Capítulo 2 Objeto de prazer( ryan)

Observo através do óculos a jovem com um sorriso descarado no rosto, vestindo um mini‑vestido leve, que se aproxima devagar da minha mesa de professor. O som dos passos dela ecoa suavemente no auditório quase vazio, depois da saída da maior parte dos estudantes. Eu já esperava por essa aproximação; ela costumava ficar por último depois das aulas.

— Professor Ryan, não estou entendendo a questão três… pode me explicar novamente?  diz ela, com voz doce, inclinando‑se um pouco para frente.

— O que exatamente você não compreendeu, Luana?  pergunto, mantendo a postura neutra na minha cadeira de rodas, tentando não demonstrar qualquer desconforto.

— Absolutamente tudo. responde‑me ela, com um tom levemente provocante.

Apesar de saber que ela nao  queria  de fato explicação  de nada que aquilo era  um pretexto descarado, faço  meu trabalho  e começo a explicar o exercício passo a passo, apontando os pontos principais no caderno aberto sobre a mesa. Ela se debruça ainda mais sobre a superfície, de maneira que o seu farto decote fica a poucos milímetros dos meus olhos. Nesse ponto da minha trajetória como docente, já estava mais do que acostumado aos avanços nada discretos das minhas alunas, que a cada dia se tornavam mais ousadas . É estranho pensar nisso: o interesse das mulheres por mim triplicou depois que fiquei paraplégico. Creio que sou como algo desconhecido para elas, uma curiosidade que querem desvendar; como se eu fosse um objeto para testar se “ainda funciono”, sem parar para pensar nos meus sentimentos.

Houve uma época em que partes de mim realmente não funcionavam. Fui completamente dependente, outras pessoas me alimentavam, me banhavam, eu usava fraldas para as minhas necessidades fisiológicas. Foram dias terríveis, cheios de vergonha e desespero. Lembro‑me de implorar constantemente pela morte, mas ela nunca chegava. Cansado de sobrecarregar os meus pais, que passavam noites acordados para cuidar de mim, decidi me internar numa clínica de reabilitação  e, para ser sincero, foi a melhor escolha que já fiz. Lá aprendi muito sobre mim mesmo, passei a compreender a minha deficiência e os meus limites, e fui reaprendendo a controlar o meu corpo aos poucos. Coisas simples, como tomar banho sozinho, evacuar, urinar, e até fazer amor, tornaram‑se novamente possíveis. Claro que esse último exige muita concentração da minha parte; mais do que muita gente imagina, há momentos inevitáveis e muito vergonhosos de impotência. Sinto um gosto amargo na boca só de lembrar. Uma vez aconteceu com a mulher que eu pensei ser o amor da minha vida… e a reação dela foi uma risada debochada, uma lembrança que ainda guardo bem no fundo da alma. Desde aquele dia jurei a mim mesmo que nunca mais ia me apaixonar. Para mim, as mulheres passaram a ser o que eu parecia ser para elas: algo só para prazer. É só o que eu ofereço; em troca, ganho um pouco mais de autoestima, a sensação de que ainda posso satisfazer alguém, recuperando um pouco da masculinidade que parecia ter se perdido junto com o movimento das minhas pernas. Não quero mais correr o risco de me abrir e ser ridicularizado novamente.

Volto a olhar para a jovem à minha frente.

— Entendeu a questão agora, Luana?  pergunto, voltando‑me para o caderno.

— Ah, sim, perfeitamente, Ryan…  responde‑me ela, usando o meu primeiro nome de propósito, com uma intimidade que sabe  que não é o adequado na sala de aula.

Eu sabia muito bem que ela não tinha prestado atenção a nada do que eu disse. Os olhos dela não seguiam os meus apontamentos, mas observavam‑me com curiosidade impetuosa e cheia de lascívia

— Então pode voltar para o seu lugar  falo, firme.

Ela faz um biquinho contrariado e caminha até a carteira como se estivesse numa passarela, balançando os quadris de forma deliberada. Admito que ela era atraente, mas eu tinha um princípio: nunca me envolver com alunas. Era o meu código de honra, e de certa forma uma proteção contra  um processo. Além disso, nunca me senti atraído por universitárias mimadas e superficiais; sempre preferi mulheres mais maduras, com mais experiência, que não esperariam um compromisso para toda a vida depois de uma noite juntos. Elas entenderiam melhor os meus limites, pensei.

Já passava do meio‑dia quando volto ao meu apartamento, todo adaptado para a minha mobilidade, com corredores largos, torneiras de fácil alcance e banheiro preparado para a cadeira de rodas; ali eu conseguia me sentir novamente um homem completo, sem olhares de pena. O Bob, o meu cachorro de pelagem marrom, vem latindo alegre ao meu encontro assim que eu entro. Acaricio o seu focinho com carinho, depois vou tomar um banho longo, para tirar o cansaço da aula e a tensão da conversa com Luana. Visto uma bermuda confortável, sirvo ração para o Bob e, para mim, pego um litrão de cerveja e um pacote de batatas fritas. Era o meu almoço daquele dia. Já fazia bastante tempo que eu não preparava ou comia uma refeição caseira de verdade. Às vezes, era mais fácil se deixar levar pela rotina solitária, sem ter que conversar ou se expor a novas decepções. Sento‑me na varanda, observo o sol alto no céu e ouço o cachorro comer tranquilamente, enquanto penso se um dia eu vou conseguir deixar o passado para trás e seguir em frente .

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