamente.
E isso é pior do que qualquer palavra.
— Lorenzo.
Ele volta a me olhar.
— Eu não sei.
A honestidade me assusta.
Porque pela primeira vez ele não parecia um homem que tinha todas as respostas.
Parecia apenas alguém preocupado.
Comigo.
— Mas enquanto você estiver aqui — continuo — ninguém vai chegar perto de você.
A frase sai antes que eu consiga pensar.
Lorenzo fica completamente parado.
Eu também.
Porque percebo o peso do que acabei de dizer.
Ele lentamente sorri.
Não aquele sorriso provocador.
Um sorriso diferente.
Quase triste.
— Você realmente não sabe desistir, não é?
Solto o ar devagar.
— Talvez não.
Ele fecha os olhos novamente.
Mas dessa vez, antes de dormir, murmura:
— Ainda bem.
E, por mais que eu soubesse que aquela frase deveria me preocupar...
Ela fez meu coração bater um pouco mais rápido.
