Capítulo 5 5

Ana Júlia

— Sei que posso contar com você sempre, minha amiga. Sempre!

Dou voz aos meus pensamentos.

— Por que não vai comer algo, aqui mesmo no hospital? — pergunta. — Eu fico aqui com ela até você voltar, o que acha?

Tiro os meus olhos de cima da minha mãe e a encaro. Tenho vontade de dizer que não. A verdade é que tenho muito medo de afastar-me dela agora.

— Não sei, Mônica. Na verdade, eu não sinto fome alguma e também não quero sair de perto dela agora — falo com sinceridade.

— Ana, você precisa comer alguma coisa. — Ela insiste. — Faz dias que você não dorme direito e eu tenho certeza de que Rose não quer te ver assim.

Ela tem razão. Minha mãe sempre lutou a sua vida toda por mim e por ela e nunca foi de baixar a cabeça para os seus problemas. Estava sempre sorrindo em meio as dificuldades e as pressões que a vida lhe impôs. Sempre pensando positivo e vendo o lado bom da vida. Sinto que não sou tão forte quanto ela. Penso enquanto respiro fundo e resolvo seguir o conselho da minha amiga.

— Tudo bem. Eu vou, mas volto correndo. Rapidinho. Prometa que se acontecer qualquer coisa, você ligará para mim — peço e ela assente.

Vou até uma poltrona que fica próxima à cama, pego a minha bolsa e antes de sair beijo sua testa fria. Ainda receosa em deixá-la, eu sussurro um volto logo mãe e saio do quarto em seguida. Do lado de fora, o calor do sol aquece a minha pele fria, devido o ar-condicionado. A brisa suave e o vento acariciam levemente o meu rosto, balançando algumas mechas dos meus cabelos, que se soltaram do coque.  Enquanto caminho para uma lanchonete que fica no térreo, observo algumas pessoas indo e vindo pelas ruas e calçadas.

Mônica tinha razão, eu realmente precisava sair um pouco, respirar ar puro e ver o dia fora daquelas janelas frias.

Ao entrar na lanchonete com pouco movimento, fui direto para o balcão e pedi apenas um sanduíche natural, com salada e frango grelhado e um suco de laranja.  Lembranças de uma noite nada fácil de lidar me inundaram. Observar minha mãe naquele estado me rasgou por dentro. Meu coração se oprimiu e doeu. Imediatamente o nó começa a sufocar em minha garganta e a fome se vai.  Como apenas metade do meu sanduíche e tomo o suco com pressa de voltar para o quarto de minha mãe. Quero estar perto dela o máximo de tempo que eu puder.

No elevador, sinto o meu peito se apertar com uma angústia sufocante que não consigo explicar. É como se algo muito ruim estivesse acontecendo nesse exato momento. Apresso os meus passos assim que as portas se abrem e entro no largo corredor do departamento de oncologia, mas quando me aproximo do quarto, vejo a minha amiga cabisbaixa e do lado de fora.  Agitada, apresso ainda mais os meus passos, sentindo uma pontada desconfortável em meu peito. Angustiado, meu coração perde o seu ritmo.

— O que aconteceu, Mônica? — perguntei com um tom tão baixo, que não tenho certeza se ela me ouviu.

Ela ergue a sua cabeça para mim e eu encontro os seus olhos molhados de lágrimas.

— Por que você está chorando? Onde está a minha mãe? — pergunto com um desespero contido. Medo, estou afogada nesse sentimento agora.

— Os médicos a levaram, Ana — responde com o mesmo tom que acabei de usar. — Eu sinto muito! Ela passou mal e eu não sabia o que fazer.

Olhei nos olhos da minha amiga. Ela tinha uma expressão assustada e logo voltou a chorar, dessa vez me envolvendo em seus braços. Senti minhas barreiras já abaladas irem ao chão e eu desabei ali mesmo. Ficamos entregues à dor e a um silêncio doloroso por alguns minutos.

— As máquinas começaram a fazer um barulho estranho e de repente os médicos e enfermeiras invadiram o quarto e eles me mandaram sair do quarto. — diz agora mais calma. — E eu… juro que não sei o que aconteceu, Ana. — Mônica volta a chorar, dessa vez silenciosa e ainda em seus abraços, me deixo levar pelo pranto e pela dor.

— Deus, me ajude, por favor! Deus, me ajude, por favor! — repito a oração em voz alta, como se fosse um mantra, na esperança de que tudo isso acabe logo.

Eu não aguento mais tanta dor.

Horas se passaram até que o Dr. Reinaldo Vilela, o médico que acompanhava a minha mãe em seus tratamentos desde o início, apareceu.

— Podemos conversar em meu consultório um minuto, Ana?

O seu semblante sério demais me deixou receosa. Hesito, ainda sentada no banco ao lado da minha amiga. Doutor Vilela aparenta ter seus quarenta anos. E apesar de ter os cabelos grisalhos e curtos, que lhe dão um certo charme, ele é um homem bem conservado. Seu semblante calmo transmite muita serenidade, mas faz um contraste grande demais com a sua voz grave e firme. Ele me convida a entrar em seu consultório.

Receosa, eu puxo a respiração para tomar coragem e nesse momento, Mônica segura a minha mão e sussurra que estará aqui fora me esperando. Sei o que ele tem para me falar e não sei se estou preparada para ouvir as suas palavras. Não estou preparada para sua partida, não ainda.

— Não vou te deixar sozinha, amiga — repete e eu assinto.

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