Capítulo 5 Sem esperança ( ryan)

Essa pergunta me assombrava dia após dia, ecoando no vazio da minha mente. Quando o acidente arrancou o movimento das minhas pernas, levou embora também uma parte vital de quem eu era. E o que sobrou de mim foi dizimado pela zombaria cruel da minha ex-namorada. Ela destruíra minha segurança, minha paz e a dignidade que me restava. Naquele momento sombrio do diagnóstico, tudo o que eu mais desejava era que ela tivesse sido compreensiva, que tivesse me abraçado em silêncio e dito que ficaríamos bem. Mas o desprezo no olhar dela fora o golpe final.

— Maldição!  vociferei para o vazio.

Num impulso cego de fúria, desferi um soco violento contra o espelho do banheiro. O vidro se estraçalhou em mil pedaços reluzentes que despencaram na pia e no chão, varrendo para longe a imagem refletida daquele inválido que eu tanto detestava encarar. A dor física na mão não era nada comparada ao abismo no meu peito. Eu não ficaria ali, remoendo as cinzas de um passado que já não me pertencia. A vida seguia, implacável, eu  continuaria sendo exatamente o canalha gélido que todas elas esperavam que eu fosse.

Fiz um curativo improvisado e apressado na mão ensanguentada. Sem me importar em vestir qualquer roupa, arrastei-me para a cama, enfiei-me debaixo das cobertas pesadas e, exausto pela descarga de adrenalina e álcool, apaguei em um sono profundo e conturbado.

Acordei bruscamente quando o cobertor foi arrancado do meu corpo de uma só vez, seguido por uma praga sonora.

— Por Deus, homem! Você não conhece o conceito de roupas, não?

Pisquei contra a claridade, ajustando a visão para encarar a figura parada ao pé da cama.

— E você não conhece o conceito de bons modos, não é mesmo, Fabrício?  respondi, ranzinza, cobrindo-me com os braços.  Como ousa invadir o meu quarto a esta hora da manhã?

— Já passou das dez, Ryan!  retrucou ele, balançando a cabeça.

Fabrício caminhou até o meu guarda-roupa, abriu as portas sem cerimônia, pegou uma calça de moletom cinza e a atirou diretamente no meu peito.

— Vista isto antes que a Emily entre aqui e fique traumatizada para o resto da vida.

— Se ficando casada com você ela ainda não traumatizou, não vai ser o meu corpo que fará isso  provoquei, ajustando a postura na cama.

— Engraçadinho . debochou ele, cruzando os braços.

— Ela está aqui?  perguntei, arqueando uma sobrancelha.

— Está na sua cozinha, tentando preparar um lanche para nós...

— Vocês dois estão folgados demais. Qualquer dia desses vou trocar as fechaduras desta casa.

A expressão divertida no rosto do meu irmão mais velho desmoronou em questão de segundos. O tom profissional do médico deu lugar ao olhar pesado e fraternal de quem conseguia enxergar além da minha armadura.

— Você está bem de verdade, Ryan?  perguntou ele, a voz baixando de tom.

— Nunca estive melhor  !forcei um sorriso debochado que não convenceu Fabrício por um único segundo. Ele me conhecia bem demais para cair naquela cena.  Inclusive, ontem à noite dormi com uma morena espetacular...

Fabrício sustentou o olhar sobre mim por um longo tempo,pude ver a nítida desaprovação e a dor contida em seus olhos experientes.

— Saia Fabrício !pedi mudando o tom.  Preciso de privacidade para me vestir.

— Ora, agora essa! Por acaso não se lembra das dezenas de vezes em que tive que lavar sua bunda enquanto você estava internado naquele hospital?

Revirei os olhos,era claro que eu me lembrava. Meu irmão era neurocirurgião e, quando sofri o acidente catastrófico que me condenou a esta maldita cadeira de rodas, ele movera céus e terras para assumir o meu caso pessoalmente, cuidando de mim nos meus piores dias.

— Aquilo eram outros tempos,agora eu não preciso mais da ajuda de ninguém.

Sem dar a menor importância aos palavrões que eu murmurava entre os dentes, Fabrício aproximou-se, ajudou-me a sentar na borda da cama e, com a praticidade de quem já fizera aquilo mil vezes, me vestiu a calça.

— Prontinho, resmungão. Deixe de fita e vamos comer.

Acomodei-me na cadeira de rodas e fomos para a cozinha, onde um cheiro denso de queimado impregnava o ar. Emily estava diante do fogão, encarando uma frigideira fumegante com uma expressão de total derrota.

— Está tentando incendiar a minha cozinha, cunhadinha?  perguntei, cruzando os braços.

Emily se virou rápido e me fuzilou com o olhar, antes de colocar sobre a mesa um prato com omeletes visivelmente carbonizados.

— Eu nunca disse que era uma boa cozinheira .defendeu-se ela, dando um sorriso sem graça.

Fabrício deu a volta na mesa, aproximou-se por trás e envolveu a cintura da esposa em um abraço afetuoso, apoiando o queixo no ombro dela.

— Mesmo você sendo a pior cozinheira deste estado, eu ainda continuo te amando perdidamente...

— Eu também te amo, seu bobo  respondeu ela, selando os lábios dele num gesto carinhoso.

— Dá para vocês dois deixarem esse melosismo para quando estiverem na casa de vocês?  resmunguei, ajustando a posição da cadeira junto à mesa.

— Calma cunhado,  disse Emily rindo enquanto ajeitava o cabelo.  Você vai ficar totalmente livre de nós dois por um mês inteiro.

— É mesmo?  perguntei, surpreso.  Vão finalmente comemorar uma segunda lua de mel para ver se me dão um sossego?

Fabrício interveio, adotando uma postura mais séria:

— Infelizmente não mano , vamos a trabalho. Fui convidado para palestrar em alguns congressos em Nova York e, no fim do mês, vou integrar a equipe cirúrgica que fará a separação de gêmeos siameses colados pelo tórax. É um procedimento raríssimo.

Ao ouví-lo falar, uma onda fria de inveja amarga me perfurou o peito. Inveja da vida irretocável do meu irmão,em tudo o que tocava, Fabrício parecia florescer: no campo profissional, era aclamado como o melhor cirurgião da cidade, colecionava prêmios internacionais e salvava vidas. No campo pessoal, a história não era diferente: era casado com uma mulher incrível, carinhosa e companheira, que largava tudo para segui-lo pelo mundo e apoiar cada um dos seus projetos.

Passando um filme rápido sobre a minha própria existência, enxerguei apenas um rastro de ruínas. Tudo o que eu queria ter construído e não fiz, meus sonhos de juventude, minhas ambições concretas... Eu já fora um homem cheio de energia, garra e planos. Agora, não passava de um caco oco, amargurado e desprovido de qualquer esperança.

— Ryan? Ryan!

A voz aguda de Emily me arrancou bruscamente da espiral de pensamentos sombrios.

— Hã? O que foi? pisquei, recompondo a postura.

— Aonde você foi parar, homem?  perguntou ela, rindo fraco.  Eu estava dizendo que, como queimei o nosso café, podíamos ir todos juntos tomar um lanche reforçado na cafeteria da esquina. O que acha?

— Vão vocês  respondi, recuando a cadeira um passo.  Não estou no clima para passeios.

Antes que eles pudessem protestar ou tentar me convencer com discursos piedosos, girei as rodas com força, rumando direto para o meu quarto e batendo a porta. Girei a chave na tranca com um estalo seco, buscando abrigo na única coisa que me restava: a minha própria solidão.

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