Capítulo 1 Lar doce lar( milena)
Cavalgo pelos descampados sob um céu azul‑claro que começa a ganhar tons dourados com a aproximação da tarde, o vento fresco acariciando minha pele suavemente, trazendo consigo o aroma de terra molhada e mato verde que se infiltra devagar pelas minhas narinas. Eu amava aquela sensação inebriante de liberdade: quando eu cavalgava, todas as preocupações, os pequenos aborrecimentos do dia‑a‑dia, as conversas difíceis que eu tinha evitado na semana, tudo passava a segundo plano, restando apenas eu e o cavalo. Seus cascos batiam suavemente sobre a terra úmida, num ritmo constante que parecia sincronizar‑se com o meu coração; ele sabia meus caminhos preferidos, parava sozinho diante do pequeno riacho onde eu gostava de parar para observar as águas correrem e ouvir os pássaros escondidos entre os arbustos. Às vezes eu estendia a mão para acariciar a sua crina escura, sentindo a sua respiração quente e calma, e sentia que ali não havia barreiras, só a quietude do campo. Ninguém me chamava por obrigações, ninguém esperava que eu fosse alguém diferente: ali eu só era eu, montada no meu companheiro de tantas tardes. Eu costumava seguir até a colina mais alta da fazenda, de onde se podia ver as casas pequenas espalhadas pela planície, as árvores que marcavam os limites das propriedades, e por alguns minutos ficava ali parada, respirando fundo, deixando que o vento levasse embora qualquer peso que eu carregava. Não tinha pressa, não tinha horário; a tarde se estendia como um presente.
Quando retornei para casa, o sol já se punha majestoso no horizonte, tingindo as nuvens de laranja, rosa e roxo. Entrei devagar na baia, soltei o meu cavalo que eu havia batizado de Garanhão, por sua força e porte altivo , escovei‑lhe a crina e os flancos para tirar o pó da estrada, servi‑lhe uma farta porção de feno seco e água abundante, observando‑o comer com calma. Só então, depois de ter certeza de que ele estava confortável, entrei na casa de madeira cheia de cheiros familiare, café guardado, farinha de milho, a erva que a minha avó sempre deixava secar na janela. Fui ao banheiro, liguei o chuveiro e deixei que a água quente lavasse o cansaço da cavalgada, a poeira das estradas e a tensão acumulada nos ombros. Vesti uma blusa de algodão macio e uma saia longa, e me sentei à mesa de madeira escura juntamente com os meus avós para jantarmos. Na mesa havia feijão tropeiro, pão quente que a avó tinha assado no forno a lenha, e suco de laranja natural. A luz da lamparina a óleo espalhava sombras suaves pelas paredes.
— Cavalgou muito hoje, filha… minha avó começou, olhando‑me com um sorriso tranquilo enquanto servia mais feijão no meu prato.
— Bastante, vovó. Perdi a noção do tempo. Sabe como eu adoro cavalgar com o Garanhão respondi, sorrindo também, lembrando‑me da vista da colina.
— Está mais vermelha que um pimentão… disse o meu avô, com aquele olhar brincalhão que ele tinha quando queria provocar‑me.
— Ora, vovô! O senhor vive dizendo que eu preciso pegar uma corzinha do sol… repliquei, rindo.
— Engraçadinha… murmurou ele, balançando a cabeça, mas os olhos dele brilhavam de afeto. Não dizia abertamente, mas para mim ele era muito mais do que um avô: ele havia sido a figura que eu conheci como pai, desde que eu era pequena, ele me ensinou a montar, a reconhecer as plantas boas e as perigosas, a ouvir os sons da noite sem medo. A sua presença era a minha segurança.
Depois do jantar, quando a noite já caía completamente sobre a fazenda, me enrolei num cobertor felpudo de lã que a minha avó tinha tecido, e fui para a varanda ampla. Lá já estavam a minha avó e os trabalhadores da fazenda reunidos, sentados em bancos de madeira, ouvindo como de costume o meu avô cantar moda‑caipira enquanto tocava a viola. A luz de uma fogueira pequena no quintal dançava sobre os rostos das pessoas; o som da viola saía suave, e a voz do avô, já rouca e cansada pelos anos, carregava histórias antigas, de terras, amores e perdas. Eu amava ouvi‑lo cantar. Naquele momento ele começou a tocar a minha música favorita: a canção que nós cantávamos juntos ao redor da fogueira nas noites geladas de inverno, quando o vento soprava forte e a fazenda ficava toda em silêncio. Movida pela emoção, sem pensar muito, soltei a voz para acompanhar a melodia. Surpreso mas feliz, o meu avô me seguiu como segunda voz; as nossas vozes se entrelaçaram no ar da noite. Quando terminamos o dueto, choveram palmas e assobios calorosos, e algumas mulheres ali presentes enxugavam o canto dos olhos, tocadas pela canção e pela nossa união. Conversamos um pouco mais depois disso, mas já era tarde quando o pequeno grupo se despediu e partiu para suas casas. Após apagar a fogueira, nós também entramos para dormir.
Como de costume, fui acordada cedo pelo canto do galo que ecoava por toda a fazenda. O ar ainda estava fresco, com um toque de orvalho. Vesti um jeans resistente e as minhas botas de couro desgastadas, peguei um balde limpo e fui ao curral ajudar o meu avô a tirar o leite das vacas. Trabalhamos em silêncio por um tempo, só ouvindo os sons grotesco dos animais e o movimento das mãos experientes dele. Quando terminamos, nos sentamos num banco de madeira do lado do curral para nos deliciarmos com uma caneca de leite morno tirado na hora, ainda quente e doce. Era a nossa maneira de começar o dia: sem pressa, partilhando aquele pequeno momento de calma antes de todas as tarefas da fazenda começarem. Olhei para o céu que clareava devagar, pensei que nada me faltava ali, a vida era perfeita.
