Capítulo 4 Sua casa ou a minha ( ryan)

​A iluminação penumbrosa e a música baixa criavam a atmosfera perfeita para a sedução. Sorvi um longo gole de dry martini, apreciando o sabor rústico e seco do gim com o vermute, enquanto me deleitava com os olhares provocantes que uma linda mulher, em um fulgurante vestido vermelho, me lançava do outro lado do bar. O ambiente era envolvente: luzes amarelas difusas desenhavam sombras suaves pelas paredes de madeira escura, e as notas aveludadas de um jazz-blues preenchiam cada canto do espaço como uma névoa densa. Fiquei a observá-la por alguns minutos  a maneira como movia os ombros ao ritmo da música, como passava a ponta dos dedos delicadamente pela borda do copo e como lançava olhares rápidos e certeiros na minha direção.

​Discretamente, chamei o garçom e pedi que servisse na mesa dela, lá no fundo do bar, um sex on the beach. Era o meu drink favorito, um afrodisíaco perfeito para dar início a uma noite inesquecível. Imaginei-a provando a mistura, sentindo o toque doce do pêssego e o frutado do xarope de groselha e da laranja enquanto pensava em mim. Apenas essa imagem já fez uma fagulha de excitação crescer no meu peito.

​Assim que recebeu a bebida, a encantadora mulher sorveu um longo gole, lambendo os lábios devagar. Em seguida, com um gesto simples e magnificamente dominador, usou as pontas dos dedos para me chamar até sua mesa. Meu coração acelerou,eu já esperava reciprocidade, mas aquela atitude direta e sem rodeios me surpreendeu de forma deliciosa.

​Preparei-me para sair do meu lugar: ajustei os apoios da cadeira de rodas, verifiquei os freios e firmei as mãos nos aros. Tudo teria sido perfeito se não fosse pela arquitetura perversa do lugar. As mesas estavam dispostas coladas umas às outras, transformando o trajeto em um labirinto sufocante para a minha cadeira.

​A partir dali, o clima de romance deu lugar a um suplício vertiginoso. Foi um puxa-puxa infernal de cadeiras e mesas para que eu pudesse avançar alguns centímetros. Clientes impacientes murmuravam desaforos  comentários maldosos e piadas veladas sobre a minha lentidão. Não baixei a cabeça respondi a cada um à altura, com voz firme e olhar cortante. Contudo, cada obstáculo parecia inflar minha frustração: a borda de uma mesa batia no apoio de braço, o pé de uma cadeira prendia na roda dianteira, e pessoas fingiam não ouvir quando eu pedia licença. Sentia os olhares julgadores queimando na minha nuca, como se a minha existência ali fosse um erro, um incômodo no caminho rumo à mulher que me esperava.

​Quando finalmente alcancei a mesa dela, eu estava exausto, com as palmas das mãos doloridas e uma raiva fervilhante no peito. A tensão daquele percurso indigesto pulsava nas minhas têmporas. Notando o meu estado alterado, a mulher estendeu-me um copo de água com olhar sereno. Recusei o gesto sem delicadeza alguma, em vez disso, chamei o garçom aos berros e ordenei uma garrafa de whisky.

​Assim que a garrafa e um copo baixo tocaram a mesa, servia-me e sorvi uma dose generosa de uma vez. O líquido desceu queimando pela garganta, rasgando o peito e levando embora um pouco do sentimento de inferioridade que me assolava desde que me vi preso entre as mesas daquele bar. O álcool amenizou a fúria, permitindo que eu ignorasse o cochicho dos outros clientes e voltasse minha atenção inteiramente para a mulher à minha frente.

​— Você está bem? perguntou ela, com a voz calma e aveludada, sem demonstrar qualquer espanto com a minha explosão.

​Percorri lentamente o olhar pelas curvas desenhadas pelo tecido vermelho do seu vestido, demorando-me nos lábios carnudos e brilhantes. Pensar na beleza que eu quase havia deixado escapar por conta daquele percurso tortuoso só alimentou a minha audácia.

​— Não estou bem... mas posso ficar. Só depende de você  respondi, com a voz rouca pelo efeito do álcool e pelo resquício da irritação.

​— De mim?  repetiu ela, com um leve e enigmático sorriso no canto dos lábios.

​— Sim, linda... Apenas de você  murmurei devagar, sustentando o olhar fixo em sua boca.

​Entendendo o jogo, a mulher  cujo nome eu nem sequer havia me dado ao trabalho de perguntar sorveu mais uma dose do seu drink, lambendo novamente os lábios sob o meu olhar faminto.

​Então, com um movimento suave, fluido e carregado de segurança, ela se levantou da cadeira. Em vez de caminhar até mim, transferiu-se diretamente para o meu colo. O tecido macio e quente do vestido vermelho roçou na minha pele, e seu perfume — uma mistura envolvente de frutas e notas amadeiradas  dominou todos os meus sentidos. Ela se inclinou, aproximando o rosto do meu pescoço, e sibilou bem perto do meu ouvido, com uma respiração morna e pausada:

​— Na sua casa... ou na minha?

​Por um instante, todo o bar ao redor desapareceu. Os olhares tortos, os desaforos murmurados, a frustração do trajeto difícil  tudo se esvaiu no ar. Restou apenas o peso gostoso do seu corpo no meu colo, o sussurro provocante no meu ouvido e a certeza absoluta de que a noite estava apenas começando.

Já era alta madrugada quando cruzei o umbral de casa. Como de costume, o silêncio denso e sepulcral me recebeu como um abraço gélido. Não havia — e sabia que jamais haveria — alguém me esperando com as luzes acesas. Rumei direto para o banheiro e tomei um banho escaldante e demorado, esfregando a pele com força até avermelhá-la, na tentativa desesperada de arrancar cada vestígio do sabonete e do perfume doce daquela mulher de vestido vermelho.

A verdade nua e crua é que eu não me orgulhava do meu comportamento. Pelo contrário: sentia uma vergonha visceral de mim mesmo. Enxergava-me como um ser deplorável, um fantasma de homem que precisava arrastar uma mulher diferente para a cama a cada noite apenas para alimentar a ilusão de que ainda mantinha sua virilidade intacta.

Afinal, o que é necessário para ser um homem de verdade?

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