Capítulo 3 Amor da minha vida ? Milena

Deitados lado a lado sobre a grama macia e verdinha da propriedade dos meus avós, Billy e eu observávamos o céu estrelado que se espalhava sem fim sobre a fazenda. O vento leve passava pelas copas das árvores ao redor, trazendo o cheiro suave de capim‑molhado e jasmim que crescia perto da cerca. Nenhuma palavra foi dita por longo tempo: cada um estava preso nos seus próprios pensamentos, envolvido pela calma da noite rural.

Billy é uma das pessoas que eu mais gosto no mundo: engraçado, companheiro, meu confidente há toda a vida. Crescemos juntos, correndo pelos pastos, brincando de esconde‑esconde nos galpões, compartilhando segredos que nunca contamos a mais ninguém. Éramos melhores amigos desde a primeira infância, e mantivemos esse vínculo forte até o segundo ano do ensino médio foi então que ele me pediu em namoro, debaixo daquela mesma árvore onde costumávamos sentar‑nos para conversar. Eu, sem hesitar, aceitei. Seus pais e meus avós aprovaram‑nos sem nenhuma surpresa; na verdade, todos já sabiam que, mais cedo ou mais tarde, isso acabaria acontecendo. Nossa ligação parecia tão natural para todos que ninguém chegou a se perguntar se daria certo, como se fosse um destino já escrito.

- Dormiu, Milena? perguntou ele baixinho, quebrando o silêncio da noite.

Girei o corpo para ficar de lado, e ele me imitou de imediato. Ficamos nos encarando, olho no olho, e havia tanta coisa guardada naquele olhar: carinho, confiança, anos de histórias compartilhadas, pequenas alegrias e também algumas tristezas que passamos lado a lado. Então ele se aproximou um pouco mais e colou seus lábios aos meus. Seus beijos não eram intensos, nem quentes; não faziam minha respiração acelerar, nem meu coração disparar no peito não que eu já tenha sentido isso com alguém antes. Seus beijos eram doces e calmos, e me transmitiam uma sensação agradável de tranquilidade, de paz. Era como voltar para casa, para um lugar seguro onde não precisava ter medo de nada.

Depois de um momento suave, ele se levantou, estendeu a mão para mim e me ajudou a ficar de pé também. Caminhamos devagar pela grama em direção à casa principal, os passos leves sobre o solo ainda quente do dia. Meus avós, como de costume, estavam acomodados no sofá da sala, assistindo televisão sob a luz suave e amarelada do abajur.

- Billy, meu filho, sente‑se aí e assista futebol comigo chamou meu avô, batendo a mão no assento ao seu lado com um sorriso acolhedor.

Billy aceitou, claro. Ele era o tipo de rapaz que sempre buscava agradar a todos, especialmente ao meu avô, que ele já chamava carinhosamente de "sogrão". Enquanto os dois se acomodavam para ver o jogo, minha avó me puxou pela mão até a cozinha para preparar um chá quente de camomila e biscoitos caseiros que ela tinha assado no final da tarde. Conversamos baixinho sobre a noite, sobre Billy, sobre como tudo parecia seguir um caminho previsto, sem surpresas grandes. Ela comentou que era bom ter alguém tão fiel ao meu lado, e eu concordei, mas havia um nó pequeno no meu peito que eu não conseguia explicar.

Mais tarde, já tarde da noite, o jogo terminou. Billy se despediu de mim na porta da frente com um casto beijo na testa. Eu fiquei ali parada, observando‑o subir no seu jipe antigo; o motor ligou com um ronco suave, e ele se afastou pela estrada de terra, deixando uma nuvem fina de poeira que se dissipou na escuridão até ele desaparecer completamente de vista.

Subi devagar para o meu quarto, vesti meu pijama estampado de oncinha e me enrolei debaixo das cobertas macias. Rolei de um lado para outro da cama várias vezes, mas o sono não chegava. Irritada e inquieta, joguei as cobertas no chão, me levantei e me debrucei sobre o parapeito da janela. Olhei para as mesmas estrelas que tínhamos admirado juntos pouco antes, brilhando no céu escuro.

Billy... Billy... Billy...

Gostava de Billy, gostava muito dele. Ele era meu amigo, meu namorado, alguém que me conhecia melhor do que quase ninguém, que sabia dos meus medos e dos meus sonhos. Mas, bem no fundo do meu coração, havia uma sensação silenciosa que não me deixava mentir: ele não era o amor da minha vida. Não havia nada de errado com ele; ele era gentil, leal, sempre presente. Talvez o que faltasse fosse aquele fogo misterioso que eu ainda não sabia nomear, uma espera que eu nem mesmo tinha coragem de confessar para mim mesma. Fiquei ali debruçada, olhando o céu estrelado, pensando no que o futuro guardava para nós dois, sem saber exatamente o que fazer com esse sentimento quieto que crescia dentro de mim,sem querer magoar quem me amava tanto e esteve ao meu lado desde a infância. O vento soprou suavemente pela janela aberta, trazendo novamente o cheiro de jasmim, e eu me perguntei se um dia eu encontraria o que meu coração realmente procurava.

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