Capítulo 12 12
Ana Júlia
Boa, Ana! Vibrei por dentro. O homem me encarou passível por alguns segundos, sem dizer uma palavra e isso me incomodo um pouco.
— Boa resposta! — disse um tanto ríspido.
O que há de errado com ele? Parece que quanto mais acerto, mais ele se irrita.
Perguntei internamente, tentando não demostrar o meu incomodo. O observei atenta ele abrir uma gaveta em sua mesa e ele pegou algumas folhas de papel em branco e uma caneta, depois os estendeu em minha direção.
— Escreva o que eu ditar, senhorita — pediu formalmente.
Me ajeitei na cadeira e debrucei-me levemente sobre sua mesa e segurei a caneta, aguardando que ele começasse a falar. Nesse momento ele começou a ditar em uma velocidade considerável e paciente, uma carta de pelo menos vinte linhas. Enquanto ditava, ele andava de um lado para o outro da sala, com suas mãos nos bolsos da calça. Depois recuou da minha cadeira, se inclinou um pouco e pegou o papel sobre a mesa.
O simples gesto faz o meu coração acelerar, deixando-me atordoada.
Ele observou em silêncio a minha letra por um tempo e sem dizer nada volta a sentar-se em sua cadeira. Doutor Luís fez algumas anotações em outro papel e o arquivou junto ao meu currículo. Eu apenas o observei atenta, esperando que ele dissesse algo que me ajudasse a perceber se me saí bem ou não na maldita entrevista.
— Obrigado por vir, senhorita Falcão! — disse simplesmente. — Cassandra a acompanhará até a saída. Qualquer coisa, entraremos em contato com você. Tenha uma boa tarde! — falou sem me olhar, organizando os papéis que estavam em sua mesa em uma pasta à parte.
É só isso, acabou?
— Obrigada pela oportunidade, senhor Alcântara! — digo com ama tranquilidade que no momento eu não tenho, pois, a minha vontade é de gritar com ele.
Levanto-me da cadeira e vou em direção à porta de saída. Encontro Cassandra assim que abro a porta. Ela me lança um sorriso doce, que retribuo e por fim eu a acompanho, mas antes de sair, me atrevo a dizer.
— Tenha uma boa tarde, senhor Alcântara! — Ele apenas assente, ainda de olho nos malditos papéis.
Mal-educado!
A entrevista terminou perto das cinco horas da tarde, e não sei por que, mas acredito que dessa vez dará certo. Por algum motivo me sinto tranquila. A final respondi todas as perguntas da entrevista sem hesitar e isso causa uma boa impressão, certo? Também digitei e escrevi textos de forma rápida e precisa. Ainda tinha mais uma oportunidade circulada nos classificados do jornal, mas com certeza não dará tempo para mais uma entrevista de emprego. Agora só me resta torcer para que algumas das que fiz dê tudo.
Pego um ônibus para ir para casa e me sento no último banco que surpreendemente estava vazio para o horário de pico. Em algum momento da viagem me peguei pensando no doutor Luís Renato Alcântara. O cara é uma espécie de deus grego.
Muito lindo mesmo!
É ruivo, alto e mesmo usando um terno, dava para perceber que ele é forte. Talvez até pratique algum tipo de exercício físico ou um esporte. Seus olhos castanhos muito claros refletiam um brilho triste. Eu senti isso em sua voz também. Deus do céu! A sua voz grave é de derreter qualquer mulher desavisada! Um espetáculo de homem! Pego-me rindo dos meus pensamentos audaciosos e suspirei em meio às minhas especulações mentais. Droga!
O que há de errado com você, é melhor colocar a sua cabeça no lugar e pensar em trabalho, dona Ana Júlia Falcão! No momento é só disso que você precisa, trabalho!
Chego em casa perto quando já está escuro. Entro e vou direto para o quarto, me livro dos saltos que estão me matando, depois de um dia inteiro andando atrás de trabalho. Entro no banheiro e me livro das minhas roupas e as ponho no cesto para lavar. E quando sinto a água fria e deliciosa molhar o meu corpo, imediatamente me sinto relaxar. Caramba! Um banho mais do que merecido!
Quando termino, me dedico a secar-me e ponho uma roupa mais leve.
Olho-me no espelho do quarto e não gosto do que vejo: meu rosto está abatido e cansado e tenho olheiras ao redor dos meus olhos. Respiro fundo e saio do quarto, vou para a cozinha e preparo um jantar prático e rápido para esperar a minha amiga chegar do seu trabalho e enquanto estou preparando tudo, pego-me pensando na entrevista de hoje à tarde. Apesar de o bonitão ser arrogante e mal-educado, eu preciso daquele emprego e se for preciso, farei vista grossa para o seu mau-humor gratuito, afinal, o importante é resolver a minha vida e quem sabe futuramente voltar ao meu curso. Ergo a minha cabeça no exato momento em que a Mônica entra em casa. A observo jogar as chaves e sua bolsa em cima do sofá e ela força um sorriso para mim.
— Cansada? — pergunto.
— Acabada, amiga! Tomo um banho e volto rapidinho para saber como se saiu nas entrevistas — avisa. Espero que tome o seu banho, porém o jantar fora rápido e uma conversa curta, pois logo ela estava mergulhada nos trabalhos que trouxe para casa.
Após deixar a cozinha arrumada, fui para o quarto e peguei um bom livro para tentar me distrair um pouco. Sim, eu amo ler romances onde o badboy vira o inesperado mocinho romântico e faz de tudo para conquistar a garota simples e meiga da história. Empolgada com a leitura, não senti a hora passar. Já era tarde quando me forcei a parar a leitura e tentei dormir. Não é nada fácil dormir quando se está sem sono e com a cabeça cheia de coisas para se pensar. Saio da cama e vou até à cozinha, bebo um pouco d’água, depois volto para o quarto e só então, depois de rolar na cama por um longo tempo, adormeço e sonho mais uma vez com a minha mãe.
